Vídeos gerados por inteligência artificial estão sendo utilizados para criar vídeos que simulam comemorações populares na Venezuela após a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. Os conteúdos hiper-realistas começaram a circular nas redes sociais desde 3 de janeiro de 2026, acumulando milhões de visualizações em plataformas como TikTok e X. Políticos brasileiros compartilharam esses materiais, mesmo com claros indícios de falsidade.
A prisão do ex-presidente venezuelano, resultado de uma operação militar americana, desencadeou uma onda de desinformação digital. Os vídeos artificiais mostram multidões fictícias festejando e agradecendo ao presidente Donald Trump pela intervenção, eventos que não aconteceram na realidade.
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No Brasil, um vídeo falsamente atribuído ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra) ganhou destaque nas redes sociais. A gravação fabricada por inteligência artificial apresentava supostos integrantes do movimento ameaçando “invadir” os Estados Unidos para libertar Maduro. O MST emitiu comunicado oficial negando qualquer relação com o conteúdo.
Mesmo após o desmentido, o material foi amplamente divulgado por políticos conservadores brasileiros. O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) compartilhou o vídeo e incentivou seus seguidores a fazerem o mesmo, sugerindo uma “vaquinha” para transportar militantes aos EUA. Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, afirmou em suas redes que o movimento estaria “desafiando Trump” e “prometendo guerra”.
A repercussão se estendeu além do Congresso Nacional. Parlamentares estaduais e vereadores utilizaram o conteúdo para fazer ironias, mesmo reconhecendo a possibilidade de ser material gerado artificialmente.
Um dos vídeos falsos de maior alcance internacional foi publicado pela conta “Wall Street Apes” no X. O perfil, que possui mais de 1 milhão de seguidores, divulgou conteúdo mostrando venezuelanos fictícios expressando gratidão aos Estados Unidos. O vídeo ultrapassou 5,6 milhões de visualizações e foi redistribuído por aproximadamente 38 mil perfis, incluindo o do empresário Elon Musk.
A publicação recebeu posteriormente uma marcação da comunidade indicando sua natureza artificial e potencial enganoso, antes de ser removida da plataforma.
O Estadão Verifica checou algumas das publicações utilizando as ferramentas de análise Hive Moderation e Invid, indicando uso de IA na geração dos vídeos.
O realismo e a velocidade com que os vídeos gerados por IA se propagam representam um desafio sem precedentes para a verificação de informações. Ferramentas como Sora e Midjourney permitem criar rapidamente conteúdos visuais convincentes que se misturam ao fluxo de notícias reais.
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Casos semelhantes ocorreram em outros contextos de conflito, como na guerra entre Rússia e Ucrânia e nos confrontos no Oriente Médio. O avanço desse tipo de conteúdo aumenta a pressão sobre as plataformas digitais para aprimorarem seus sistemas de identificação de materiais produzidos por inteligência artificial. Países como Índia e Espanha discutem ou implementam regulamentações mais rigorosas, incluindo multas para conteúdos não identificados corretamente.
Empresas como TikTok e Meta anunciaram ferramentas automáticas para detectar conteúdos gerados por IA, mas o alcance dos vídeos relacionados à situação na Venezuela demonstra que os mecanismos atuais são insuficientes para eventos de grande impacto político.
