Enquanto “Euphoria” aposta no choque e na provocação, “Margô Está em Apuros” usa o humor ácido para discutir maternidade, precarização financeira e a economia dos criadores de conteúdo. As duas séries colocam o OnlyFans no centro da narrativa, mas seguem caminhos bastante diferentes ao retratar a plataforma e o trabalho digital adulto.
Na série “Margô Está em Apuros”, estrelada por Elle Fanning, o OnlyFans surge como uma saída financeira para uma jovem mãe solo. A personagem Margô engravida após um relacionamento com um professor universitário, perde apoio dos amigos e passa a enfrentar dificuldades econômicas enquanto cuida do filho recém-nascido.
Sem dinheiro e acumulando dívidas, ela decide produzir conteúdo na plataforma adulta. A série, porém, evita uma abordagem puramente sexualizada: Margô cria uma persona alienígena e aposta em vídeos performáticos e cômicos, que viralizam nas redes sociais. A produção mistura drama familiar e sátira para discutir temas como exposição online, monetização da intimidade e julgamento social.
O núcleo familiar também ajuda a reforçar o tom tragicômico da trama. A mãe da protagonista, interpretada por Michelle Pfeiffer, vive obcecada por aparência e redes sociais, enquanto o pai, vivido por Nick Offerman, atua como uma espécie de “consultor” improvisado para o conteúdo da filha.
Já em “Euphoria”, criado por Sam Levinson, o OnlyFans aparece dentro de um retrato mais sombrio e provocador sobre juventude, sexualidade e autodestruição. A personagem Cassie, interpretada por Sydney Sweeney, entra na plataforma para financiar o casamento com Nate, personagem de Jacob Elordi.
A série mostra Cassie produzindo ensaios com fantasias e fetiches, incluindo cenas em que aparece vestida de cachorro ou de bebê adulto. As sequências geraram forte repercussão nas redes sociais e críticas de criadoras reais do OnlyFans, que acusaram a produção de reforçar estereótipos negativos sobre profissionais do sexo e criadores de conteúdo adulto.
Entrevistadas pela revista Variety, modelos e produtoras da plataforma afirmaram que a representação de “Euphoria” exagera comportamentos caricatos e ignora regras reais do serviço. Parte das críticas se concentrou nas cenas de “age play”, já que conteúdos que simulem menores de idade são proibidos pelos termos de uso do OnlyFans.
Sam Levinson defendeu a abordagem, afirmando que a intenção era explorar o absurdo e o desconforto da situação. Segundo o diretor, a narrativa buscava mostrar simultaneamente a fantasia vendida pela personagem e o vazio emocional por trás da exposição online.
A própria Sydney Sweeney também comentou diversas vezes sobre as cenas de nudez da série. A atriz afirmou que nunca se sentiu pressionada a fazer algo contra sua vontade e disse enxergar o corpo feminino como parte importante da construção dramática da personagem. Ao mesmo tempo, criticou o tratamento diferente dado a atrizes que realizam cenas de nudez em comparação com homens em papéis semelhantes.
Apesar das diferenças de tom, as duas produções usam o OnlyFans como ferramenta narrativa para discutir temas contemporâneos, como crise financeira, busca por validação, exploração da imagem nas redes sociais e os limites entre autonomia, exposição e julgamento público.
Enquanto “Margô Está em Apuros” aposta em uma visão mais humana e satírica sobre sobrevivência econômica na era digital, “Euphoria” mergulha em uma representação mais extrema, polêmica e desconfortável da sexualização online.
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