A chegada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à China para uma visita de dois dias a Xi Jinping marca um momento que defino, sem hesitação, como absolutamente histórico. Trata-se da primeira viagem de estado de um presidente americano em exercício a Pequim desde 2017, encerrando praticamente uma década de hiato diplomático nesse nível.
No entanto, ao analisar as entrelinhas desse encontro entre as duas maiores potências globais, fica claro que a pauta vai muito além de apertos de mão: o que está em jogo é a garantia de acesso a recursos minerais vitais e a própria sobrevivência política de Trump e de seu partido internamente.
No centro estratégico das negociações está um tema que nos toca de perto, inclusive no Brasil: as terras raras. Esses minerais são fundamentais para o funcionamento da economia moderna e, de forma crítica, para a indústria bélica norte-americana.
Vale lembrar que, durante o auge da guerra comercial em 2015, os chineses usaram seu poder de fogo e bloquearam essas exportações para os EUA. A expectativa principal desta cúpula é o anúncio da manutenção de uma trégua. Contudo, é uma trégua frágil; Washington sabe do risco dessa dependência e continua buscando acesso a essas terras raras em nossa região, na América Latina.
Mas para compreender a urgência dessa viagem, não podemos ignorar a “arquibancada” doméstica de Donald Trump. O presidente enfrenta recordes de desaprovação, o que torna o cenário muito difícil para os republicanos de olho nas eleições de meio de mandato (midterms).
Deputados que tentam a reeleição e precisam confrontar o eleitorado em suas cidades, sindicatos e associações estão voltando para Washington alertando que a situação nas trincheiras eleitorais está feia, com muitas cobranças e críticas. Essa visita à Ásia, portanto, serve para Trump tentar mostrar internamente que o governo norte-americano está trilhando um novo caminho na relação com a China e buscando soluções.
Do outro lado da mesa, Pequim joga suas cartas com uma precisão retórica invejável. A diplomacia chinesa tem usado um termo muito curioso para classificar a etapa que se abre na relação bilateral: “coexistência pacífica”.
A mensagem de Xi Jinping nas entrelinhas é um recado direto: nós, em Pequim, somos um poder estabelecido e queremos coexistir. Em outras palavras, a China lembra aos Estados Unidos que não adianta mais achar que eles mandam no mundo sozinhos. O que vemos hoje é o xadrez global sendo reconfigurado, e o resto do planeta assiste, ciente de que qualquer movimento afeta a todos nós.