Um grupo internacional de pesquisadores propõe que programas aeroespaciais adotem uma nova área de estudos voltada para intimidade e sexualidade em viagens extraterrestres. A proposta foi detalhada em artigo científico publicado na revista The Journal of Sex Research. A Nasa afirma que nenhum ser humano já teve relações sexuais fora da Terra.
Simon Dubé, da Universidade de Concórdia, no Canadá, lidera a equipe que defende a adoção da sexologia espacial. O trabalho define a disciplina como “o estudo científico da intimidade e sexualidade extraterrestre”. Os pesquisadores apresentaram uma estrutura de pesquisa baseada em três dimensões: biológica, psicológica e social. Essa abordagem interdisciplinar orientaria discussões sobre riscos e benefícios de qualquer forma de expressão sexual ou íntima fora da Terra.
A iniciativa surgiu após os cientistas constatarem que agências aeroespaciais não dedicam atenção ao tema da sexualidade humana no espaço. Isso ocorre mesmo com o planejamento de missões de longa duração. Os pesquisadores observam que a vida em habitats espaciais poderá impactar as funções reprodutivas e sexuais dos astronautas. Novos protocolos de abstinência e higiene íntima poderão ser necessários.
Agências espaciais evitam o tema
A Nasa, a ESA e a Roscosmos não proíbem explicitamente o sexo no espaço. O assunto é tratado com discrição. Raramente é discutido em público pelas agências. A Nasa alega historicamente que uma eventual atividade sexual no espaço complicaria a dinâmica da equipe. A agência aponta surgimento de ciúmes, conflitos interpessoais e influência nas hierarquias como possíveis consequências.
A agência espacial norte-americana enviou ao espaço, sem saber, um casal recém-casado em uma mesma missão em 1992. As referências a sexo no espaço se limitaram até hoje a estudos dos impactos da radiação e da micro ou hipergravidade na reprodução animal. As pesquisas foram realizadas apenas com roedores, anfíbios e insetos.
A situação dos astronautas da Nasa, Butch Wilmore e Suni Williams, gerou especulações nas redes sociais. Os dois ficaram no espaço, a bordo da ISS, depois que a nave de testes Starliner, da Boeing, retornou à Terra sem a tripulação. Uma das fantasias mais compartilhadas nas redes sociais é a de que Butch Wilmore e Suni Williams poderiam passar o tempo livre fazendo sexo. Os pesquisadores consideram essa especulação invasiva e desrespeitosa. Butch Wilmore e Suni Williams são casados com parceiros de longa data na Terra.
Simon Dubé e seus colegas defendem que liberar o erotismo extraterrestre poderia melhorar a saúde mental dos astronautas. A medida ajudaria os tripulantes a se adaptar à vida espacial. Promoveria o bem-estar dos habitantes de futuros assentamentos em outros planetas. Os autores afirmam que “na prática, a ciência de foguetes pode nos levar ao espaço sideral, mas serão as relações humanas que determinarão se sobreviveremos e prosperaremos como uma civilização espacial”.
Os autores lembram que a sexualidade humana transcende a simples função reprodutiva. O conceito abrange um conjunto de aspectos psicológicos, vínculos emocionais e interações interpessoais. Os pesquisadores destacam que amor e sexo também são buscados por diversão e prazer. O estudo defende que a exploração espacial tenha a coragem de abordar as necessidades íntimas dos humanos de forma honesta e holística.
“Para avançarmos, as organizações da área devem parar de evitar os tópicos sexuais e reconhecer por completo a importância do amor, do sexo e das relações íntimas na vida humana”, defendem os cientistas no The Conversation.
Os pesquisadores argumentam que a sexologia espacial pode ter um impacto positivo em alguns problemas persistentes na ciência e nas forças armadas. Isso inclui sexismo, discriminação e violência ou assédio sexual. Os cientistas propõem que a CSA assuma o pioneirismo do tema e vá “onde ninguém jamais esteve”, em referência à série Jornada nas Estrelas. Não há informações sobre quando ou se a CSA adotará a proposta dos pesquisadores.




