Copa do Mundo 2026 bate recorde e emitirá o dobro de poluentes do Mundial de 1994

País que receberá 75% dos jogos, EUA vão conquistar o “bicampeonato” em emissões na história das Copas

Por Felipe Mendes | Atualizado em
Logo da Copa, com imagem da taça, exibidas na Times Square, em Nova York
(Foto: Brendan McDermid/Arquivo/Reuters)

*Colaborou Renan Honorato 

Uma das sedes da Copa do Mundo 2026, os Estados Unidos não têm tradição no futebol masculino. Mas já ostentam um bicampeonato mundial: o país será pela segunda vez o país-sede que mais emite gases do efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global. O primeiro “título” no futebol masculino veio em 1994, quando o país norte-americano recebeu sozinho o Mundial vencido pela seleção brasileira. 

Os americanos, embora dividam a sede desta Copa com o México e o Canadá, vão “acumular” esse novo troféu porque, na prática, concentram a maior parte dos jogos. Cerca de 75% das partidas serão realizadas nos EUA, incluindo a maior parte do mata-mata e a grande final, no dia 19 de julho – o grande evento terá início nesta quinta-feira (11/06).

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Os números relativos às emissões desta Copa foram projetados pelo especialista Rodrigo Tóffano, a pedido da reportagem da TMC. Tóffano é doutor em engenharia de transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professor na Universidade Federal de Goiás (UFG).

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De acordo com estudo realizado de forma exclusiva para a TMC, o torneio organizado pela Fifa neste ano vai emitir 24.467.343 toneladas de CO2e (dióxido de carbono equivalente, medida geral usada para avaliar e comparar as emissões de gases do aquecimento global). O número é mais do que o dobro do que a Copa de 1994 soltou na atmosfera: 11.606.372 toneladas de CO2e. 

Método do estudo

Para calcular essas emissões, o professor da UFG usou como referência o relatório de gases do efeito estufa do Reino Unido, que conta com um departamento de segurança energética e emissões zero. O processo foi dividido em duas frentes: hotelaria (cálculo por pessoa/noite) e transporte (emissão da origem ao destino + mais o translado).

“O transporte aéreo é muito mais danoso ao meio ambiente do que o transporte rodoviário, metro, ferroviário. Quanto mais essas seleções se deslocarem por transporte aéreo, maiores serão essas emissões”, afirma Tóffano. 

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Por que os EUA se destacam negativamente?

A distância entre as cidades-sede e o volume de torcedores/turistas em circulação pelos três países são os principais fatores a explicar o recorde de emissões na Copa deste ano. Isso aconteceu em 1994 e se repetirá nesta edição do Mundial, com os jogos concentrados nos EUA. 

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No caso de 1994, os EUA tiveram o maior público de uma Copa, com cerca de 3 milhões e meio de torcedores em seus nove estádios, em nove cidades diferentes. “Esse é um fator considerável. Outro ponto é que a Copa do Mundo dos EUA teve as maiores distâncias, conectando cidades da costa oeste à costa leste. Os deslocamentos em 1994 foram muito grandes”, aponta o especialista. 

A Copa deste ano terá a maior distância entre duas cidades-sede da história: 4.509 quilômetros separam Vancouver, no Canadá, de Miami, nos Estados Unidos. Para efeito de comparação, é a mesma distância de Belém (PA) a Miami. 

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Ciente deste problema, a Fifa tentou minimizar esse impacto ao agrupar as seleções em três grandes grupos, evitando viagens mais longas de uma costa a outra, por exemplo. Isso reduzirá as emissões das delegações dos países participantes. Mas terá pouco efeito sobre o deslocamento dos torcedores.  

“Por mais que a Fifa tenha agrupado as seleções em três grupos, praticamente 99% das emissões de CO2 serão geradas pelos turistas, pelas pessoas que vão acompanhar os jogos. Uma porcentagem muito pequena é decorrente das seleções e do estafe da Fifa”, explica Tóffano.

EUA fora do Acordo de Paris

O contexto político também não ajuda os EUA na redução das emissões. Sob a gestão Donald Trump, o país deixou o Acordo de Paris e vem batendo recordes no consumo de combustíveis fósseis. 

Uma eventual preocupação com as questões climáticas poderia, por exemplo, se traduzir em apoio a iniciativas de uso de combustíveis renováveis para os aviões. Eles emitem de 10% a 20% do volume total liberado pelos combustíveis fósseis.

“Do ponto de vista da questão climática, os Estados Unidos abandonaram completamente qualquer ação iniciativa nesse sentido com o presidente Donald Trump. Existem iniciativas em esferas estaduais tentando mitigar esses impactos, caso da Califórnia. Mas, na esfera federal, cortaram tudo. O presidente aprovou totalmente o aumento das emissões”, explica à TMC o pesquisador e professor Carlos Nobre, um dos cientistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente.

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