ONG ligada a filme de Bolsonaro é alvo de operação da polícia

Instituto Conhecer Brasil ganhou licitação de R$ 108 mi sem experiência no setor; aditivos elevaram repasses para R$ 157,1 mi

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(Foto: Reprodução)

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1/06) a Operação Wi-Fi para apurar fraude em um contrato público firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB). O instituto pertence a Karina Ferreira da Gama, uma das sócias da Go UP Entertainment Ltd, produtora do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A investigação aponta que pelo menos R$ 26 milhões foram pagos à organização sem que os serviços correspondentes tivessem sido prestados, segundo as autoridades.

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O contrato previa a instalação, operação e manutenção de 5 mil pontos públicos de acesso à internet em comunidades da periferia paulistana. O valor original era de R$ 108 milhões, mas três aditivos sucessivos elevaram os repasses previstos para R$ 157,1 milhões. A operação cumpriu oito mandados de busca e apreensão determinados pela 1ª Vara Regional das Garantias (1.ª RAJ).

De acordo com a Polícia Civil, a investigação apura crimes de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório (artigo 337-F do Código Penal), fraude na execução de contrato administrativo (artigo 337-L do Código Penal) e emprego irregular de verbas ou rendas públicas (artigo 315 do Código Penal).

Preço acima do mercado e entrega incompleta

A discrepância de valores chamou a atenção das autoridades. Em contratos anteriores firmados com a Prodam — empresa de tecnologia da prefeitura —, o custo de implantação de cada ponto de Wi-Fi era de R$ 230, e a manutenção mensal ficava em R$ 306. O ICB, por sua vez, cobrou R$ 1,8 mil por ponto ao mês — cerca de seis vezes mais que o valor de manutenção praticado anteriormente.

Além do preço elevado, a entrega foi parcial. Dos 5 mil pontos previstos, apenas 3,2 mil chegaram a ser instalados. Ainda assim, a prefeitura antecipou pagamentos: só em julho e agosto de 2024, o ICB recebeu R$ 11 milhões referentes a esses pontos. Até a celebração do último aditivo, em dezembro de 2025, o total pago à ONG havia chegado a R$ 83 milhões. Para 2026, a prefeitura havia reservado mais R$ 53 milhões no orçamento, dos quais R$ 12,2 milhões já tinham sido liquidados.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) identificou 20 irregularidades no edital do chamamento público. O processo contou com a participação exclusiva do ICB — entidade sem histórico técnico no setor de comunicações.

Leia mais: Governistas querem inquérito contra Flávio Bolsonaro por suposto ataque à soberania nacional

Conexão com o filme sobre Bolsonaro

Karina Ferreira da Gama, proprietária do ICB, é também sócia da produtora Go UP Entertainment Ltd, responsável pelo longa-metragem “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O roteiro do filme é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que em 2024 destinou R$ 2 milhões em emendas parlamentares à ONG.

Mais de 90% do orçamento do “Dark Horse” foi bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, preso em novembro de 2025 por fraudes bilionárias. Segundo mensagens encontradas pela Polícia Federal, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou com Vorcaro o financiamento da produção. O banqueiro teria se comprometido a repassar US$ 24 milhões — equivalentes a R$ 134 milhões na cotação da época — para o projeto.

Origem da investigação

O inquérito foi aberto por requisição do Ministério Público estadual após denúncia apresentada por Leonardo Carvalho Bastos, membro do conselho de ética do PT de Sapucaia do Sul (RS). As investigações são conduzidas pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública, Combate à Corrupção e Lavagem de Dinheiro (DICCA), sob comando do delegado Antônio Carlos Munuera Silveira.

A Polícia Civil também pediu à Justiça acesso às análises do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações do ICB, da Go UP e de Karina Ferreira da Gama. As investigações apuram fraude na licitação, fraude na execução do contrato e possível desvio de recursos públicos.

Leia mais: O que é o Instituto Conhecer Brasil, ONG da produtora do filme de Bolsonaro

Prefeitura nega irregularidades

Em nota, a Prefeitura de São Paulo negou qualquer irregularidade no contrato com a ONG e com os serviços realizados. “A prefeitura reforça que toda a prestação de contas, com documentos, notas fiscais, contratos e outras informações, está no sistema SEI, que é público. O processo passou também por acompanhamento do Tribunal de Contas do Município (TCM). A Prefeitura repudia veementemente ilações de desvios de recursos públicos, uma vez que o contrato do Instituto Conhecer Brasil seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade.”

A prefeitura diz estar colaborando com as investigações. “A Prefeitura de São Paulo informa que colabora com investigações em andamento e segue à disposição das autoridades, tendo já prestado informações. Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido encaminhado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público através da prestação de contas do município.”

E aponta que o programa está funcionando “normalmente”. “Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade.”

E finaliza detalhando os valores. “Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022, de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês.”

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