A morte do cãozinho Orelha é uma história que comoveu o país e, pessoalmente, me tocou profundamente. Não estamos falando apenas de um caso isolado de violência, mas de uma quebra de confiança devastadora. Orelha não era um animal de rua comum; ele era um cão comunitário, parte integrante daquela vizinhança.
Para entender a dinâmica dessa tragédia, precisamos analisar o comportamento animal. Cães que vivem na rua, em situação de abandono total, geralmente desenvolvem um comportamento evasivo. Eles são medrosos, evitam o contato humano e vivem em estado de alerta constante, pois isso é vital para sua sobrevivência. Não era o caso do Orelha.
Pelos relatos, ele era um animal idoso, bem cuidado, com acesso a abrigo, comida e, principalmente, afeto. Ele não tinha os traumas de um cão que precisa lutar para viver. Por se sentir seguro e ter histórico positivo com as pessoas, ele não fugiu. Pelo contrário, sua própria sociabilidade o levou até aqueles adolescentes. Ele foi traído pela confiança que aprendeu a ter nos seres humanos.
Mas, para além da vítima, precisamos falar urgentemente sobre os agressores e o ambiente que gesta tal crueldade. Tenho conversado com delegados e especialistas, e surge um padrão alarmante que muitos pais desconhecem: o papel de certas plataformas digitais e fóruns de jogos, como Discord e Roblox.
Não se trata de demonizar a tecnologia, mas de entender que, dentro dessas plataformas, existem grupos privados que promovem desafios de crueldade. Adolescentes, em busca de pertencimento e autoafirmação, são coagidos ou incentivados a cometer atos de violência contra animais.
É crucial lembrar que o cérebro adolescente ainda está em formação — especificamente o córtex pré-frontal, responsável pelo julgamento e controle de impulsos. Quando expostos repetidamente a esses conteúdos nesses grupos, esses jovens sofrem um processo de “dessensibilização”. A violência passa a ser normalizada, vista como um passaporte para a aceitação social. Por isso, deixo aqui um apelo aos pais: fiscalizem o celular de seus filhos. Monitorem o acesso à internet. A supervisão é a única barreira entre a curiosidade infantil e a cooptação por grupos violentos.
Muitos também questionam: “Por que ninguém colocou o Orelha para dentro de casa?”. Aqui entra o conceito de cão comunitário. Muitas vezes, animais que já têm uma rotina estabelecida, com liberdade e amparo de vários vizinhos (como vemos em postos de gasolina ou ruas tranquilas), não se adaptam ao confinamento de um apartamento. Retirá-lo de seu ambiente, onde ele tem referências e é feliz, pode ser prejudicial. O erro não foi da comunidade que cuidava dele, mas da maldade externa que o atingiu.
Por fim, sobre a justiça. Infelizmente, diante da crueldade e do sadismo deste crime, sou cético quanto à punição efetiva destes jovens, dadas as brechas em nosso sistema e, por vezes, influências externas. No entanto, há um movimento social inegável: o cão deixou de ser apenas um animal de quintal para se tornar um membro da família. A sociedade não tolera mais a impunidade.
As leis estão endurecendo porque a nossa moral mudou. Ainda que neste caso específico a sensação de injustiça possa prevalecer, o caminho para penas mais duras é sem volta. Orelha pagou com a vida, mas sua história força a sociedade a olhar para onde estamos falhando na educação digital de nossos jovens.
