O Senado Federal assumiu uma linha combativa na relação com o Executivo na semana passada. Em dias seguidos, os 81 senadores participaram da avaliação do nome de Jorge Messias à vaga do Supremo Tribunal Federal (STF) e da sessão que votou o projeto da redução de pena aos manifestantes e organizadores do “8 de Janeiro” em 2023.
Foram duas derrotas para o governo federal: a rejeição de Messias e a aprovação do projeto de lei da Dosimetria. Com o Senado nos holofotes, as eleições de 2026 assumem uma camada adicional de tensão, já que dois terços das cadeiras no Congresso Nacional estão sujeitas a renovação neste ano. Um dos principais temas que podem ser pautados pelo Senado é o impeachment de ministros do STF.
Os senadores eleitos em 2019 terminam o mandato em janeiro de 2027 com a posse dos novos candidatos eleitos. Ao todo, 54 das 81 cadeiras estarão em disputa, seguindo o ciclo constitucional de renovação da Casa.
Quais partidos dominam o Senado em 2026?
Para o cientista político e professor da FGV-EAESP, Eduardo Grin, a leitura política da composição atual do Senado é contundente. “A atual legislatura é de direita/centrão, basta ver a contagem de deputados e senadores, não há a menor dúvida”, afirma. O Partido Liberal (PL), que abriga a família Bolsonaro, tem a maior bancada de senadores. Ainda assim, 6 de suas 16 cadeiras estão em disputa.
No centro e na centro-direita, o Partido Social Democrático (PSD) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) podem perder 11 dos 14 assentos e 8 das 9 vagas, respectivamente. “O PSD costuma flutuar entre governismo e independência, mas não é necessariamente uma legenda de oposição declarada”, avalia a coordenadora de dados do Observatório do Congresso (UnB), Evelyn Apolinaria.
No campo governista, o Partido dos Trabalhadores (PT) encerrará 6 dos 9 mandatos e o Partido Socialista Brasileiro (PSB) pode perder 6 dos 7 assentos. “Essa configuração consegue explicar as dificuldades do governo (Lula) em construir maiorias no Senado”, explica a pesquisadora.
No Republicanos — partido do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta —, 2 das suas 6 cadeiras estarão em disputa. O PSDB e o Podemos encerram os mandatos de seus três senadores, cada, em 2027.
Enquanto isso, o União Brasil, partido do atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre, terá uma de suas cadeiras em disputa em 2027. O Partido Democrático Trabalhista (PDT) também pode perder as duas vagas que mantém. Novo e Avante podem perder o único assento que possuem no Senado Federal.
Quais os pré-candidatos ao Senado em 2026?
No campo bolsonarista, Carlos Bolsonaro (PL) transferiu o título de eleitor para Santa Catarina, enquanto Michelle Bolsonaro (PL) é cotada como candidata no Distrito Federal.
“No caso do PL, existe uma busca para compor chapas mais fortalecidas, tendo o impeachment dos ministros do STF como bandeira. O partido tenta conquistar mais os estados no Sul e Sudeste. O PT tenta se aproveitar dos espaços do Sul e do Centro-Oeste, mas ele tem mais força no Nordeste. No caso do Distrito Federal, temos uma disputa em aberto entre os candidatos da direita e o PT querendo trazer a (deputada federal) Erika Kokay como uma das candidatas ao Senado”, analisa Apolinaria.
Enquanto isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já sinalizou preocupação. Em evento do Partido Socialista Brasileiro (PSB) no ano passado, alertou: “Se esses caras elegerem a maioria dos senadores, vão fazer uma muvuca nesse país”.
Entre os ministros do primeiro escalão do governo Lula, Gleisi Hoffmann (PT) deixou a Secretaria das Relações Institucionais para disputar vaga pelo Paraná. Enquanto isso, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) são cotadas para disputar o Senado em São Paulo, e Rui Costa (PT) na Bahia.
Pautar ou não pautar: eis a questão
Antes da condenação e prisão de Jair Bolsonaro (PL), o ex-presidente declarou: “Se vocês me derem 50% da Câmara e 50% do Senado, eu mudo o destino do Brasil. Nem preciso ser presidente. Faremos isso por vocês”.
De certa forma, a frase sintetiza a nova estratégia da oposição, que tem como principal a bandeira o impeachment dos ministros do STF. Alexandre de Moraes, por exemplo, é alvo de 43 pedidos de impeachment que tramitam no Senado.
Quem decide se abre o processo é o presidente do Senado. Na atual legislatura, o cargo é ocupado por Alcolumbre (União Brasil), que foi reeleito em 2022 e tem mandato parlamentar até 2031. No ano passado, a oposição reuniu 41 assinaturas para pressionar a presidência a pautar o pedido de impeachment de Moraes, mas o presidente não pautou o tema.
Gilmar Mendes mudou as regras do jogo. O quórum constitucional para a condenação em um processo de impeachment de ministro do STF exige maioria qualificada, ou seja, são necessários 54 votos favoráveis (dois terços da Casa).
“A direita vai precisar eleger entre 30 a 40 senadores para poder impichar um ministro do Supremo. O resultado da eleição do Senado vai determinar tanto a composição ideológica da casa quanto quem será o presidente da instituição”, pondera Apolinaria.
O que faz um senador?
Diferente da Câmara, o Senado concentra atribuições que podem definir o jogo político brasileiro.
“O Senado não tem o mesmo número de cadeiras que a Câmara porque os deputados representam o povo de cada estado. Os senadores representam a unidade federativa. O deputado, às vezes, está olhando para uma região do Estado onde ele tem voto. O senador tem que olhar para todo o Estado”, resume Eduardo Grin.
Para a disputa no Senado, os especialistas dão algumas dicas do que levar em conta para a escolha do candidato. O primeiro fator é o histórico político, se o candidato já faz parte da vida pública, seja como deputado ou em algum cargo no Executivo. Além disso, o senador é um representante do interesse coletivo do estado, sendo responsável por preservar e propor pautas que atendam a todo o território estadual.




