A discussão sobre redução da jornada de trabalho ganhou força em diversas partes do mundo — e experiências concretas ajudam a entender o que muda na prática quando se trabalha menos horas. Casos como Islândia, Reino Unido e França mostram que é possível reduzir o tempo de trabalho sem prejuízo econômico, embora os resultados dependam do modelo adotado.
Na Islândia, a redução virou referência global após um amplo teste realizado entre 2015 e 2019. Trabalhadores passaram de 40 para cerca de 35 ou 36 horas semanais, sem redução de salário, e o resultado foi considerado um marco: a produtividade se manteve ou até aumentou, enquanto o bem-estar melhorou de forma significativa, com menos estresse e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Com o tempo, o modelo se expandiu e hoje atinge grande parte da população.
No Reino Unido, projetos-piloto com semana de quatro dias reforçaram a viabilidade da mudança. Em testes com dezenas de empresas, a maioria decidiu manter a jornada reduzida após o período experimental, indicando que o desempenho foi preservado, ao mesmo tempo em que houve melhora na satisfação dos funcionários e redução na rotatividade. Trata-se de um exemplo de como modelos mais flexíveis podem ser adotados de forma gradual.
Já a França seguiu outro caminho ao estabelecer, por lei, a jornada de 35 horas semanais. A medida ampliou o tempo livre dos trabalhadores, mas também exigiu adaptações importantes. Na prática, empresas reorganizaram turnos e aumentaram a produtividade por hora, e em alguns casos houve intensificação do ritmo de trabalho, mostrando que a redução da jornada exige ajustes estruturais na economia.
Outro exemplo relevante vem da Holanda, onde a redução da jornada aconteceu de forma mais orgânica, sem uma grande reforma legal. Ao longo dos anos, o país consolidou uma cultura de trabalho mais flexível, com forte presença de contratos em tempo parcial e foco em produtividade por hora.
Hoje, os trabalhadores holandeses têm uma média de cerca de 32 horas semanais — uma das menores da Europa, frequentemente distribuídas em quatro dias de trabalho. Mesmo com menos horas, o país mantém altos níveis de produtividade e indicadores econômicos sólidos, tornando-se referência internacional. O modelo, no entanto, levanta debates sobre sustentabilidade no longo prazo, especialmente diante de desafios como escassez de mão de obra e envelhecimento da população.
Outras potências globais
Quando se ampliam as lentes para as maiores economias do mundo, o cenário é bem diferente. Países como a China e a India aparecem entre os que mais trabalham: ambos lideram o ranking do G20, com jornadas médias próximas ou superiores a 46 horas semanais. No caso chinês, a carga pode chegar a cerca de 48 horas por semana, mesmo com tentativas recentes de conter excessos como a cultura “996”.
Na Índia, além da alta carga horária média, o debate sobre jornada ganhou força com propostas controversas de ampliação do expediente em alguns estados e setores, o que evidencia que o país ainda enfrenta desafios para equilibrar crescimento econômico acelerado com qualidade de vida dos trabalhadores.
Nos Estados Unidos, a jornada formal gira em torno de 40 horas semanais, mas o modelo é mais flexível e, em alguns setores — especialmente tecnologia —, há rotinas mais intensas. Já a Russia segue padrões próximos ao limite de 40 horas semanais, com variações conforme o setor.
América Latina
Na América Latina, o cenário ainda é marcado por jornadas mais longas, geralmente entre 44 e 48 horas semanais, mas há movimentos de mudança. O Chile aprovou a redução gradual da jornada de 45 para 40 horas semanais, enquanto a Colômbia também implementa um corte progressivo, com meta de 42 horas. Países como Equador e Venezuela já operam com cargas próximas de 40 horas, indicando que a região começa a acompanhar a tendência global, ainda que de forma mais lenta e desigual.
Na contramão desse movimento, a Argentina adotou recentemente medidas que ampliam a flexibilização das relações de trabalho. Sob o governo de Javier Milei, a reforma trabalhista passou a permitir jornadas diárias de até 12 horas, dentro do limite semanal, com o objetivo de estimular a economia e aumentar a competitividade. A proposta, no entanto, gera controvérsia: críticos apontam que ela pode elevar a carga de trabalho e reduzir proteções aos trabalhadores, colocando o país em contraste com a tendência de redução observada em outras partes do mundo.
No conjunto, as experiências internacionais mostram que produtividade não depende apenas do número de horas trabalhadas, e que jornadas menores tendem a melhorar a saúde mental e a qualidade de vida. Ao mesmo tempo, evidenciam que não existe um modelo único e que a transição exige planejamento, adaptação e diálogo entre empresas, trabalhadores e governos.
O contraste com a Argentina reforça que o debate está longe de um consenso global — mas aponta um ponto em comum: o desafio não é apenas trabalhar menos ou mais, e sim trabalhar melhor.
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