Em diferentes partes do mundo, a mesma situação se repete. Com uma frequência que já não surpreende, mas preocupa, medidas econômicas tecnicamente consistentes, como reformas tributárias, ajustes fiscais ou políticas de estímulo aos investimentos públicos ou privados, acabam fracassando não por falta de qualidade, mas porque foram propostas pelo lado “errado”. Quando vêm do adversário, deixam de ser analisadas e passam a ser rejeitadas quase automaticamente. É assim que a polarização invade a economia, produzindo custos concretos e cada vez mais altos.
O conflito político, por si só, não é novidade. Democracias sempre viveram de divergências, disputas e alternância de poder. O que mudou nas últimas décadas foi a intensidade desse conflito e, principalmente, a forma como ele se espalha.
As redes sociais transformaram a maneira como as pessoas se informam, interagem e formam opiniões. Quando Mark Zuckerberg, Jack Dorsey, Kevin Systrom e Mike Krieger criaram as suas plataformas, o objetivo central era potencializar o engajamento. Facebook, Twitter (atual X) e Instagram cresceram com base na premissa do aumento do tempo de tela, de mais cliques e de mais compartilhamentos.
O problema é que o conteúdo que mais prende a atenção raramente é o mais equilibrado ou informativo. Emoções fortes, como indignação, medo e desprezo, circulam com muito mais facilidade do que análises ponderadas. Aos poucos, criam-se ambientes em que as pessoas são expostas quase exclusivamente a ideias que reforçam aquilo em que já acreditam.
O que antes levava anos para se consolidar hoje pode acontecer em questão de semanas. As redes sociais não inventaram a polarização, mas ampliaram o seu alcance e a sua velocidade de forma inédita.
Elas exploram um traço humano bem conhecido. Como mostra Jonathan Haidt, no seu livro “A mente moralista”, as pessoas frequentemente chegam às suas convicções políticas por intuição moral e só depois constroem justificativas racionais.
Nesse ambiente, o debate perde espaço para reações rápidas e emocionais. A polarização transforma decisões econômicas em sinais de identidade, deslocando o critério de avaliação da eficácia para a origem política e deteriorando a capacidade de coordenação de longo prazo.
A psicologia social ajuda a entender esse processo. Nos anos 1970, Henri Tajfel desenvolveu a Teoria da Identidade Social, mostrando como tendemos a favorecer o grupo ao qual pertencemos e a desconfiar do grupo oposto, mesmo sem razões objetivas. Também buscamos informações que confirmem as nossas ideias e evitamos aquelas que as desafiam. Nas redes, esses comportamentos são intensificados o tempo todo pelos algoritmos.
Há ainda um efeito recorrente no julgamento político. Pesquisas de Adam Waytz mostram que costumamos atribuir boas intenções às ações do nosso grupo e más intenções às mesmas ações quando vêm do outro lado.
Um ajuste das contas públicas ou a política monetária, por exemplo, podem ser vistos como responsabilidade ou insensibilidade, dependendo de quem o propõe. Com isso, o debate econômico deixa de girar em torno da eficácia das medidas e passa a girar em torno da origem.
As consequências disso são profundas. Políticas públicas, que exigem algum nível de continuidade e cooperação, ficam travadas. O aperfeiçoamento que deveria ser constante fica em segundo plano. A incerteza aumenta, o ambiente de negócios torna-se mais instável e o fundamental planeamento de longo prazo desaparece.
Estudos de Alberto Alesina, que foi professor de Economia Política em Harvard, mostraram que a polarização política está associada a maior volatilidade econômica, menor investimento privado e aumento do risco percebido.
No Brasil, em ano eleitoral, esse cenário é particularmente preocupante. Diversas políticas passam a ser contestadas no fervor da corrida presidencial. Há pouco espaço no debate para avaliações técnicas, e o bom debate perde-se em narrativas simplistas. Mas nem sempre foi assim.
Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva foram adversários por décadas, mas comprometeram-se com pilares importantes da política econômica e o respeito às instituições entre os seus governos. Esse tipo de postura permitiu estabilidade e avanços concretos do país.
O mesmo já aconteceu em outras democracias. Após uma disputa intensa, Barack Obama manifestou-se de forma respeitosa em relação a John McCain, que, por sua vez, incentivou os seus apoiantes a aceitarem a vitória de Obama. Anos depois, George W. Bush e Obama demonstraram, em diferentes momentos, uma relação nobre de respeito institucional. Esses episódios mostram que civilidade não é sinal de fraqueza, mas uma condição essencial para o bom funcionamento das instituições.
No Brasil, são necessárias medidas que busquem recuperar a civilidade política do país. A polarização não se sustenta apenas por convicções individuais, mas por incentivos claros. Discursos mais radicais geram mais visibilidade, mais engajamento e maior retorno político, enquanto o conteúdo equilibrado tende a circular menos. Esse desequilíbrio é amplificado por plataformas digitais que privilegiam a intensidade emocional, criando um ambiente em que o conflito rende mais do que a cooperação.
Romper esse ciclo exige mais do que apelos à moderação. Parte da resposta passa por ajustes institucionais e regulatórios. Isso inclui avançar na transparência dos algoritmos que definem o alcance das informações, discutir limites ao microdirecionamento político, que reforça bolhas de opinião, e criar incentivos para a circulação de conteúdo confiável e verificável. Também envolve repensar mecanismos eleitorais e investir de forma consistente em educação para o consumo crítico da informação.
Não são soluções simples nem imediatas, mas são passos necessários para reequilibrar o debate público. Sem esse tipo de esforço, decisões econômicas continuarão a ser tratadas menos como escolhas técnicas e mais como marcadores de identidade.
O custo disso traduz-se em políticas interrompidas, menor previsibilidade, menos investimento e crescimento frágil. Quando a lógica da disputa se sobrepõe à capacidade de coordenação, a economia perde eficiência, a política perde qualidade e a sociedade perde coesão.