Drauzio Varella fala sobre envelhecimento, depressão e direito de decidir sobre a própria morte em entrevista ao “Imprevista”

No podcast comandado por Joana Treptow, médico refletiu sobre mudanças da sociedade, solidão nos tempos atuais e relembrou impacto das mortes que presenciou no início da carreira

Por Redação TMC | Atualizado em

Conhecido por décadas de atuação na medicina e pela forma direta de falar sobre saúde pública, Drauzio Varella é o convidado desta semana do podcast Imprevista, original da TMC. Em conversa com a jornalista Joana Treptow, o médico falou sobre envelhecimento, depressão, desigualdade social, morte e o impacto das transformações da sociedade brasileira ao longo das últimas décadas.

Ao relembrar o início da carreira, Drauzio destacou como a medicina e o próprio país eram completamente diferentes quando ele se formou, em 1967. Segundo ele, o Brasil ainda era majoritariamente rural e enfrentava problemas ligados às epidemias e às chamadas endemias rurais.

Siga o canal da TMC no WhatsApp e receba as últimas notícias

“Era uma medicina completamente diferente da de hoje”, afirmou. “A grande massa da população era de crianças. Hoje, a faixa da população que mais cresce está acima dos 60 anos.”

Para o médico, o envelhecimento da população mudou completamente os desafios da saúde pública. Se antes o foco estava em doenças infecciosas e falta de atendimento básico, hoje o país enfrenta o crescimento das doenças crônicas e das demências.

A morte e a revolta diante da desigualdade

Um dos momentos mais marcantes da entrevista acontece quando Drauzio fala sobre a convivência com a morte durante os primeiros anos nos hospitais públicos. “A morte nunca me assustou, mas me revoltou muitas vezes. Eu saía do hospital absolutamente revoltado. Como é possível conviver com uma tragédia dessas atingindo tanta gente?”, contou. Segundo o médico, essa realidade ajudou a moldar sua visão sobre o Brasil e teve influência direta em sua trajetória profissional.

O que Drauzio aprendeu dentro das prisões

Ao falar sobre as mais de três décadas de trabalho voluntário dentro do sistema prisional, Drauzio Varella refletiu sobre como essa experiência transformou sua visão de mundo. O médico refletiu sobre como o contato com pessoas de realidades completamente diferentes ampliou sua visão de mundo. Segundo ele, existe uma tendência natural de conviver apenas com pessoas parecidas — com os mesmos hábitos, opiniões, condições financeiras e visões políticas — porque isso traz conforto e segurança.

Mas, para Drauzio, esse tipo de convivência também pode limitar experiências e empobrecer a forma de enxergar a vida. Ele contou que foi justamente dentro das cadeias que teve contato com histórias e trajetórias radicalmente diferentes das suas, ouvindo relatos de violência, sobrevivência e exclusão social que jamais encontraria em seu círculo social habitual.

“É isso que enriquece a vida”, afirmou ao defender a importância de conviver com o contraditório e com pessoas que desafiam nossas certezas e valores.

Debate sobre eutanásia e envelhecimento

Durante a conversa, Drauzio também falou sobre o direito de escolha no fim da vida. Ele revelou fazer parte do movimento “Eu Decido”, que defende maior autonomia das pessoas em situações de doenças graves e irreversíveis.

Para o médico, a sociedade brasileira ainda evita discutir o tema, mesmo diante do envelhecimento acelerado da população. “Ninguém quer ficar jogado numa cama, dependendo dos outros para tudo, sem reconhecer as pessoas que ama”, afirmou.

Drauzio chamou atenção para o aumento dos casos de demência e para os dilemas que acompanham o avanço da medicina, capaz de prolongar a vida mesmo em situações de sofrimento extremo.

Avanços sociais e mudanças de geração

Ao falar sobre comportamento e mudanças sociais, Drauzio Varella afirmou acreditar que a juventude de hoje vive uma realidade mais aberta e consciente do que a de sua geração. Segundo ele, no passado o machismo, o sexismo e os preconceitos contra mulheres e pessoas homossexuais eram muito mais naturalizados e violentos, inclusive com agressões físicas vistas como algo comum.

Apesar de reconhecer que a sociedade ainda está longe da igualdade ideal, Drauzio avalia que houve avanços importantes nas últimas décadas. “Estamos caminhando pra frente, mais devagar do que gostaríamos”, afirmou.

Solidão, depressão e relações superficiais

Outro tema abordado foi a solidão nos tempos atuais. Segundo Drauzio, o estilo de vida moderno, especialmente nas grandes cidades, contribui para o isolamento das pessoas e pode agravar quadros de depressão e ansiedade.

“As gerações anteriores não passaram por essa experiência de viver fechadas em apartamentos, longe dos amigos e da convivência diária”, explicou.

O médico também criticou a tendência de as pessoas conviverem apenas com grupos semelhantes, evitando opiniões diferentes ou experiências fora da própria realidade.

Para ele, esse comportamento traz segurança, mas empobrece emocionalmente e limita a visão de mundo. Foi justamente o contato com detentos no sistema prisional que, segundo Drauzio, ampliou sua percepção sobre a vida e sobre a condição humana. “Você conhece histórias completamente diferentes da sua realidade. E é isso que enriquece a vida”, concluiu.

Veja a íntegra no YouTube da TMC:

Ao vivo
São Paulo
Ouça a TMC pelo Brasil
  • 100,1FM São Paulo
  • 101,3FM Rio de Janeiro
  • 100,3FM Curitiba
  • 88,7FM Belo Horizonte
  • 92,7FM Recife
  • 100,1FM Brasília
Notícias que importam para você
Copyright © 2026 CNPJ: 44.060.192/0001-05