França vai implodir na Copa? Nova crise expõe tensão e relembra fantasmas do passado

Conflito entre jogadores e federação, divergências sobre premiações e episódios recentes de desgaste aumentam a pressão sobre os atuais vice-campeões mundiais

Por Redação TMC | Atualizado em
ylian Mbappé antes do amistoso entre França e Irlanda do Norte, disputado no Decathlon Arena Stade Pierre-Mauroy, em Villeneuve-d'Ascq, nesta segunda-feira (08/06)
(Foto: Reuters/Sarah Meyssonnier)

A seleção da França chega à Copa do Mundo de 2026 cercada por dúvidas que vão além do desempenho dentro de campo. Uma série de conflitos entre jogadores e a Federação Francesa de Futebol (FFF), somada a episódios recentes de desgaste no elenco, reacendeu lembranças de crises históricas que marcaram campanhas anteriores dos Bleus em Mundiais.

O capítulo mais recente envolve o uso da imagem de atletas da seleção em uma campanha publicitária de uma casa de apostas. Segundo o jornal francês L’Équipe, jogadores como Kylian Mbappé, Rayan Cherki, Michael Olise, Ousmane Dembélé e Désiré Doué ficaram irritados ao descobrir que fotografias produzidas durante uma ação para patrocinadores da federação foram utilizadas pela empresa de apostas sem que eles soubessem previamente qual seria a finalidade do material.

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O incômodo tem origem em um acordo firmado entre jogadores e federação em 2023 para regulamentar o uso da imagem coletiva da seleção. O documento prevê diálogo entre as partes sobre campanhas publicitárias que possam entrar em conflito com valores pessoais dos atletas.

Mbappé já havia manifestado publicamente sua oposição à promoção de apostas esportivas. Em declarações anteriores, o atacante afirmou que muitos jogadores cresceram em comunidades onde esse tipo de atividade causou problemas a diversas famílias.

A polêmica das apostas, porém, é apenas mais um episódio de uma sequência de atritos nos bastidores franceses. Nas últimas semanas, a imprensa local também revelou divergências entre elenco e federação sobre a redução dos bônus pagos durante a Copa do Mundo e sobre a quantidade de ingressos disponibilizados aos atletas para familiares e amigos.

O clima ganhou novos ingredientes após a derrota por 2 a 1 para a Costa do Marfim, em amistoso preparatório. Durante a repercussão do jogo, um vídeo mostrou o volante N’Golo Kanté cumprimentando diversos companheiros no vestiário, mas aparentemente ignorando Mbappé. Embora não haja confirmação de qualquer desentendimento, a cena viralizou nas redes sociais e alimentou especulações sobre o ambiente interno da equipe.

Outro episódio que repercutiu negativamente envolveu o jovem Rayan Cherki. Após o amistoso, o meia declarou que a França iria “esmagar todo mundo” na Copa. A frase não foi bem recebida pela comissão técnica de Didier Deschamps, que precisou conversar com o jogador para evitar uma imagem de excesso de confiança às vésperas da competição.

Os problemas atuais fazem muitos franceses lembrarem de capítulos turbulentos do passado. O caso mais emblemático aconteceu na Copa de 2010, na África do Sul, quando o atacante Nicolas Anelka foi expulso da delegação após ofender o técnico Raymond Domenech. Em protesto, os jogadores se recusaram a treinar, protagonizando o famoso “Motim de Knysna”, um dos maiores escândalos da história das Copas.

Mesmo campanhas de sucesso não ficaram imunes às turbulências. Em 2006, quando a França chegou à final, veteranos como Zinedine Zidane, Lilian Thuram e Patrick Vieira teriam assumido papel central na condução do grupo diante da falta de confiança em Domenech. Já em 2022, apesar do vice-campeonato no Catar, a seleção conviveu com rumores de divisão interna após o corte de Karim Benzema e relatos de desconforto de parte do elenco com a possibilidade de retorno do atacante durante o torneio.

A experiência mostra que crises internas nem sempre impedem bons resultados esportivos. No entanto, a repetição de conflitos nos bastidores reforça uma característica que acompanha a seleção francesa há décadas: o talento do elenco frequentemente divide espaço com turbulências fora das quatro linhas.

Agora, com estreia marcada para 16/06 diante de Senegal, pelo Grupo I — que também conta com Noruega e Iraque —, a França tenta evitar que os problemas extracampo se transformem em um obstáculo para a busca pelo tricampeonato mundial.

Aqui estão os episódios mais notórios de problemas internos da França em Copas do Mundo:

2006 (Alemanha): A “rebelião silenciosa” contra Domenech

A França chegou à final (marcada pela famosa cabeçada de Zidane em Materazzi), mas o início da campanha foi tenso e marcado por uma clara falta de confiança no técnico Raymond Domenech.

  • Autogestão dos veteranos: o relacionamento de Domenech com a equipe era muito desgastado. Após um início ruim na fase de grupos, relatos indicam que os líderes veteranos do elenco (Zinedine Zidane, Lilian Thuram, Claude Makélélé e Patrick Vieira) praticamente assumiram o controle tático e a gestão do time.
  • O caso Barthez x Coupet: antes do torneio, houve uma enorme tensão sobre quem seria o goleiro titular. Grégory Coupet, que vivia melhor fase, abandonou a concentração temporariamente ao descobrir que Fabien Barthez seria o escolhido de Domenech. A decisão também rachou opiniões no grupo.

2010 (África do Sul): O “Motim de Knysna”

Este é, sem dúvida, o maior escândalo interno da história das Copas. A campanha francesa na África do Sul foi um desastre dentro e fora de campo, culminando em uma eliminação vexatória na fase de grupos. O episódio ficou conhecido como “Motim de Knysna”, em referência à cidade sul-africana onde os Bleus se concentraram durante o Mundial.

  • O estopim (o caso Anelka): durante o intervalo do jogo contra o México, o atacante Nicolas Anelka ofendeu gravemente o técnico Raymond Domenech após ser criticado por seu posicionamento. O caso vazou para o jornal L’Équipe, e Anelka foi expulso da delegação no dia seguinte.
  • A greve dos jogadores: em protesto contra a expulsão de Anelka e o suposto “traidor” que vazou a história para a imprensa, os jogadores se recusaram a treinar. O capitão Patrice Evra chegou a discutir de forma ríspida com o preparador físico Robert Duverne no meio do campo, na frente das câmeras.
  • O papelão oficial: Domenech acabou lendo uma carta escrita pelos próprios jogadores para a imprensa, explicando o motivo da greve. A crise tomou proporções de Estado, envolvendo até o então presidente francês, Nicolas Sarkozy, que exigiu mudanças na federação após o torneio.

2014 (Brasil): O corte “preventivo” de Samir Nasri

Embora o problema não tenha estourado durante a Copa, ele ditou a montagem do elenco. Didier Deschamps assumiu a seleção com a missão de limpar a imagem deixada pelo desastre de 2010 e pelos problemas de indisciplina na Euro 2012.

  • A exclusão da estrela: Deschamps decidiu não convocar Samir Nasri, que acabara de ser campeão inglês pelo Manchester City e era um dos melhores meias do país. O motivo não foi técnico, mas comportamental: Deschamps o considerava uma “influência tóxica” no vestiário, que não aceitaria ficar no banco de reservas.
  • A reação: a namorada de Nasri na época foi ao antigo Twitter (hoje X) e xingou Deschamps e a França com palavras de baixo calão, o que rendeu até um processo judicial por parte do treinador. A decisão de Deschamps, no entanto, pacificou o grupo, que fez uma campanha sólida até cair para a Alemanha nas quartas de final.

2022 (Catar): O “caso Benzema” e o racha no elenco

Embora a França tenha chegado à final e feito uma excelente Copa, o ambiente esteve longe de ser pacífico, com as tensões focadas principalmente no retorno e posterior corte do atual Bola de Ouro da época, Karim Benzema.

  • O corte de Benzema: o atacante lesionou a coxa logo antes da estreia e foi mandado de volta a Madri. No entanto, sua recuperação foi rápida e ele poderia ter retornado para a fase de mata-mata, mas o técnico Didier Deschamps optou por não reintegrá-lo.
  • Alívio no vestiário: jornalistas franceses relataram que líderes do elenco, como Hugo Lloris e Antoine Griezmann, não viam com bons olhos o retorno de Benzema, sentindo que a presença dele afetava a dinâmica e o protagonismo do grupo. O ambiente supostamente ficou “mais leve” após a sua partida. Benzema chegou a postar mensagens enigmáticas nas redes sociais durante a reta final e anunciou sua aposentadoria da seleção logo após o torneio.
  • O isolamento de Pavard: outro problema interno envolveu o lateral Benjamin Pavard. Após falhar no primeiro jogo, ele foi sacado do time, criticou colegas no banco de reservas e passou a ser visto como um “dedo-duro” que estaria vazando informações do vestiário para a imprensa, isolando-se do resto do elenco.

Leia mais: Jogadores da França reclamam de comercial de apostas não autorizado

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