PF investiga governador de Roraima por fraudes em licitações e desvio de verbas

Edilson Damião teria comandado esquema quando era secretário de Infraestrutura, segundo inquérito policial acessado nesta segunda-feira

Por Redação TMC | Atualizado em
(Crédito: Reprodução/Nonato Sousa/Ale-RR)

A Polícia Federal apura o envolvimento do governador de Roraima, Edilson Damião (União Brasil), em uma organização criminosa voltada para fraudes em licitações e desvio de recursos públicos. As condutas investigadas teriam ocorrido quando ele era vice-governador e secretário de Infraestrutura do estado. O inquérito policial foi acessado nesta segunda-feira (13).

Edilson assumiu o governo estadual em 27 de março de 2026, após Antonio Denarium (Republicanos) renunciar ao cargo para disputar uma vaga no Senado.

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Esquema teria envolvido alto escalão do governo

A investigação aponta que Edilson Damião teria comandado o “braço operacional” de um esquema que fraudava processos licitatórios e desviava verbas públicas na Secretaria Estadual de Infraestrutura (Seinf). O governador teria usado sua posição como secretário titular da pasta para viabilizar irregularidades em contratações públicas.

Disney Barreto Mesquita, ex-chefe da Casa Civil, é identificado pela PF como responsável pelo “braço financeiro” da organização. Ele teria atuado na lavagem de dinheiro e como intermediário entre os envolvidos.

O empresário Clóvis Braz Pedra, proprietário da empresa C B Pedra Serviços e Construções Ltda, aparece como um dos principais beneficiados pelas fraudes. A empresa recebeu R$ 162,96 milhões em pagamentos da Secretaria de Infraestrutura entre 2021 e 2025. A secretaria é apontada como a principal fonte de faturamento da companhia.

A Polícia Federal identificou o esquema após analisar celulares apreendidos de três pessoas presas em janeiro de 2026 em Boa Vista. O material revelou um sistema de favorecimento de empresas específicas em licitações da Secretaria de Infraestrutura.

Os investigadores apontam que o esquema teria sido estruturado para beneficiar grupos empresariais determinados. O objetivo era restringir a concorrência em processos licitatórios e garantir resultados previamente definidos.

Também foram presos a assistente administrativa Ana Clara Araújo Cruz de Oliveira e o capitão da Polícia Militar Marcos Holanda Farias. Eles são investigados por lavagem de dinheiro e associação criminosa. A Polícia Federal apreendeu R$ 150 mil em espécie com os três suspeitos.

A Polícia Federal identificou três formas principais pelas quais Edilson Damião teria viabilizado o esquema utilizando seu cargo de secretário.

A primeira envolve o direcionamento de licitações para favorecer empresas específicas na Seinf, como a C B Pedra Serviços e Construções Ltda.

A segunda forma consistia na determinação de que grandes contratos fossem realizados por meio de licitações presenciais, contrariando o pregão eletrônico. Essa prática teria restringido a concorrência e favorecido grupos específicos.

A terceira estratégia identificada foi a antecipação de resultados. Os investigadores encontraram evidências de que uma planilha de emendas parlamentares com nomes de empresários que venceriam licitações, escritos à mão, foi enviada antes da publicação dos editais.

O relatório policial documenta uma relação próxima entre Edilson e o empresário Clóvis. A Polícia Federal aponta que a relação entre Edilson Damião e o empresário Clóvis Braz era pessoal e intimista, com contato frequente e informal.

Segundo o inquérito, eles mantinham conversas por mensagens de forma “críptica e difusa”. As conversas eram geralmente seguidas por ligações telefônicas cujos registros eram apagados.

Em um áudio citado pela Polícia Federal, Clóvis se refere à empresa como “nossa” ao cobrar pagamentos. Os investigadores interpretam isso como possível indicação de benefício mútuo.

Em um dos casos citados, Edilson teria prometido uma licitação a Clóvis. A licitação acabou sendo vencida por outro empreendimento. A PF aponta que a empresa vencedora era controlada ocultamente pelo empresário.

Disney Barreto Mesquita seria responsável pelo aspecto financeiro do esquema. Ele teria funcionado como elo entre os envolvidos e pela lavagem do dinheiro. A lavagem teria sido realizada por meio de uma rede de empresas que incluiria postos de combustíveis, hotéis e outros estabelecimentos usados para ocultar recursos desviados da Secretaria de Infraestrutura.

Em fevereiro de 2026, a Polícia Federal solicitou o envio do caso ao Tribunal de Justiça de Roraima. O Tribunal de Justiça de Roraima passou a supervisionar a investigação devido ao foro por prerrogativa de função do então vice-governador.

Os autos foram encaminhados ao Ministério Público de Roraima. Ao fim da apuração, o MP poderá apresentar ou não denúncia contra os investigados.

Caso a denúncia seja oferecida, os desembargadores do TJRR decidirão se a aceitam ou rejeitam. Como Edilson era vice-governador e secretário de Estado à época, o caso deve ser analisado pelo Tribunal de Justiça de Roraima, responsável por julgar vice-governador e secretários.

O foro por prerrogativa de função, conhecido como “foro privilegiado”, é um mecanismo definido na Constituição. Por conta desse mecanismo, algumas autoridades têm o direito de serem julgadas por crimes comuns em tribunais específicos devido ao cargo público que ocupam.

Edilson Damião e Antonio Denarium serão julgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nesta terça-feira (14). O julgamento trata de abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.

O Governo do Estado de Roraima informou que “não possui conhecimento sobre a suposta investigação”. O governo declarou que ainda não houve nenhum comunicado sobre o processo.

A defesa de Clóvis Braz afirmou que o caso não “foi submetido à apreciação judicial, tratando-se, portanto, de meras ilações desprovidas de suporte probatório concreto”. A defesa disse que se manifestará exclusivamente nos autos do processo.

Em nota, Disney Mesquita disse que “nunca teve e não possui qualquer contrato com o Governo, rechaçando integralmente qualquer associação a irregularidades ou práticas ilícitas”.

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