Flávia, criadora do perfil @corro_pra_descansar, corre há 12 anos, já acumulou sete maratonas, quase 40 meias e começou na corrida para fugir do sedentarismo, do sobrepeso e de um histórico familiar pesado: a mãe era fumante, sedentária, alcoólatra e morreu cedo. Eduardo, o “@marido_excepcional”, era o oposto: esportes coletivos de vez em quando, mais de 100 kg na balança, gordura no fígado e a certeza de que “corrida não é pra mim”. O ponto de virada veio quando ela correu a Maratona de Nova York, em (11/23), e, na chegada, pediu: “Quero cruzar uma linha de chegada com você.”
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Quando o “plim-plim” do cartão decide seu futuro
De volta ao Brasil, o casal se inscreveu em dupla no sorteio da Maratona de Berlim. Meses depois, a confirmação não veio por e-mail, mas em forma de susto: 400 euros debitados no cartão. Sem direito a arrependimento, Eduardo ouviu do treinador que precisaria de 30 meses para sair do zero até os 42 km – mas só tinha 10. Entrou em assessoria, passou por check-up, teste ergométrico, cardiologista e começou a sequência clássica: prova de 5 km, 10 km, 15 km e a primeira meia maratona até encaixar um longão por fim de semana. Nesse processo, perdeu 15 kg e deixou o sedentarismo para trás.
Enquanto ele descobria o prazer (e a dor) de acordar às 5h da manhã, Flávia abria mão do próprio pace – já tinha 4h05 como melhor marca em maratona – para correr ao lado do marido. Ela trocou a busca por recorde pessoal pelo projeto maior: viver a primeira major juntos, mesmo que isso significasse diminuir o ritmo e respeitar as pausas dele para caminhar, respirar e seguir. No dia da prova, em Berlim, com 27 ºC e um calor improvável para setembro na Alemanha, o plano funcionou: os dois cruzaram o Portão de Brandemburgo em 5h20, de mãos dadas e com a sensação de que o cartão de crédito, dessa vez, tinha comprado bem.
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Família na pista, boletos e longão no sábado
Nada disso aconteceu em laboratório. Flávia e Eduardo têm três filhos – Ana (19), Alice (16) e Felipe (10) – e precisaram encaixar seis treinos por semana (quatro de corrida, dois de fortalecimento) em meio a escola, namoro das adolescentes, futebol, vôlei, trabalho CLT e vida real. Muitas vezes, o plano dependia de vizinho, amigo, irmã mais velha ou amiguinhos do prédio para segurar o caçula enquanto o casal fazia os longões de 30 km no sábado de manhã e voltava já com o café da manhã – e, às vezes, até o almoço – na sacola.
O resultado apareceu em casa antes de qualquer medalha. As filhas passaram a comentar como o pai tinha emagrecido e “rejuvenescido”, o Felipe vê os dois correndo e cresceu no ambiente em que esporte é regra, não exceção. Hoje, a família inteira se mexe: ele é goleiro, uma das meninas joga vôlei, a outra corre sempre que pode. Flávia resume com uma frase que aprendeu na pele: “A palavra convence, mas o exemplo arrasta.” E, na casa dos Siqueira, quem arrasta é o tênis amarrado às 5h da manhã.
Do “corro pra descansar” à pressão de inspirar
Na entrevista ao Corre TMC, Flávia contou também o outro lado da vida de influenciadora de corrida: o lado bom é receber mensagens de gente que saiu pra treinar porque viu um vídeo dela, ou de quem encontrou na corrida um alívio para depressão e ansiedade – exatamente como aconteceu com ela, que batizou o perfil de “Corro pra descansar” para quebrar a ideia de que corrida é só performance. Já o lado ruim é lidar com comentários sobre corpo, pace, roupa e vida pessoal de um jeito gratuito e agressivo. Mesmo assim, ela insiste em usar a vitrine para falar de saúde física, saúde mental e qualidade de vida, não de padrão.
Eduardo, mais raiz e menos Instagram, também abriu o jogo: o que ele mais gosta é da socialização – grupos de corrida, amigos novos, rotina mais leve e a sensação de ter ganhado “10 ou 20 anos de vida” nos exames de sangue. O que menos gosta? “Dói tudo.” Entre treinos na chuva, boné que ele jurou que nunca usaria e bermuda de compressão com bolso para gel, o ex-jogador de basquete de fim de noite virou o cara que corre meia maratona quase todo fim de semana no ciclo de prova.
Dá para sair do zero ao 42? Dá, mas não na loucura
A mensagem que o casal deixou no fim do programa é simples, mas sem romantização: é possível sair do zero e chegar a uma maratona em 10 meses, porém com acompanhamento médico, orientação profissional, disciplina e, principalmente, respeito ao próprio tempo. Caminhar faz parte, ajustar a rotina faz parte, trocar balada por longão também. No meio desse caos organizado, eles ainda seguram um mantra que combina com a audiência do Corre TMC: corrida é sobre longevidade, família, cabeça no lugar – e, claro, medalha, bananinha e café da manhã reforçado depois da prova.
