A decisão das autoridades francesas de colocar em lockdown um cruzeiro britânico após a morte de um passageiro de 92 anos mostra como a memória da pandemia de covid-19 ainda influencia respostas sanitárias na Europa.
Mesmo depois da confirmação de que o idoso sofreu um ataque cardíaco sem relação com o surto de gastroenterite registrado a bordo, o bloqueio foi mantido por precaução diante do temor global provocado pelos casos de hantavírus ligados a outro navio que saiu de Ushuaia, na América do Sul, e deixou três mortos.
O episódio evidencia como governos europeus passaram a adotar uma postura muito mais cautelosa diante de qualquer ameaça sanitária envolvendo embarcações e circulação internacional de passageiros. A preocupação é compreensível.
O hantavírus ainda desperta dúvidas na população, especialmente porque os casos recentes ganharam repercussão internacional.
Mas a reação também revela um ambiente de sensibilidade extrema, em que autoridades preferem exagerar no cuidado a correr o risco de serem acusadas de omissão.
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Ao mesmo tempo, a própria Organização Mundial da Saúde tenta reduzir a sensação de pânico. A entidade reforçou nos últimos dias que o hantavírus não tem relação com a covid-19 ou com a influenza e que o risco para a população em geral permanece baixo.
Ainda assim, o fato de o período de incubação poder chegar a seis semanas mantém protocolos rígidos de isolamento para passageiros que estiveram expostos ao vírus.
Na prática, a Europa vive hoje um equilíbrio delicado entre vigilância sanitária e desgaste social. Depois da covid, qualquer surto em aeroportos, portos ou cruzeiros rapidamente ultrapassa a esfera médica e passa também a ser tratado como questão política e de segurança pública.
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