Banco Master gastou R$ 60 milhões em eventos de luxo com autoridades, diz jornal

Ex-banqueiro Daniel Vorcaro financiou três encontros em Londres, Nova York e Lisboa entre abril e junho de 2024, com despesas que incluíram jatinhos, degustações de uísque e apresentações artísticas

Por Redação TMC | Atualizado em
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. (Foto: Reprodução/Polícia Federal)

Daniel Vorcaro financiou três encontros de alto padrão com a presença de autoridades brasileiras em Londres, Nova York e Lisboa durante 2024. O ex-banqueiro, então no comando do Banco Master, desembolsou US$ 11,5 milhões, o equivalente a R$ 60 milhões pela cotação atual, de acordo com o jornal “Folha de S. Paulo”. Os eventos ocorreram entre abril e junho daquele ano.

Documentos reunidos pela Polícia Federal detalham os gastos realizados por Vorcaro. As despesas incluíram locação de jatinhos para transporte até Brasília, apresentações com dançarinas, troféus de cristal, degustação e distribuição de uísque. A defesa de Vorcaro informou ao jornal que não se manifestaria sobre os eventos.

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O Master bancou integralmente a agenda do 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias em Londres, realizado entre 24 e 26 de abril de 2024. O hotel Península serviu como sede para as discussões e a hospedagem. O endereço tem custo acima da média até para o padrão de Londres, cidade conhecida como uma das mais caras do mundo.

Vorcaro financiou uma noite de homenagem na véspera da abertura, realizada no Wallace Collection, um museu que dispõe de espaço para recepções. O ex-presidente Michel Temer foi o homenageado da noite e integrava a lista de painelistas.

O banqueiro ofereceu outros encontros em locais luxuosos da cidade ao longo da semana. Um dos almoços ocorreu no Brooklands, restaurante de atmosfera sofisticada com duas estrelas Michelin, localizado no oitavo andar do Península. Outro encontro aconteceu no Gaia, restaurante de alta gastronomia com inspiração mediterrânea.

Um profissional que acompanhou a agenda, e falou na condição de não ter o nome citado, disse à Folha que a ostentação foi particularmente impactante no Annabel’s, um dos clubes privados mais exclusivos de Londres. A exuberância da decoração, que mistura rococó francês e art déco, somada às apresentações artísticas montadas pela equipe de Vorcaro, fazia o ambiente parecer cenário da série Bridgerton, da Netflix, que narra a vida social da aristocracia britânica.

O roteiro também incluiu degustação de uísque Macallan no refinado George Club para os homens e visita a museu para mulheres. Reportagem do site Poder 360 mostrou que estavam presentes nesse encontro os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, do STF, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

O segundo evento aconteceu em Nova York, com o financiamento da semana do Brasil, de 12 a 18 de maio. Vorcaro ofereceu encontros paralelos além de circular em eventos oficiais em que atuou como patrocinador. Houve nova rodada de degustações, desta vez no Carnegie Club, especializado em uísque e charutos.

O terceiro envolveu eventos sociais paralelos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza em referência ao ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), idealizador do encontro. Esse último ocorreu de 26 a 28 de junho. O roteiro de luxo se repetiu, com DJs, dançarinas, restaurantes e até compras em shopping.

Ministros do STF e do STJ participaram

Vorcaro recepcionou três ministros do STF: Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Cinco ministros do STJ (Superior Tribunal de Justiça) também estiveram presentes: Antonio Saldanha Palheiro, Benedito Gonçalves, Luis Felipe Salomão, Mauro Campbell Marques e Raul Araújo.

A lista de autoridades incluía ainda o ministro Ricardo Lewandowski, da Justiça e Segurança Pública, o advogado-geral da União, Jorge Messias, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o presidente do Cade à época, Alexandre Cordeiro.

Representando o Legislativo estavam Hugo Motta, que agora preside a Câmara, e o senador Ciro Nogueira, presidente do PP. A iniciativa privada tinha dois painelistas: o fundador do Grupo FS, Alberto Leite, e Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, representando o banco BTG Pactual.

O Master tinha contrato de R$ 129 milhões com o escritório da esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, que segundo participantes do evento em Londres, acompanhou o marido.

Vorcaro discursou na abertura do evento em Londres, que contou com show do cantor britânico Seal.

O evento de Londres foi o mais custoso. Vorcaro gastou aproximadamente US$ 7,5 milhões, cerca de R$ 38,7 milhões na cotação atual. Informações iniciais vazadas sobre os patrocinadores indicavam que o Grupo FS, da área de cibersegurança, seria o principal financiador. A apuração revelou que a FS contribuiu com R$ 500 mil.

O orçamento indica que Vorcaro pagou a locação da área da conferência e salas de reuniões no hotel. O Master arcou com as despesas de 70 pessoas, sendo 25 participantes do fórum. A despesa com a noite de homenagem incluiu troféus de cristal.

Na semana do Brasil em Nova York, o Master desembolsou US$ 2,5 milhões, cerca de R$ 13 milhões. A prestação de contas detalha que, além dos custos com o open bar, foram gastos US$ 121 mil, equivalentes a R$ 625 mil, com 25 garrafas de uísque Macallan 30 anos para presentear convidados.

Outros profissionais do Master fizeram a viagem em voo de carreira. Vorcaro mobilizou dois jatinhos que, juntos, podem levar até 28 passageiros. Para esses voos, desembolsou US$ 3.600, o equivalente a R$ 18,6 mil, só com alimentação.

Em Portugal, o custo ficou em US$ 1,6 milhão, equivalentes a R$ 8,3 milhões. A despesa ainda abarcou a locação de dois jatinhos fretados de Lisboa para Brasília, por US$ 232,6 mil, o equivalente a R$ 1,2 milhão, nos dias 28 e 29 de junho. Os jatos foram utilizados por outros participantes do evento. Vorcaro seguiu no dia 28 para os EUA.

As investigações sobre o caso Master revelaram que Vorcaro estabeleceu vínculos profissionais e pessoais com autoridades que participaram dos encontros, incluindo familiares dessas autoridades.

A família do ministro Dias Toffoli foi sócia do resort Tayayá por meio da empresa Maridt, que possuía participação relevante no empreendimento. A fatia foi vendida entre 2021 e 2025 a fundos de investimento ligados ao entorno de Vorcaro, incluindo estruturas associadas ao Banco Master.

Moraes, Viviane e Toffoli utilizavam jatos da empresa Prime, ligada a Vorcaro.

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O Grupo Voto promoveu oficialmente o fórum de Londres para debater contribuições jurídicas em temas como democracia, segurança e estabilidade institucional. A imprensa não teve acesso às discussões.

Procurado pela reportagem, o Grupo Voto afirmou que não tinha responsabilidade pelo entretenimento em paralelo ao fórum. Participantes do evento informaram que a agenda para socialização dos painelistas, seus familiares e convidados sempre constou da programação, conforme é praxe nesses encontros.

A reportagem entrou em contato com os painelistas, por meio das instituições que representavam, para que comentassem sobre o risco de conflito de interesse. Nos eventos, as agendas pública e privada se misturam em ambientes informais e com entretenimento suntuoso.

As assessorias do STF, do STJ, da AGU, do Ministério da Justiça, do BTG, do senador Nogueira, do empresário Leite e de Faria não enviaram manifestações.

A assessoria da PGR informou que o procurador-geral da República participou do evento como palestrante, integrando a programação ao lado de autoridades do Judiciário e de acadêmicos do Brasil e do exterior. O convite não mencionou detalhes da organização.

A assessoria do deputado Hugo Motta afirmou que a participação em eventos institucionais é própria da atividade política. “Cabe a cada parlamentar decidir, em cada caso em que é convidado, pela sua presença, independentemente de quem os organiza e promove: seja órgão da mídia, empresas, instituições financeiras ou acadêmicas”, afirmou o texto.

Por meio da assessoria de imprensa, Lewandowski disse que foi a Londres como painelista. Como então ministro da Justiça, aproveitou a viagem para cumprir agendas de interesse da pasta. Ele firmou com autoridades inglesas um acordo para o combate ao crime organizado, incluindo corrupção e lavagem de dinheiro.

A assessoria da PF destacou que o diretor-geral da instituição também cumpriu agendas oficiais. Ele participou como painelista, sem acompanhante familiar. “Os resultados das ações da Polícia Federal evidenciam que a participação do diretor-geral em eventos dessa natureza em nada afeta o cumprimento das atribuições constitucionais e legais da Instituição”, disse o texto.

O Cade enviou nota afirmando que faz parte de suas atribuições como órgão da concorrência estar presente em eventos institucionais que tratem de suas funções.

A assessoria do ex-presidente informou que Michel Temer exige saber a fonte pagadora quando contratado para eventos. No caso do fórum em Londres foi a convite e também homenageado.

O Grupo Voto, em nota, disse que foi responsável apenas pela organização e curadoria. Os patrocinadores, como ocorre nesse tipo de evento, arcaram com as despesas. “Ressaltamos que este foi o único projeto realizado com o patrocínio do Master e que, à época, não havia qualquer suspeita pública sobre a instituição financeira, cujas investigações só vieram à tona no final de 2025”, afirmou o texto.

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