O terremoto na Venezuela impõe um teste inédito para a relação do governo Trump com a América Latina. Vimos, desde 2025, uma ofensiva militar por parte dos Estados Unidos na tentativa de retomar o controle e a influência sobre a região.
Também foi uma ofensiva que eu diria ser econômica, no sentido de impor tarifas e fazer chantagens na área comercial, mais uma vez, para conseguir concessões e até mesmo algum tipo de benefício — como em terras raras, por meio de acordos com a Bolívia, a Argentina, o Chile e outros países.
Mas é a primeira vez, desde o início deste governo Trump, que existe uma relação que vai muito além da questão apenas política, comercial ou militar. Agora, o teste é humanitário: resta saber se o governo norte-americano — que busca construir essa influência e esse controle sobre alguns países — também vai atender à questão humanitária.
Por enquanto, o governo Trump afirma ter preparado um cheque de US$ 300 milhões para o resgate na Venezuela e colocado 2 mil homens a serviço das operações de socorro às vítimas e da reconstrução. No entanto, em uma perspectiva histórica, esse contingente é muito menor, por exemplo, do que o que Barack Obama colocou à disposição do Haiti, que contou com quase 6 mil militares na época.
O valor de US$ 300 milhões é, sem dúvida, elevado, mas a dúvida que permanece é: quanto disso não vem do próprio petróleo venezuelano, cujas vendas são hoje controladas pelo governo norte-americano em contas fora da Venezuela?
Esse também é um debate fundamental. Outro aspecto relevante é que, quando Trump promove o “sequestro” de Nicolás Maduro, ele opta pela estabilidade da Venezuela e, por isso, mantém o próprio regime chavista no poder. Ele não recorre aos opositores; pelo contrário, preserva a estrutura justamente para evitar uma guerra civil ou um caos institucional no país.
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O problema é que essa arquitetura construída após o afastamento de Nicolás Maduro hoje é questionada. Mas por quem? Pela população, que está cada vez mais irritada e impaciente com a demora do governo venezuelano em dar respostas a essa crise.
Portanto, é um teste para Donald Trump em vários sentidos, sobretudo na sua relação com a América Latina. Resta saber até que ponto ele terá a capacidade de sustentar um governo que hoje é rejeitado por seu próprio povo — não mais por conta de eleições fraudulentas, mas sim pela resposta à crise atual. Uma crise que, pelo menos neste momento, não tem data para acabar, já que a reconstrução de fato levará muitos anos.