Após lua de mel inicial, relação entre Lula e Trump entra em fase de tensão

Visita a Bolsonaro e debate sobre facções ampliam atritos entre Brasília e Washington

Por Redação TMC | Atualizado em
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, se encontram à margem da 47ª cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), em Kuala Lumpur, na Malásia
Evelyn Hockstein/Reuters

A relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em uma fase de tensão nas últimas semanas, após um período inicial de aproximação entre os dois governos. Episódios diplomáticos recentes e divergências sobre segurança e política interna brasileira têm ampliado o atrito entre Brasília e Washington.

Um dos principais focos de conflito envolve o assessor do governo americano para assuntos relacionados ao Brasil, Darren Beattie. Na sexta-feira (13/03), Lula afirmou que o representante norte-americano não poderá entrar no Brasil enquanto o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, não tiver o visto liberado para os Estados Unidos.

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A decisão veio após o Itamaraty revogar o visto de Beattie, com base no princípio diplomático da reciprocidade. Segundo Lula, a medida responde ao bloqueio de vistos imposto anteriormente à família de Padilha.

“Ele foi proibido de visitar [Jair Bolsonaro] e eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde”, afirmou o presidente.

Visita a Bolsonaro agravou tensão

O episódio envolvendo Beattie ganhou maior repercussão após a tentativa do assessor americano de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão.

A visita havia sido solicitada pela defesa de Bolsonaro e inicialmente autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, responsável pelos processos contra o ex-presidente. Posteriormente, porém, Moraes voltou atrás e negou o encontro, após manifestação do Ministério das Relações Exteriores.

Para o Itamaraty, a visita poderia configurar interferência indevida em assuntos internos do Brasil, já que o assessor americano não tinha agenda diplomática formal no país.

Bolsonaro cumpre pena de 27 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de 2022, e qualquer visita ao ex-presidente precisa ser autorizada pelo STF.

Segurança e facções ampliam divergência

Outro ponto de tensão envolve a discussão dentro do governo americano sobre classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O Departamento de Estado dos EUA afirmou que as facções brasileiras representam “ameaças significativas à segurança regional”, mas não confirmou oficialmente se adotará a classificação formal de terrorismo.

O governo brasileiro é contrário à medida. A avaliação em Brasília é que as organizações criminosas atuam com motivação econômica e não política, o que, segundo a legislação brasileira, não caracteriza terrorismo.

Nos bastidores, diplomatas também temem que uma classificação desse tipo abra caminho para sanções econômicas ou até operações militares estrangeiras sob o argumento de combate ao crime organizado.

Articulações políticas preocupam Planalto

Integrantes do governo brasileiro também avaliam que setores ligados ao movimento conservador americano e aliados do bolsonarismo tentam influenciar a política interna do Brasil.

O nome de Beattie aparece nesse contexto. Antes de assumir o cargo no governo americano, ele fez críticas públicas ao STF e ao governo Lula e demonstrou proximidade com aliados de Bolsonaro.

Além disso, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), cotado como candidato à Presidência, afirmou nas redes sociais que decisões do STF envolvendo o assessor americano poderiam gerar retaliações econômicas dos Estados Unidos contra o Brasil.

Encontro entre Lula e Trump segue indefinido

Apesar do aumento das tensões, os dois governos ainda negociam um encontro entre Lula e Trump, que vem sendo discutido há meses, mas ainda não tem data confirmada.

Enquanto isso, a diplomacia brasileira tenta reduzir os atritos. O chanceler Mauro Vieira chegou a conversar com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, pedindo cautela em decisões sensíveis antes da eventual reunião entre os dois presidentes.

Leia mais: Apoio de Trump a Flávio Bolsonaro pode favorecer Lula, aponta pesquisa Quaest

O cenário atual indica que a relação bilateral entrou em um momento mais delicado, marcado por disputas políticas, divergências sobre segurança regional e episódios diplomáticos que esfriaram o diálogo entre Brasília e Washington.

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