O que explica a epidemia de lesões antes da Copa do Mundo?

A TMC buscou entender o que tem acontecido com o futebol às vésperas da competição mais importante do mundo

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(Foto: Rafael Ribeiro/CBF)

Alemanha, França, Uruguai e, principalmente, o Brasil vêm sofrendo com uma epidemia de lesões às vésperas da Copa do Mundo 2026. Isso sem contar com os atletas que vão marcar presença no Mundial, mas que sofreram no decorrer da temporada – seja do calendário sul-americano ou europeu – com idas ao departamento médico. O principal torneio do esporte está sendo vítima de um aumento exponencial no número de lesões que pode ser entendido em muitas frentes.

O principal deles é o aumento do número de jogos e a diminuição do tempo de descanso (ou recuperação). Há, ainda, o alto número de viagens: apenas na primeira fase da Libertadores, Fluminense e Flamengo vão ter percorrido quase 10 mil quilômetros. Durante a temporada 2025/26, os atletas do Arsenal e do Paris Saint-Germain, que vão disputar a final da Champions League, terão entrado em campo em mais de 60 partidas considerando também ligas e copas nacionais. Em 2025, o Corinthians encarou 74 adversários.

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Naturalmente, se espera que maior parte das lesões por essa sobrecarga sejam musculares. Porém, tem se observado ferimentos ósseos e ligamentares. O atacante Rodrygo, do Real Madrid e da seleção brasileira, vai ficar fora da Copa do Mundo por ter rompido o ligamento cruzado anterior e o menisco do joelho direito.

A TMC entrevistou o nutricionista e preparador físico Rafael Barleze, que explicou que não é tão correto ligar o alto índice de lesões às partidas. “Quando pensamos em lesões não-traumáticas, seja ligamentar, articular ou muscular, a gente tem que parar para pensar para refletir o que pode trazer uma lesão a um atleta. Existem estudos bem recentes, de 2025, que conseguiram mapear tudo que é motivo para um atleta se lesionar. A literatura científica mapeou 240 fatores que podem influenciar na lesão do atleta, tendo 160 intrínsecos (alimentação, sono…) e 80 extrínsecos (clima, solo, chuteira…), então é muito difícil evitar a lesão de um atleta”, destacou.

Fora a alta quantidade de jogos, a intensidade de uma partida de futebol mudou. “Vamos pegar o grande cenário: excesso de jogos, viagens e estresse do metabolismo do atleta. Se você pegar a Copa de 1994, eles corriam 6 km por jogo. Na Copa de 2006, eles estavam correndo de 11 a 12 km. Hoje, essa distância total não aumentou muito, mas eles estão fazendo esses quilômetros em velocidades muito maiores. E eles estão jogando a cada 72 horas, viajando a nível continental e com alta demanda física”, também explicou Barleze.

Importância dos clubes – e dos departamentos médicos – na prevenção de lesões

Atentos às mudanças do futebol, os clubes também têm se movimentado. O relatório “Panorama de Talentos e Competição de Clubes Europeus 2025” da Uefa mostrou que durante a temporada 2024/25 os clubes, de modo geral, aumentaram 8% seus elencos e diminuiram a minutagem desses atletas. Isso também trouxe um impacto financeiro: o mercado europeu movimentou 9,1 bilhões de euros em compras e 9,3 bilhões de euros em vendas na janela de verão daquele período.

Os clubes também têm investido em tratamentos para recuperar os atletas lesionados no menor tempo possível. Rafael Barleze atuou no Internacional, no Athletico-PR e no Grêmio, onde foi coordenador de performance e detalhou como trabalhava com os jogadores para minimizar as lesões.

“Cada chefe de departamento tem sua metodologia. Nos dez anos que trabalhei como chefe, sempre passei que, dos 240 fatores, existem dois que mais se destacam: idade cronológica (o quão velho um atleta é) e as lesões pregressas (quantas lesões ele já teve na carreira)”, disse Barleze à TMC.

Não podemos mudar as lesões que ele já teve. Mas sempre foquei em melhorar sono, alimentação, suplementação e trabalho de mobilidade e força para mitigar esses fatores que pioram quando a pessoa está envelhecendo para melhorar a idade biológica do atleta. Aí vamos ter atletas como o Cristiano Ronaldo, que tem 40 anos e não tem lesão”, emendou.

Em 2025, o astro português disse que, apesar de ter 40 anos, sua idade biológica era de 28,9 anos.

Cristiano Ronaldo com a mão no peito e olhando para cima durante comemoração de seu gol por Portugal
(Foto: Reprodução/UEFA EURO)

A TMC também entrevistou Toninho Cecílio, ídolo do Palmeiras, ex-treinador e, atualmente, executivo de futebol. Tendo essa visão para além do departamento médico, o dirigente destacou a importância de todos as áreas estarem interligadas.

“Existem três camadas: o atleta lesionado, o departamento médico e o executivo de futebol. O executivo de futebol não é apenas um montador de elenco, ele tem que gerir. E uma das coisas é entender de departamento médico; não como um médico, mas entender o funcionamento adequado. Já fui jogador e treinador, sei que existem pressões. Se o executivo tem experiência, ele vai fazer essa blindagem do departamento médico, porque ele cobra bastante o DM e está no dia a dia”, explicou.

“O presidente cobra e ele tem que chegar e falar ‘não é esse pensamento, o tempo está sendo adequado’. O executivo tem que centralizar nele essa responsabilidade. Claro que não é função dele recuperar o atleta, mas é função dele perceber se o trabalho está sendo bem feito”, complementou.

O Corinthians vem lidando com a lesão de Memphis Depay, que corre para estar à disposição da Holanda na Copa do Mundo. O atacante lesionou-se no dia 22 de março, durante o empate por 1 a 1 contra o Flamengo, pelo Brasileirão. Na época, foi diagnosticado com uma lesão de grau 2 na parte anterior da coxa direita. Quando estava perto de voltar, em 14 de abrilacabou regredindo após um erro do Corinthians no tratamento. Em 28 de abrilo holandês iniciou a transição física para voltar a estar à disposição de Fernando Diniz.

Abaixo, a TMC listou atletas de Brasil, Alemanha, França, Holanda, Marrocos e Uruguai que devem perder a Copa do Mundo. Toninho explicou que é fundamental o próprio chefe do departamento médico ter imposição, entender o contexto de cada clube e a experiência para atuar nessas agremiações.

“Quando eu era atleta do Palmeiras, uma vez chegou um médico que estava entre os primeiros lugares da melhor escola de ortopedia de São Paulo. Eu torci o tornozelo num domingo, virou uma bola. Ele examinou, ficou chocado e queria engessar. E aí eu falei ‘não, pelo amor de Deus! Domingo que vem eu vou jogar’ e eu acabei jogando! Fomos tratando, foi diminuindo o inchaço, sexta eu treinei, me enchi de esparadrapo e joguei. Então, faltava essa experiência nele”, relembrou.

Caso Estêvão e como atletas também têm voz ativa no tratamento de suas lesões

Outro ponto abordado pela reportagem é a alta quantidade de jogos que os jogadores vêm disputando cada vez mais novos. O atacante brasileiro Estêvão, que perdeu a Copa por uma lesão muscular de grau 4 na coxa direita, completou 100 jogos como profissional aos 18 anos. Já o espanhol Lamine Yamal, que sofreu com lesões na temporada 2025/26, o atingiu a marca com 17 anos.

“Mesmo quando não estão no profissional, os atletas estão expostos a alta minutagem nas categorias de base. O que pode impactar é a maturação física deles diante de jogadores muito fortes. E eles estão em ligas muito fortes fisicamente, com muitos embates físicos. O corpo sofre mais com essa demanda física e a dificuldade do clube é como trabalhar essa recuperação física. Por mais que existam novas tecnologias, só existem duas coisas que recuperam um atleta: sono e alimentação”, destacou Barleze.

“Às vezes um jogador se destaca nas categorias de base e vai para o profissional, onde a carga de trabalho é muito mais forte, com maior exigência. Jogo dia sim, dia não; a pressão pelo resultado é maior. Isso impacta no atleta e também gera lesões. Entendo que isso implica em lesões musculares, por isso é importante ter psicólogo e o próprio treinador saber modular a cobrança, porque ela é forte, especialmente em clubes de elite”, complementou Toninho Cecílio.

(Foto: David Klein/Reuters)

A citação a Estêvão não é acaso. O atacante brasileiro é atendido pela Volt, empresa que oferece atendimento 360º para jogadores e tem Rafael Barleze na equipe que acompanha o jogador da Seleção. O nutricionista tratou a lesão do atleta como acaso.

“O Estêvão tem uma equipe na Volt Performance, uma empresa que faz todo esse amparo ao atleta. Nessa equipe tem um médico, eu como nutricionista, um fisioterapeuta, que, inclusive, reside com ele, e uma psicóloga. Ele é um grande profissional, segue tudo que a gente propõe, está sempre disposto a melhorar. Na verdade, são fatalidades que acontecem e pode acontecer. Não vejo nenhum motivo que possa ter saído do prumo para que as coisas tenham acontecido como aconteceu”, comentou.

Estêvão se lesionou dia 18 de abril, durante a derrota do Chelsea para o Manchester United. Nas redes sociais, torcedores dos blues culparam bastante o técnico Liam Rosenior, alegando que o atacante não estava 100% fisicamente ainda em decorrência da lesão no músculo posterior da coxa direita que sofreu em fevereiro.

“Não te respondo em virtude do Estêvão, mas em virtude da minha vivência em clube. Quando você trabalha como consultor de atleta, estamos 100% preocupados com ele, queremos a longevidade dele; quando você está dentro do clube, tem a pressão de resultado, de treinador, de imprensa, de torcida, de diretoria e, ao mesmo tempo, tem que se preocupar com a saúde do atleta. A maneira que eu atuei dentro de clubes sempre foi colocando o atleta junto com o treinador e o diretor responsável para que ele tomasse a decisão e entendesse que, caso ele fosse antecipadamente para campo, ele estaria assumindo esse risco”, explicou Barleze.

“Como diretor, vejo se posso apertar o departamento médico. Já teve vez que não concordei com agenda de fisioterapeuta por entender que eles deveriam estar mais no clube – sempre consultando os médicos, que precisam fazer parte disso. Em momentos decisivos é normal passar por cima de protocolos, arriscar um pouco mais, mas momentos decisivos! Não é sacrificar o atleta, é fazer ele participar e concordar com essa aceleração para fazer parte do momento decisivo e vai dele dizer ‘sim’ ou ‘não’. Tem que haver um diálogo, porque você está lidando com seres humanos”, emendou Toninho.

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Dentro da minha vivência do futebol, se alguma vez aconteceu de um atleta ir antecipadamente (a campo), necessariamente tem que ter o consenso dele. Eles gostam disso, são pessoas competitivas, então se expõem. Cabe à Saúde ser burocrata e apresentar os riscos para que ele tenha ciência”, ponderou na sequência.

Mundial de Clubes impactou e Copa do Mundo deve ter um novo boom de lesões?

Dentre as reclamações dos internautas, alguns também apontaram que o novo Mundial de Clubes pode ter impactado alguns jogadores. O torneio foi disputado nos Estados Unidos entre junho e julho de 2025 e diminuiu férias dos clubes participantes, além de também aumentar o número de partidas. Contudo, Rafael Barleze não vê o torneio como um motivo do boom de lesões às vésperas da Copa do Mundo.

“Hoje, a quantidade e a intensidade dos jogos são preditivos para lesões. Sempre tem que pensar na carga de trabalho de forma exponencial: os primeiros sete dias tem um valor muito grande e, conforme vai se afastando, vai diminuindo. A carga de trabalho do Mundial certamente tem pouca influência. Vai ter muito mais influência o que ele está vivendo nos últimos períodos”, avaliou à TMC.

O preparador também destacou que acha que a Copa do Mundo não terá uma nova epidemia de lesões. “Jogos de seleções são um pouco diferentes, porque os clubes direcionam muito mais funções táticas. Na seleção eles perdem um pouco isso por não ser todo dia, todo ano trabalhando. Então, a intensidade tende a diminuir um pouquinho. Eles também passam por um período de deload, que é de preparação mas também dá uma sobrevida para eles para a Copa”, disse.

Confira jogadores que vão perder a Copa do Mundo 2026

Brasil

Alemanha

  • Serge Gnabry (ruptura do músculo adutor da coxa direita)

França

Holanda

  • Xavi Simons (rompimento do ligamento cruzado anterior joelho direito)

Marrocos

Uruguai

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