Um estudo exclusivo da TMC, conduzido pelo Instituto Esfera e coordenado pelo professor Luís Fernando Massonetto (USP), acende um alerta vermelho para o esporte brasileiro: o atual modelo de regulação das “bets” pode estar empurrando os apostadores para a clandestinidade. O relatório será apresentado oficialmente em Brasília nesta terça-feira (24/02).
O levantamento revela que as plataformas ilegais já detêm entre 41% e 51% do mercado, movimentando até R$ 40 bilhões por ano. Esse cenário não apenas gera uma perda tributária de R$ 10 bilhões ao Estado, mas coloca em risco a integridade das competições esportivas.
Por que o mercado ilegal cresce?
Diferente do que se esperava, a regulação atual acabou criando uma “margem competitiva” para os sites irregulares. O estudo aponta três motivos principais:
- Cotações (odds) atraentes: Como não pagam impostos nem taxas de conformidade, os sites clandestinos oferecem prêmios maiores.
- Menos burocracia: Plataformas legais exigem travas de segurança, como reconhecimento facial, que são ignoradas pelo mercado paralelo.
- Dificuldade de identificação: Segundo o Instituto Locomotiva, 78% dos apostadores não sabem diferenciar um site legalizado de um clandestino, já que as marcas ilegais simulam a aparência das autorizadas.
O risco para a credibilidade do esporte
A expansão do mercado ilegal é um terreno fértil para a falta de controle. Quando as apostas migram para o circuito clandestino, perde-se a capacidade de monitorar padrões suspeitos que indicam manipulação de resultados.
Em plataformas legalizadas, há mecanismos de monitoramento e cooperação com as autoridades esportivas. No mercado paralelo, essa proteção desaparece, deixando atletas e competições vulneráveis a esquemas criminosos que podem manchar a imagem do futebol e de outras modalidades.
Em 2023, por exemplo, a Operação Penalidade Máxima deixou os fãs de futebol de cabelo em pé. Trata-se do maior escândalo de manipulação de resultados da história recente do futebol brasileiro. Investigada pelo Ministério Público de Goiás, a operação revelou um esquema em que jogadores eram aliciados por organizações criminosas para forçar eventos específicos em jogos das Séries A e B do Brasileirão.
Os atletas atuavam para receber cartões amarelos ou vermelhos, cometer pênaltis ou garantir um número específico de escanteios. Diversos jogadores foram banidos do futebol ou suspensos por longos períodos, como Eduardo Bauermann e Alef Manga, além de enfrentarem processos criminais.
Tributação como “bônus” para a clandestinidade
O estudo critica medidas como a CIDE-Bets (imposto de 15% sobre depósitos aprovado pelo Senado em 2025). Para os especialistas, em um ambiente digital onde o apostador pode migrar para um site estrangeiro com um clique, aumentar impostos sobre os operadores honestos funciona como um incentivo para o mercado ilegal.
“A experiência internacional mostra que o excesso de restrições costuma provocar uma explosão do mercado paralelo em vez de reduzir o vício”, aponta o relatório.
A pesquisa também lembra que o Brasil possui uma “contradição estrutural” desde o período colonial: criminaliza jogos populares, como o jogo do bicho, enquanto mantém monopólios estatais. Para os autores, se a regulação atual focar apenas em arrecadar impostos, sem garantir que o mercado legal seja competitivo e seguro, o país corre o risco de ver a integridade do seu esporte sufocada pela ilegalidade.
Leia mais: Brasil consolida-se como o 5º maior mercado de apostas do mundo
