Pesquisadores brasileiros identificaram que cuidadores de pessoas com Alzheimer apresentam níveis reduzidos de estresse quando adotam estratégias voltadas para a resolução de problemas. A pesquisa foi publicada na Revista Dementia & Neuropsychology nesta sexta-feira (16/01). O estudo, conduzido pela Universidade Cesumar em colaboração com outras três instituições brasileiras, analisou como diferentes abordagens de enfrentamento afetam o bem-estar dos cuidadores.
A investigação demonstrou que métodos ativos de resolução de problemas, como planejamento e gerenciamento prático das situações estressoras, estão associados a menores níveis de estresse e sobrecarga. Em contrapartida, abordagens baseadas apenas em emoções ou religiosidade mostraram correlação com maiores níveis de estresse.
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O trabalho surgiu da necessidade de compreender os fatores que influenciam a saúde mental dos cuidadores, considerando os desafios do cuidado diário de pessoas com Alzheimer. Os pesquisadores buscaram identificar quais abordagens são mais eficazes para reduzir o impacto emocional dessa atividade.
Perfil dos participantes
A pesquisa contou com 126 cuidadores que responderam a um questionário online. Do total, 118 eram mulheres e apenas 8 homens. A maioria tinha entre 40 e 59 anos (61,9%), ensino superior completo (60,3%), vivia com parceiros (54,8%), se identificava como branca (64,2%) e recebia entre um e dois salários mínimos mensais (42,1%).
A avaliação foi realizada em Maringá e outras localidades onde os participantes residiam, utilizando a Escala Modo de Enfrentamento de Problemas (EMEP), que analisa quatro tipos de estratégias.
Resultados e correlações
Os dados revelaram que os cuidadores apresentaram nível moderado de estresse percebido (média de 29,2%) e sobrecarga entre leve e moderada (59,1%). Na análise das estratégias, o foco no problema obteve a maior pontuação (64,6), seguido pelo foco na emoção (40,3), religião ou fantasia (23,8) e busca por suporte social (16,5).
As correlações estabelecidas pela pesquisa mostraram que o enfrentamento focado no problema está associado a menos estresse e menor sobrecarga. Por outro lado, o foco na emoção apresentou associação com mais estresse e maior sobrecarga.
As estratégias baseadas em religiosidade/fantasia e suporte social também se correlacionaram com maior sobrecarga, embora em intensidade mais fraca. Os pesquisadores ainda não determinaram por que o suporte social, geralmente considerado benéfico, mostrou correlação com maior sobrecarga neste estudo específico.
Recomendações e conclusões
Com base nos resultados, os pesquisadores recomendam a criação de políticas públicas direcionadas a programas psicoeducacionais para cuidadores, além de centros de suporte emocional e ações comunitárias de treinamento em modos de enfrentamento adaptativos.
Daniel Vicentini de Oliveira, coautor da pesquisa da Universidade Cesumar, alerta sobre os resultados encontrados: “Embora emoções e religiosidade sejam dimensões valiosas da vida do cuidador, quando utilizadas como única estratégia, podem elevar a vulnerabilidade emocional.”
Sobre a correlação entre busca de suporte social e sobrecarga, o pesquisador explica: “Isso sugere que, no contexto do cuidado da pessoa com Alzheimer no Brasil, o suporte social pode ser insuficiente ou pouco resolutivo, o que faz com que essa estratégia não alivie totalmente o peso do cuidado. Esses achados reforçam sua complexidade psicológica.”
Vicentini destaca ainda a importância de estratégias ativas: “Não se trata apenas de ‘ter apoio’, mas de ser treinado para lidar de forma estruturada com os desafios diários”, orienta o especialista.
“Cuidar de alguém com Alzheimer não é apenas uma tarefa prática, é um processo emocional profundo, que exige preparação e suporte. O estudo sugere que treinar cuidadores para adotar estratégias mais ativas pode mudar radicalmente sua saúde mental, prevenindo adoecimento e aumentando a qualidade do cuidado oferecido. É um campo emergente e urgente: se queremos cuidar bem de pessoas com Alzheimer, precisamos cuidar primeiro de quem cuida”, conclui o pesquisador.
