Mortes de migrantes no Irã superam EUA e Líbia desde 2023 com 3.995 casos

Rotas afegãs apresentam condições extremas com travessias montanhosas no inverno e acesso limitado a serviços de proteção humanitária

Por Redação TMC | Atualizado em
Afegãos retornando do Irã chegam perto da fronteira Afeganistão-Irã em Islam Qala, na província de Herat, em 31 de janeiro de 2026. (Foto de Mohsen KARIMI / AFP)
(Crédito: Mohsen KARIMI/AFP)

O território iraniano concentra o maior volume de mortes e desaparecimentos de migrantes em rotas migratórias globais desde 2023. Dados compilados pela Organização Internacional de Imigração mostram 3.995 ocorrências no Irã até 16 de fevereiro de 2026. O total equivale a 15% de todos os casos mundiais registrados no período.

A OIM processou informações sobre 75.921 migrantes que tiveram óbito confirmado ou desapareceram durante trajetos migratórios no mundo. Segundo levantamento da Folha de São Paulo, que examinou esses registros compilados a partir de janeiro de 2014 até 16 de março, o Irã ultrapassou países tradicionalmente associados a crises migratórias, como Estados Unidos e Líbia, no número de casos recentes.

Porta-vozes da OIM explicam que as rotas de chegada e saída do Irã expõem imigrantes a uma combinação de riscos geográficos, ambientais e de proteção.

“Há condições ambientais extremas, especialmente em travessias montanhosas durante o inverno, trilhas longas e remotas com acesso limitado a serviços; violência e abuso; transporte perigoso e acidentes com veículos”, diz a organização.

O Irã contabilizou 5.786 casos nas rotas do Afeganistão ao país e do Irã à Turquia no período de 2014 até o presente. O número supera os Estados Unidos, onde foram registrados 5.123 mortes ou desaparecimentos na fronteira com o México. A Líbia permanece com o maior total histórico, alcançando 20.786 casos.

Os registros de mortes e desaparecimentos de migrantes no Irã apresentaram crescimento após a pandemia. Em 2022, o país registrou mais episódios que os Estados Unidos. A partir de 2023, o Irã também ultrapassou a Líbia em número de casos. O ano de 2024 marcou o pico na série histórica, com 1.508 ocorrências em solo iraniano.

Danny Zahreddine, professor do departamento de relações Internacionais da PUC Minas e autor do livro “O Oriente Médio: Velhos e Novos Conflitos”, atribui o aumento do fluxo migratório ao retorno do Talibã ao poder no Afeganistão e à saída dos EUA do país. A degradação da situação econômica do próprio Irã também é fator determinante.

“O Talibã endurece as regras sociais e culturais, restrições a bens, serviços, comida e trabalho. As mulheres vão se tornar cada vez mais marginalizadas e isso tem gerado nos últimos anos um fluxo cada vez maior de afegãos que deixam o país”, explica o professor.

Zahreddine acrescenta que esse cenário fez surgir no país criminosos que transportam migrantes de forma irregular e com desleixo à vida humana.

Os migrantes afegãos são os principais protagonistas desse fluxo migratório. A OIM informa que os movimentos de retorno de migrantes afegãos estão limitados por questões de segurança no Afeganistão e no Irã.

“Os principais padrões de mobilidade observados atualmente são predominantemente internos, motivados tanto por deslocamento forçado quanto por realocação preventiva”, afirma a OIM.

Quanto ao fluxo do Irã para a Turquia, Zahreddine, que coordena a Cátedra Sergio Vieira de Mello da PUC Minas, afirma que o movimento reflete a degradação econômica do Irã diante das sanções impostas pelos EUA, seca nos últimos dois anos, inflação e desemprego.

“A maior parte da migração que vai para a Turquia e também para o Iraque vai em busca de uma oportunidade melhor de trabalho”, diz o professor.

Os dados da OIM posicionam a rota do Afeganistão como a quinta com mais incidentes no mundo. Foram registrados 5.311 casos na série histórica. A rota do Mediterrâneo Central permanece como a mais mortífera, com 24,6 mil casos registrados na Líbia, Tunísia, Itália, Grécia, Egito, Malta e Argélia. Há 7.600 migrantes que morreram em rotas desconhecidas.

O elevado número líbio resulta principalmente da crise de refugiados provocada pela guerra civil na Síria. O país engloba a maior parte dos migrantes perdidos nas rotas do Mediterrâneo Central e pelo deserto do Saara.

O ano de 2024 registrou o pico de mortes e desaparecimentos no mundo, com quase 9.000 casos. Em 2025, foram contabilizados 7.550 registros, representando queda de 15% em relação ao ano anterior.

A OIM avalia que essa queda pode indicar tanto uma diminuição real no número de pessoas em rotas irregulares perigosas quanto atrasos na comunicação de dados e redução na capacidade de documentação dessas tragédias.

Os cortes orçamentários implementados durante o governo de Donald Trump afetaram a capacidade de monitoramento. “Restrições de financiamento e o aumento das limitações impostas aos atores humanitários que trabalham ao longo das principais rotas migratórias limitaram a capacidade de recolher e verificar dados de forma sistemática”, diz a OIM.

A OIM prevê aumento do fluxo migratório após os feriados religiosos no Irã neste mês de abril, especialmente diante da piora nas condições de vida no país.

A Organização Internacional de Imigração preside o Consórcio de Fronteira, que coordena a assistência de várias agências humanitárias. Nas fronteiras com o Irã, a entidade fornece assistência imediata a migrantes afegãos indocumentados vulneráveis. A ajuda inclui financiamento para transporte, refeições e cuidados de saúde.

A Folha analisou dados de mortes (quando o corpo foi localizado) e desaparecidos (pessoas que sumiram durante a rota migratória) compilados pela OIM. Os incidentes são classificados em uma escala de 1 a 5 com base nas fontes de informação. A reportagem descartou os incidentes classificados como nível 1 por serem baseados em apenas uma fonte de mídia, exceto em casos em que essa fonte estava relacionada à OIM ou ao Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados).

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