O governo de Donald Trump está discretamente preparando um processo judicial contra a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, incluindo a elaboração de uma acusação criminal, uma das várias ferramentas usadas para reforçar a influência de Washington sobre Caracas, segundo quatro pessoas familiarizadas com o assunto.
Promotores federais reuniram possíveis acusações de corrupção e lavagem de dinheiro e comunicaram a Rodríguez que ela pode ser processada, caso não continue a cumprir exigências do governo Trump após a destituição do ex-líder venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro, disseram as fontes.
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O gabinete do procurador federal em Miami está elaborando o rascunho das acusações, que vem sendo desenvolvido há cerca de dois meses. A investigação se concentra no suposto envolvimento de Rodríguez na lavagem de recursos da estatal petrolífera venezuelana PDVSA, abrangendo atividades entre 2021 e 2025.
O Departamento de Justiça dos Estados Unidos se recusou a comentar a reportagem. O vice-procurador-geral Todd Blanche afirmou na rede X que a informação era “completamente falsa”. A Casa Branca e o Departamento de Estado dos Estados Unidos não responderam às perguntas enviadas.
Além da possível acusação, autoridades norte-americanas teriam entregue a Rodríguez uma lista com pelo menos sete ex-integrantes do partido governista e aliados que Washington deseja ver presos ou mantidos sob custódia na Venezuela para eventual extradição.
Rodríguez enfrenta essa pressão apenas dois meses após assumir o poder, depois de uma operação das forças especiais dos EUA que capturou Maduro e o levou a Nova York para responder a acusações de narcoterrorismo e tráfico de cocaína. O ex-presidente se declarou inocente e aguarda julgamento.
Publicamente, Trump chegou a elogiar a cooperação de Rodríguez com os Estados Unidos e descreveu a Venezuela como “nossa nova amiga e parceira” em discurso sobre o Estado da União.
Nos bastidores, porém, a possível acusação é vista como mais uma ferramenta de pressão dos EUA para forçar integrantes do governo venezuelano a atender demandas de Washington.
Desde a captura de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro, Trump tem contado com Rodríguez para manter estabilidade no país, enquanto prioriza o acesso de empresas norte-americanas às reservas de petróleo venezuelanas, membro da OPEP.
Entre autoridades do governo de Rodríguez que já foram indiciadas nos EUA estão o ministro do Interior Diosdado Cabello e o ministro da Defesa Vladimir Padrino, ambos integrantes históricos do Partido Socialista Unido da Venezuela, fundado por Hugo Chávez. Eles negam qualquer irregularidade.
Entre os nomes apresentados pelos EUA está Alex Saab, considerado um dos principais operadores financeiros do chavismo. Ele foi preso em Cabo Verde em 2020 após alerta da Interpol, extraditado para os EUA e acusado de suborno e lavagem de dinheiro ligados a um esquema que teria desviado US$ 350 milhões.
Saab foi libertado em 2023 após troca de prisioneiros no governo Biden, mas voltou a ser detido recentemente pelo serviço de inteligência venezuelano SEBIN, segundo fontes. Há também uma nova acusação sigilosa de lavagem de dinheiro contra ele nos Estados Unidos.
Se extraditado novamente, Saab poderia fornecer informações que reforçariam processos contra Maduro, segundo uma fonte próxima ao caso. Ainda não está claro, porém, se isso ocorrerá, já que a legislação venezuelana proíbe a extradição de cidadãos do país.
Outro nome citado é o magnata da mídia Raúl Gorrín, que também teria sido detido recentemente na Venezuela e enfrenta várias acusações federais nos EUA, incluindo suborno, corrupção e lavagem de dinheiro ligados à PDVSA.
- Por Reuters
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