O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo neste domingo (29/03) em resposta a críticas da primeira-dama Janja Lula da Silva. O parlamentar acusou Janja de fazer “silêncio seletivo” sobre situações envolvendo mulheres no governo federal. O embate ocorre durante a tramitação do projeto de lei que criminaliza o discurso de misoginia, aprovado pelo Senado em 24 de março.
Pelas redes sociais, o congressista mineiro chamou a primeira-dama de “sonsa” três vezes. Afirmou que Janja precisa “tomar vergonha na cara” e argumentou que a primeira-dama não se manifesta sobre a redução de espaço de mulheres no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem sobre situações de assédio no Poder Executivo.
Nikolas Ferreira mencionou o caso do ex-ministro dos Direitos Humanos, Silvio Almeida. Ele foi demitido em setembro de 2024 por suspeita de importunação sexual contra várias mulheres, incluindo a ministra Anielle Franco (Igualdade Racial). O caso é objeto de inquérito no Supremo Tribunal Federal que tramita sob sigilo.
O parlamentar citou o vazamento de conversas de Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho mais velho do presidente. Nas mensagens de celular divulgadas, Janja era chamada de “puta” por Lulinha.
“Nunca vi uma nota sua, uma indignação falando ‘Olha, eu discordo disso. Ele precisa ir pra cadeia. Ele foi misógino’. Silêncio porque é o filho do seu marido, o Lulinha”, declarou o deputado.
Sobre o caso do ex-ministro Silvio Almeida, Nikolas afirmou: “E um cara vai cometer um crime no futuro, não dá pra poder prever. Mas sabe o que dá pra fazer após disso? Se manifestar, se posicionar. Foi exatamente isso que você fez, só que o contrário. Você simplesmente se solidarizou com a ministra, mas ficou em silêncio, com a atitude do Silvio Almeida”.
O parlamentar questionou: “Se ele fosse ministro do Bolsonaro, você ficaria em silêncio? Isso não é defender as mulheres. Isso é defender as mulheres que te convêm. E se silenciar quando não te convém. O silêncio seletivo”.
O deputado afirmou que Lula demitiu três ministras do governo atual para “poder abarcar homens do Centrão.” Ele mencionou Ana Moser (Esporte), Nísia Trindade (Saúde) e Cida Gonçalves (Mulheres).
“Uma, inclusive, acusou de ataques de misoginia. Foi mais uma que deu espaço para um homem do Centrão. A outra foi demitida e depois chegou e falou que não foi por incompetência que ela foi demitida”, disse.
Nísia Trindade afirmou em março de 2025 ter sofrido “uma campanha sistemática e misógina de desvalorização” de seu “trabalho, capacidade e idoneidade” durante cerimônia de posse de Alexandre Padilha (PT) na Saúde e de Gleisi Hoffmann (PT) na Secretaria de Relações Institucionais. Cida Gonçalves foi substituída por Márcia Lopes em maio de 2025.
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Nikolas Ferreira mencionou que, em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula, os feminicídios aumentaram no país. “Isso foi no governo não do Nikolas, mas do Lula”, afirmou o deputado.
O congressista justificou sua oposição ao projeto argumentando que a proposta não trata de proteção às mulheres. Ele afirmou que representa “patrulhamento do pode ou não ser dito.”
“É por isso que não adianta vir com essa fala mansa e essa cara de sonsa querer aqui colocar como se eu explicar uma lei da misoginia que, na verdade não tem nada a ver com agressão contra a mulher, mas que está querendo fazer um patrulhamento do que pode ou não ser dito é equiparado à consequência de matar mulheres. E se elas morrem é por causa de discurso de ódio meu e de outros da direita? Toma vergonha na sua cara, Janja. Está todo mundo percebendo que o governo do PT nada mais faz do que piorar a situação das mulheres ao fechar os olhos para os reais problemas que existem, de não combater os verdadeiros responsáveis e ficar fazendo narrativa para ganhar eleitorado”, declarou.
O deputado também afirmou: “Não adianta vir com essa cara de sonsa sua querer enganar alguém”.
Primeira-dama defende aprovação do projeto
A primeira-dama publicou seu vídeo na sexta-feira (27/03). Janja fez um apelo público para que a Câmara dos Deputados aprove rapidamente o projeto que criminaliza a misoginia. Ela também criticou parlamentares que, segundo ela, disseminam informações falsas sobre a proposta na internet, em referência direta a Nikolas Ferreira.
“Nós, mulheres, precisamos que esse projeto seja rapidamente aprovado na Câmara e sancionado pelo presidente da República. Ele é um instrumento importante de proteção à vida das mulheres”, declarou Janja.
A primeira-dama manifestou indignação: “Queria também deixar registrado aqui um pouquinho da minha revolta com um certo grupo de homens ou talvez um específico, que tem a cara de pau de, na internet, fraudar um projeto de lei disseminando fake news”.
Janja criticou diretamente o deputado: “Eu quero dizer que enquanto você, deputado, se preocupava em produzir um vídeo cheio de mentiras e protegendo aqueles homens que vão pra internet disseminar discurso de ódio, uma mulher era assassinada”.
“Nós mulheres não vamos desistir. Nem eu, deputado, não se preocupe. Eu vou estar sempre ao lado das mulheres nessa luta contra esse discurso de ódio. Eu não vou desistir”, disse.
O deputado havia chamado o projeto de “loucura” anteriormente. Essa declaração motivou a resposta da primeira-dama.
Cida Gonçalves afirmou que não foi demitida por incompetência, assédio ou rixa. Ana Moser reclamou de sua demissão. Ela disse que era preciso ter mais mulheres no governo para manter equilíbrio.
O projeto aguarda votação na Câmara dos Deputados. Caso seja aprovado pelos deputados, seguirá para sanção do presidente Lula. Se sancionado, crimes motivados por misoginia passarão a ter o mesmo enquadramento jurídico do racismo. Eles se tornarão inafiançáveis e imprescritíveis.
O projeto relatado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) define misoginia como a manifestação de ódio ou aversão a mulheres. O texto estabelece pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa, para quem injuriar alguém ofendendo a dignidade ou decoro em razão de misoginia. Praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito contra mulheres terá pena de um a três anos. A pena será em dobro para crimes cometidos contra mulheres no contexto de violência doméstica e familiar.
O texto determina que o juiz deve considerar como “discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião, procedência nacional ou condição de mulher.”




