O Ministério Público de São Paulo abriu inquérito para investigar Mauro Roberto Chekin, secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul. A investigação atende denúncia da deputada federal Sâmia Bomfim e da vereadora Bruna Biondi, ambas do PSOL. As parlamentares solicitaram apuração de declarações feitas pelo gestor durante audiência pública na Câmara dos Vereadores, realizada na terça-feira (29/04).
O documento de instauração do inquérito determina que o MP-SP investigará “eventual prática de discriminação”, “capacitismo institucional” e “omissão de políticas públicas inclusivas” na Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude. O procedimento foi formalizado após análise da denúncia protocolada pelas parlamentares.
Declarações durante audiência pública
Na audiência pública, Chekin classificou a inclusão de pessoas com deficiência no esporte como obstáculo. O secretário declarou: “Hoje, com esse problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes”.
Ao tratar de políticas de inclusão, o gestor afirmou: “Com relação ao autista, nós temos um problema muito grande com autista e qualquer [pessoa com deficiência]”. Chekin narrou uma situação envolvendo uma mãe que procurou a prefeitura para matricular a filha em aulas de natação.
O secretário declarou: “Veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. […] A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda?” […] nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação”. Chekin mencionou ainda que a criança teria “tapado os ouvidos” durante o início da aula.
O gestor municipal afirmou que nem todos os profissionais possuem capacitação para trabalhar com inclusão. Chekin compartilhou uma experiência pessoal da época em que cursava educação física. “Eu entrei na piscina, saí da piscina e falei: ‘Se for para trabalhar desse jeito, não quero nunca mais voltar aqui’. A minha condição psicológica e física é muito frágil para esse tipo de coisa”, declarou o secretário.
Chekin também afirmou: “A inclusão é um dever do Estado, mas não é um dever meu, pessoa física. Eu não posso chegar e obrigar um profissional e falar assim: ‘Você vai trabalhar lá'”.
A vereadora Bruna Biondi contestou o posicionamento do secretário durante a audiência pública. A parlamentar respondeu: “É a mesma coisa de a gente falar que a educação não tem que garantir a inclusão de crianças com deficiência na rede municipal ou que um professor que não quiser dar aula para uma criança com deficiência pode simplesmente não dar. É parte da profissão, é parte da formação profissional, é parte do dever se aquele funcionário trabalha para o Estado. Ele não tem opção. Nem mesmo se trabalhasse num setor privado. É discriminação.”
Repúdio de entidades
O Ministério do Esporte divulgou nota oficial repudiando as declarações do secretário. A pasta classificou as manifestações como “profundamente capacitistas” e manifestou repúdio “com veemência”. O ministério afirmou: “O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos”. A pasta informou que estabelecerá contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul para disponibilizar orientações técnicas e materiais voltados à inclusão.
O Comitê Paralímpico Brasileiro emitiu nota de repúdio às declarações do gestor municipal. A entidade classificou as falas como “discriminatórias e inadmissíveis”. O comitê declarou: “A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos” – leia os textos na íntegra abaixo.
A entidade ressaltou que o município de São Caetano do Sul, localizado no ABC Paulista, é conhecido por ter sido um polo de treinamento de atletas paralímpicos.
Posicionamento da prefeitura
A Prefeitura de São Caetano do Sul divulgou nota afirmando que possui “compromisso histórico” com políticas públicas de inclusão. A administração municipal destacou investimentos em programas voltados às pessoas com deficiência nas áreas de saúde, educação, esporte e assistência social.
A administração municipal citou a inauguração do Complexo Unificado de Inclusão, Desenvolvimento, Apoio e Reabilitação (Cuidar), realizada na sexta-feira (25/04). A prefeitura mencionou ações desenvolvidas pelo Núcleo de Apoio à Educação Inclusiva (NAEI). A administração destacou parcerias com instituições como APAE, AACD, Semeador e o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro.
Em sua nota, a prefeitura afirmou que “a pauta da inclusão exige evolução constante”. A administração declarou que “erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta”. A manifestação não especificou medidas disciplinares ou administrativas em relação às declarações do secretário Mauro Roberto Chekin.
Leia na íntegra a nota do Ministério do Esporte
“O Ministério do Esporte repudia com veemência as declarações do secretário de Esporte de São Caetano do Sul, por seu caráter profundamente capacitista, incompatível com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência.
É dever do poder público garantir acesso, acolhimento, oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida social, inclusive no esporte, instrumento reconhecido de cidadania, desenvolvimento humano e inclusão social.
O Brasil possui uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção dos direitos das pessoas com deficiência, assegurados pela Constituição Federal, pela Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela Lei Brasileira de Inclusão. Nenhuma autoridade pública pode se afastar desses princípios ou contribuir para a reprodução de preconceitos e estigmas.
O Ministério do Esporte reafirma seu compromisso com a promoção do esporte inclusivo, do paradesporto e de políticas públicas que garantam respeito, autonomia e oportunidades para todas as pessoas.
Diante do ocorrido, o Ministério – por meio da Secretaria Nacional de Paradesporto – fará contato institucional com a Prefeitura de São Caetano do Sul, colocando à disposição materiais informativos, orientações técnicas e acesso aos programas federais voltados à inclusão e à promoção dos direitos das pessoas com deficiência, entendendo que a informação e a conscientização também são instrumentos fundamentais para o combate ao capacitismo.
O esporte brasileiro deve ser espaço de inclusão, diversidade, respeito e dignidade para todos.”
Leia na íntegra a nota do Comitê Paralímpico
“O Comitê Paralímpico Brasileiro manifesta seu mais veemente repúdio às declarações proferidas pelo secretário municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul, senhor Mauro Checkin, durante audiência pública realizada em 29 de abril de 2026, na Câmara dos Vereadores de São Caetano do Sul, nas quais se referiu à inclusão pelo esporte como um “problema”.
A fala é discriminatória e inadmissível, revela desconhecimento sobre o papel transformador do esporte na promoção da cidadania, da dignidade e da igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência. A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos.
Destaca-se ainda que a cidade de São Caetano do Sul tem a sua história vinculada ao Movimento Paralímpico nacional. O município já foi um dos polos de treinamentos das Seleções Brasileiras de atletismo e natação paralímpicos antes da construção do Centro de Treinamento Paralímpico Brasileiro, na capital paulista, além de se manter como moradia de diversos atletas paralímpicos da atualidade. Firmou ainda recentemente uma parceria com o próprio Comitê Paralímpico Brasileiro, por meio da sua área de Educação Paralímpica, para capacitação de professores de Educação Física da rede escolar municipal.
O esporte paralímpico brasileiro é hoje referência mundial pelos resultados esportivos bem como pelo impacto social que gera diariamente em milhares de vidas em todo o país. Tratar a inclusão como obstáculo desconsidera avanços históricos construídos com esforço coletivo e desrespeita atletas, profissionais e toda a comunidade de pessoas com deficiência.
Espera-se de gestores públicos responsabilidade, preparo e compromisso com políticas que ampliem o acesso e não que reforcem preconceitos ou retrocessos. Declarações dessa natureza não contribuem para o debate público e tampouco refletem os valores que devem nortear a gestão do esporte no Brasil.
O Comitê Paralímpico Brasileiro reafirma seu compromisso inegociável com a inclusão, com o desenvolvimento humano por meio do esporte e com a construção de uma sociedade mais justa, acessível e igualitária.”




