Pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) comprovaram que inseticidas do tipo diamida antranílica impactam a sobrevivência e a capacidade de voo das abelhas africanizadas. O estudo, realizado em ambiente laboratorial, será publicado no Brazilian Journal of Biology e analisou os efeitos dos compostos clorantraniliprole e ciantraniliprole, amplamente utilizados na agricultura brasileira.
A investigação avaliou os impactos desses produtos químicos nas abelhas por meio de dois métodos de exposição: pulverização direta e ingestão de alimentos contaminados. Os resultados indicaram que, apesar da mortalidade relativamente baixa em ambas as situações, o contato direto com os inseticidas mostrou-se mais nocivo aos polinizadores.
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O trabalho foi desenvolvido como parte de uma pesquisa de mestrado na UFCG, com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O projeto atende às necessidades dos agricultores que buscam informações sobre proteção das abelhas em áreas cultivadas.
Motivação e resultados da pesquisa
O engenheiro agrônomo Ewerton Marinho da Costa, doutor em fitotecnia e professor da UFCG, orientou o estudo. “A principal motivação foi gerar informações para auxiliar na conservação das abelhas em áreas agrícolas. Essa é uma demanda dos produtores, que precisam de subsídios em relação aos efeitos de inseticidas sobre as abelhas para adoção de estratégias mitigadoras de risco”, afirma Costa.
Entre os inseticidas analisados, um deles demonstrou maior potencial de dano. “Observamos que a exposição direta foi mais prejudicial às abelhas. Dentre os dois inseticidas, o ciantraniliprole causou os maiores percentuais de mortalidade”, relata o professor.
Impactos na capacidade de voo
A equipe da UFCG também examinou como os produtos afetam a mobilidade dos insetos, fator essencial para atividades como coleta de néctar, polinização e retorno à colmeia. Os experimentos compararam abelhas expostas aos inseticidas com um grupo controle tratado apenas com água destilada.
“A capacidade de voo das abelhas foi afetada, mesmo que de maneira sutil, após a exposição direta às gotículas da pulverização com os inseticidas”, explica Costa. De acordo com o pesquisador, qualquer comprometimento na mobilidade pode prejudicar a polinização e diminuir a obtenção de alimento pelas abelhas.
O estudo demonstrou que mesmo produtos que não provocam mortalidade elevada podem comprometer a locomoção dos insetos, afetando todo o ciclo produtivo agrícola dependente da polinização.
Descobertas inesperadas
Durante a pesquisa, alguns resultados não eram esperados pelos cientistas. “Mesmo conhecendo o mecanismo de ação dos inseticidas, surpreendeu o fato da baixa mortalidade proporcionada em ambos os modos de exposição em comparação com o controle positivo. Outro ponto que gerou impacto foi o efeito adverso na capacidade de voo”, destaca Costa.
Aplicações práticas
Os dados obtidos serão aplicados para orientação de produtores rurais. “Os resultados serão utilizados para orientar produtores sobre formas de mitigação de riscos para abelhas em condições de campo, destacando os ingredientes ativos mais prejudiciais e aqueles que causam baixa ou praticamente nenhuma mortalidade”, diz o professor.
Os pesquisadores reconhecem a importância de complementar o estudo com avaliações em condições reais de campo, considerando variáveis ambientais como temperatura, vento e horário de aplicação dos produtos.
