EUA e Irã iniciam negociações de paz no Paquistão após trégua de 2 semanas

Delegações chegam a Islamabad neste sábado para conversas diplomáticas mediadas por Shehbaz Sharif, que classifica encontro como momento de tudo ou nada

Por Redação TMC | Atualizado em
(Foto: REUTERS/Asim Hafeez)

O Paquistão recebe neste sábado (11/04) delegações dos Estados Unidos e do Irã para conversas diplomáticas. O encontro acontece após trégua bilateral de duas semanas mediada pelo governo paquistanês e anunciada na terça-feira (07/04). Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão, confirmou em pronunciamento nacional na sexta-feira (10/04) a chegada dos representantes a Islamabad.

Sharif classificou as negociações como momento de “tudo ou nada” para possível resolução do conflito. O primeiro-ministro afirmou que a cúpula representa orgulho não apenas para o Paquistão, mas para o “mundo muçulmano”. A delegação iraniana desembarcou na tarde de sexta-feira (10/04) na capital paquistanesa.

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O vice-presidente americano JD Vance lidera a equipe dos Estados Unidos. Mohammad-Bagher Ghalibaf, presidente do parlamento iraniano, comanda a delegação de Teerã. Informações indicam que Abbas Araghchi, ministro das Relações Exteriores do Irã, co-liderará o grupo iraniano.

As conversas buscam resolver múltiplos pontos de conflito. A pauta inclui a questão nuclear iraniana, o controle do Estreito de Ormuz e tensões regionais envolvendo grupos apoiados pelo Irã. O governo paquistanês enfatizou possuir a confiança de ambos os lados, diferentemente de muitos outros países.

Vance declarou estar animado para as negociações antes de deixar os EUA na sexta-feira. “Se os iranianos estiverem dispostos a negociar de boa fé, certamente estaremos dispostos a estender a mão”, afirmou. O vice-presidente alertou: “Se tentarem nos enganar, descobrirão que a equipe de negociação não será tão receptiva.”

Donald Trump afirmou em publicação em rede social que a única razão pela qual os iranianos “estão vivos hoje é para negociar”. Em entrevista ao New York Post, o presidente americano declarou: “Estamos carregando os navios com as melhores armas já fabricadas, até mesmo de nível superior às que usamos para causar uma aniquilação completa. E se não houver um acordo, usaremos essas armas, e as usaremos com muita eficácia”.

Ofensiva israelense ameaça conversas

A campanha militar de Israel contra o Hezbollah no Líbano representa ameaça à viabilidade das negociações. Israel lançou uma série de ataques no Líbano na quarta-feira (08/04). O Ministério da Saúde registrou aproximadamente 350 mortes desde então.

O governo iraniano classifica os ataques como violação grave do cessar-fogo estabelecido com os Estados Unidos. Autoridades americanas e israelenses argumentam que o Líbano nunca foi incluído no acordo de trégua.

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian manifestou-se através da plataforma X. “A continuidade dessas ações tornará as negociações sem sentido”, afirmou. Ele acrescentou: “Nossos dedos permanecem no gatilho. O Irã nunca abandonará seus irmãos e irmãs libaneses.”

Benjamin Netanyahu declarou que “não há cessar-fogo” em relação ao Hezbollah. Donald Trump afirmou que a atuação de Israel no Líbano será agora “um pouco mais discreta”.

Os avisos repetidos de Israel aos moradores dos subúrbios do sul de Beirute para evacuarem a região ainda não resultaram em novos ataques. O Departamento de Estado americano informou que negociações diretas entre Israel e Líbano acontecerão em Washington na próxima semana.

Disputa sobre Estreito de Ormuz

A questão da rota marítima do Estreito de Ormuz possui potencial para travar as negociações logo no início. Grande parte do petróleo mundial passa por essa região.

Um número muito reduzido de navios está conseguindo atravessar o Estreito de Ormuz. Centenas de embarcações e aproximadamente 20 mil marinheiros permanecem retidos dentro do Golfo.

O Irã demonstra determinação em formalizar seu domínio sobre essa rota marítima estratégica. O país refere-se ao estreito como águas soberanas iranianas e menciona um novo conjunto de regras para regular o que pode ou não passar pela região.

Relatos indicam que alguns navios pagaram taxa de 2 milhões de dólares (cerca de R$ 10 milhões) para atravessar o Estreito de Ormuz. Trump publicou nas redes sociais acusações contra o Irã de fazer um “trabalho muito ruim” e até mesmo “desonesto” em relação à passagem de navios no estreito. “Esse não é o acordo que temos!”, afirmou o presidente americano. Trump alertou que “era melhor que o Irã não estivesse cobrando taxas de petroleiros”.

Na quinta-feira, o Irã anunciou a criação de rotas alternativas de trânsito ao norte dos dois canais de separação de tráfego já existentes. A Guarda Revolucionária divulgou comunicado afirmando que as novas rotas eram necessárias “devido aos riscos de minas navais” no Estreito de Ormuz.

Representantes de 41 países vão se reunir na próxima semana como parte de esforços liderados pelo Reino Unido para ajudar na reabertura do Estreito de Ormuz. Uma fonte do governo britânico declarou: “Estamos pressionando fortemente por um mecanismo para reabrir o estreito” e “Como temos uma presença diplomática muito ampla e boas relações com países de médio e pequeno porte, podemos ajudar a coordenar esses esforços.”

Questão nuclear como principal divergência

A questão nuclear representa o maior e certamente o mais antigo ponto de divergência entre os dois países.

O Irã afirma que nunca buscou construir uma bomba. A maioria dos governos ocidentais trata essa alegação com grande ceticismo. O governo iraniano insiste que, como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, tem o direito de enriquecer urânio para fins civis.

A proposta iraniana de 10 pontos inclui a exigência de reconhecimento internacional do seu direito ao enriquecimento. Trump descreveu a proposta como “uma base viável para negociação”. Trump afirmou que lançou a Operação Epic Fury, em parte, para garantir que o Irã “nunca possa ter uma arma nuclear”.

O plano americano de 15 pontos, segundo relatos, exige que o Irã “encerre todo o enriquecimento de urânio em território iraniano”. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou apenas que o Irã “nunca terá uma arma nuclear ou a capacidade de chegar a esse ponto”.

Negociadores internacionais levaram anos para chegar ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA) de 2015. Esse acordo abordou a questão em detalhes minuciosos.

A rede de aliados regionais e grupos armados do Irã deu a Teerã influência regional. O Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, o Hamas em Gaza e diversas milícias no Iraque compõem essa rede. Ela permite ao país exercer o que muitas vezes é chamado de “defesa avançada” em seus conflitos de longa data com Israel e os Estados Unidos.

Desde o início da guerra em Gaza, em outubro de 2023, essa rede que o Irã chama de “Eixo da Resistência” tem sido alvo de ataques constantes. Uma de suas partes, o regime do antigo ditador sírio Bashar al-Assad, já não existe mais.

Israel vê o que chama de “Eixo do Mal” como uma ameaça existencial. O país considera que essa rede precisa ser totalmente eliminada. Muitos iranianos gostariam de ver seu governo gastando menos com aventuras no exterior e mais em melhorar suas próprias condições de vida. A economia iraniana está enfraquecida. Há poucos sinais de que o Irã esteja disposto a abandonar seus aliados.

O regime islâmico sofre há décadas com sanções internacionais. O Irã exige a suspensão de todas as sanções dos Estados Unidos e internacionais como parte de qualquer acordo.

Mohammad Bagher Qalibaf afirmou nesta sexta-feira que cerca de US$ 120 bilhões (R$ 600 bi) em ativos iranianos congelados devem ser liberados antes do início das negociações. O presidente do parlamento iraniano apresentou pré-condições para as conversas. Essas condições incluem um cessar-fogo no Líbano e o descongelamento de bilhões de dólares em ativos iranianos. Segundo Ghalibaf, essas medidas teriam sido acordadas entre as partes.

Sharif anunciou o cessar-fogo de duas semanas na terça-feira. O primeiro-ministro do Paquistão não mencionou a liberação de ativos congelados.

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