A interferência da inteligência artificial nos relacionamentos deixou de ser caso isolado e virou pauta séria no direito de família. Desde junho (06/24), advogados nos EUA e no Reino Unido relatam um crescimento expressivo de divórcios motivados por envolvimento emocional com chatbots, segundo a Wired. Conversas íntimas, gastos escondidos e até compartilhamento de dados bancários com bots são citados como motivos de ruptura. A dúvida que domina casais e tribunais é direta: isso é traição?
Quando o romance com IA vira motivo real de separação
A advogada Rebecca Palmer relata que pessoas com necessidades emocionais não atendidas são as mais vulneráveis a desenvolver laços com a IA, principalmente quando o casamento já está fragilizado. Em um caso compartilhado no Reddit, uma mulher terminou uma união de 14 anos após descobrir que o marido gastou milhares de dólares em um aplicativo que simulava garotas menores de idade e chamava a companheira virtual de “sexy Latina”.
Outro episódio, investigado pela Wired, mostra Eva, de Nova York, que encerrou seu relacionamento humano após admitir que os vínculos com seus bots ficaram “fortes demais” e passaram a parecer traição emocional. Tribunais começam a registrar situações semelhantes, com casais citando a IA como causa direta de desgaste ou dissolução.
É infidelidade? A lei ainda não sabe, mas já discute
Pesquisas recentes da Clarity Check e do Instituto Kinsey mostram que 60% dos solteiros acreditam que relacionamentos com IA configuram traição. Para muitos, o envolvimento emocional é suficiente para caracterizar infidelidade, mesmo sem contato físico ou outra pessoa na equação.
Palmer afirma que já acompanha casos que envolvem compartilhamento de informações sensíveis, como números de contas bancárias e documentos pessoais. Em algumas situações, o vínculo com a IA consumia tanto tempo e energia que afetava até desempenho profissional. Isso pode influenciar processos envolvendo divisão de bens e guarda de filhos.
Estados começam a reagir. A Califórnia discute classificar a IA como “terceiro não humano”, permitindo que ela seja citada como causa de divórcio, mas nunca reconhecida como pessoa. Já Ohio tenta impedir qualquer tipo de reconhecimento simbólico de relações íntimas entre humanos e bots.
Quando dinheiro e lei entram em jogo
Nos EUA, trair é crime em 16 estados. Em Michigan, Wisconsin e Oklahoma, adultério é felonia, com possibilidade de prisão e multas altas. Advogados avaliam que, dependendo da interpretação, um romance com IA pode sim entrar nesse debate, especialmente quando há assinaturas secretas, pagamentos recorrentes e uso indevido do patrimônio comum.
Em estados de comunhão parcial, como Arizona e Texas, um parceiro pode alegar dissipação de bens se comprovar gastos expressivos com companhias virtuais, o que afeta diretamente decisões sobre patrimônio.
Guarda dos filhos também pode ser afetada
Juízes começam a analisar se longas horas em conversas íntimas com chatbots indicam falta de discernimento. Quando isso envolve negligência com crianças, pode pesar negativamente em batalhas de custódia. Para os tribunais, o tempo gasto com IA pode demonstrar desconexão da vida familiar.
Especialistas como Elizabeth Yang preveem que a IA será cada vez mais central nas separações. Bots mais empáticos e realistas tendem a atrair indivíduos em casamentos desgastados, podendo gerar um novo pico de divórcios, como o registrado na pandemia.
Legisladores tentam impor limites antes que o problema exploda
No Reino Unido, a Divorce-Online registra aumento de divórcios citando apps como Replika e Anima como causa de “apego emocional”. Em 2026, a Califórnia passará a exigir verificação de idade, pausas obrigatórias e banirá que bots atuem como profissionais de saúde. Empresas que criarem deepfakes ilegais podem ser multadas em até US$ 250 mil.
Para Palmer, o fenômeno lembra o impacto das redes sociais nos relacionamentos. A IA, segundo ela, é apenas a evolução natural desse padrão. E a tendência é clara: quanto mais realista a tecnologia, mais ela se tornará um elemento central nas crises conjugais.
Com informações da Wired
