A família do meia Lucas Flora, de 12 anos, anunciou a saída de uma das maiores promessas da base do Corinthians nesta quarta-feira (03/06) de forma abrupta, com uma carta aberta. Nela, os familiares alegam algumas negligências do Alvinegro, que, embora soubesse da possibilidade do fim de vínculo, levou um susto. O clube também entende ter direito a receber uma indenização conforme apurou a TMC.
“Independentemente de toda essa situação, somos gratos ao Corinthians como instituição, à sua história e à sua fiel torcida de milhões de apaixonados, assim como nós, que o clube representa. Seguimos torcendo para que o mesmo supere este momento e volte a viver dias melhores, porque o Corinthians sempre será patrimônio do povo. Ninguém é maior que o clube. Assim como ninguém é maior que o amor de um pai e de uma mãe por um filho“, despediram-se os familiares de Flora em carta enviada à ESPN.
Desde o ano passado, a relação entre Corinthians e a família de Flora ficou conturbada com a troca de gestão – em maio, Augusto Melo foi destituído e Osmar Stabile assumiu. Antes tratado como principal joia do clube com uma série de regalias além das previstas em contrato, Flora voltou a ser tratado em pé de igualdade com os demais atletas mirins.
Além do tratamento em si, o Corinthians tem revisitado todos os contratos, incluindo os das categorias de base. Desde ano passado, dezenas de jogadores e funcionários foram desligados. No caso de Flora, a diretoria entendia que seu contrato, excepcional se tratando de uma criança, precisava ser revisto.
O contrato de Flora com o Corinthians
Em 2024, Flora quase deixou o Parque São Jorge rumo ao Palmeiras. A diretoria, então comandada por Augusto Melo e o diretor Claudinei Alves, conseguiu contornar com um super contrato. Além do salário, o atleta teria direito a luvas, um contrato de direito de imagem e uma série de benefícios, como participação em campanhas de marketing junto à Nike, que também patrocina o jovem.
Inclusive, é baseado no contrato de imagem que o Corinthians entende ter direito a uma multa, que está sendo apurada pelo departamento jurídico, assim como o clube teria que pagar ao jogador caso rescindisse com ele.
“Também não corresponde à realidade a informação de que a família teria exigido participação do atleta em campanhas de lançamento de camisas. Até porque o contrato de imagem foi oferecido pelo próprio clube, que enxergou potencial no uso da imagem do atleta, que, inclusive, é patrocinado pela mesma fornecedora de material esportivo do Corinthians”, disse a família de Flora.
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Desde o imbróglio de 2024, o Corinthians calcula ter gasto pouco mais de R$ 40 mil por mês com Flora conforme apurou a TMC. Para efeito de comparação, o valor é superior aos salários de Gui Amorim e Iago Machado, promessas que já estão treinando com o profissional, e pouco mais do triplo que o clube gastava mensalmente com Denner e Kauê Furquim, prospectos que o Timão perdeu justamente pelos baixos salários.
Dessa necessidade de revisitar o contrato surgiu a ideia de discutir um contrato de formação, citado pela família de Flora. Nesse tipo de vínculo, os clubes já têm direito a multa rescisória, calculada em até 200 vezes o custo da formação daquele jogador. Um ponto citado à reportagem também foi a dificuldade em acertar um salário para um atleta que já recebia exponencialmente mais que jogadores da mesma idade.
Conflito de versões sobre os motivos da saída
Ao anunciar a saída, a família de Flora cita que apresentou todos os documentos corretamente, mas “desde dezembro do ano passado, o atleta não possui vínculo ativo junto à CBF e à Federação Paulista de Futebol pelo Corinthians”. O clube nega.
À reportagem, foi explicado que todo os jogadores da iniciação precisam apresentar os documentos para renovação do vínculo federativo em janeiro. A família de Flora fez o envio no fim de fevereiro, o que atrasou todo o processo e acabou culminando no jogador ficar fora da estreia do Corinthians no Paulista Sub-13.
Ainda, a TMC teve acesso ao contrato de iniciação gerado pelo clube, com duração de 6 de abril de 2026 a 4 de abril de 2029. Este, nunca foi assinado, o que resultou na não-escalação de Flora.
Até o momento, o Sub-13 do Corinthians já disputou cinco jogos:
- 5 de abril – Audax 0 x 9 Corinthians
- 19 de abril – Corinthians 8 x 0 São Caetano
- 3 de maio – Prata da Casa 0 x 1 Corinthians
- 17 de maio – Corinthians 6 x 0 Juventus
- 24 de maio – Osasco Sporting 0 x 11 Corinthians
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O futuro de Flora
A TMC apurou que Flora ainda não tem um novo clube, apesar das sondagens.
Leia na íntegra a carta de despedida da família de Flora do Corinthians
“Ficamos em silêncio durante todo esse período por respeito ao nosso filho e também ao momento vivido pelo clube. No entanto, diante dos inúmeros questionamentos da torcida e da circulação de informações que não refletem a realidade dos fatos, entendemos ser necessário esclarecer a situação com transparência e respeito.
Em 2026, Flora não foi relacionado para nenhuma competição de sua categoria e também não foi inscrito no Campeonato Paulista, principal torneio das categorias de base do país, em nenhuma categoria do clube.
Além disso, verificamos que, desde dezembro do ano passado, o atleta não possui vínculo ativo junto à CBF e à Federação Paulista de Futebol pelo Corinthians. Mesmo com toda a documentação tendo sido entregue no prazo, o registro do atleta não foi renovado, deixando-o sem vínculo esportivo formal com o clube.
Em reunião, fomos informados de que a ausência de registro teria ocorrido por falhas internas e problemas de comunicação envolvendo os responsáveis pela documentação das categorias de base.
Publicamente, porém, foi apresentada outra versão: a de que o atleta só seria registrado caso a família abrisse mão do contrato de imagem vigente para, então, assinar um contrato de formação, sob a alegação de que o clube não teria condições de cumprir o acordo anterior.
É importante esclarecer que já existia um entendimento entre as partes de que qualquer tratativa envolvendo contrato de formação ou questões financeiras ocorreria apenas quando Flora completasse 14 anos, em 2028, e não agora, aos 12 anos de idade.
Também não corresponde à realidade a informação de que a família teria exigido participação do atleta em campanhas de lançamento de camisas. Até porque o contrato de imagem foi oferecido pelo próprio clube, que enxergou potencial no uso da imagem do atleta, que, inclusive, é patrocinado pela mesma fornecedora de material esportivo do Corinthians.
Mesmo diante da ausência de registro e das dificuldades enfrentadas no processo, a família manteve todos os seus compromissos, levando Flora diariamente aos treinos e às demais atividades do clube, sempre acreditando no processo de formação e no sonho do seu filho.
Ao longo desses anos, sempre priorizamos os desejos e as escolhas do nosso filho, deixando de lado outras possibilidades que poderiam ser mais vantajosas para sua carreira. Ainda assim, o clube volta a cometer falhas no processo de formação dele.
Não podemos permitir que um período tão importante da vida de uma criança seja perdido em meio a erros que se repetem.
Antes de ser jogador do Corinthians, Flora precisa ter garantido o direito de ser jogador de futebol. E hoje, infelizmente, esse direito vem sendo comprometido pela ausência das condições mínimas necessárias para que ele possa fazer o que mais ama: jogar bola.
Esperamos que os responsáveis tenham mais consciência sobre o impacto de situações como essa, que não apenas afetam sonhos de crianças e famílias, mas também comprometem a formação de possíveis ativos para o próprio clube.
Sabemos que, diante da grandeza do Corinthians, qualquer posicionamento ou justificativa dos responsáveis terá naturalmente mais força do que a palavra de uma família. Ainda assim, acreditamos ser importante esclarecer os fatos com respeito e honestidade.
Também esperamos sinceramente que a decisão da família de seguir, até aqui, sem empresários conduzindo a carreira do Flora, não tenha influenciado, de nenhuma forma, na condução dessa situação.
Foram seis anos honrando essa camisa com orgulho. Infelizmente, essa história não seguiu o caminho que o nosso pequeno sonhava, mas seguimos acreditando que a vida ainda pode reservar novos caminhos e novas oportunidades no futuro. Quem sabe!
Independentemente de toda essa situação, somos gratos ao Corinthians como instituição, à sua história e à sua fiel torcida de milhões de apaixonados, assim como nós, que o clube representa. Seguimos torcendo para que o mesmo supere este momento e volte a viver dias melhores, porque o Corinthians sempre será patrimônio do povo.
Ninguém é maior que o clube. Assim como ninguém é maior que o amor de um pai e de uma mãe por um filho.
Te amamos, Flora. Vai dar tudo certo”.




