Um árbitro barrado na fronteira, um jogador preso ao sair do estádio e dois atletas detidos durante treino. Esses são alguns dos casos documentados pela Human Rights Soccer Alliance em relatório divulgado na semana passada sobre ações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) contra pessoas ligadas ao futebol no país.
Ao todo, segundo a ONG, 17 pessoas vinculadas ao esporte, entre jogadores, treinadores e pais de atletas, foram detidas pelo ICE desde o início de 2025. Três delas já foram deportadas.
Casos documentados
Um dos casos mais emblemáticos é o de Emerson Colindres, jogador que deixou Honduras aos 8 anos. Ele foi preso no dia em que recebia o diploma do Ensino Médio e deportado de volta ao país de origem.
Dois outros jogadores foram detidos enquanto treinavam num campo de futebol no Pier 40, complexo esportivo localizado em Nova York. Outro imigrante foi abordado e deportado logo após deixar o MetLife Stadium, onde havia assistido à final do Mundial de Clubes da FIFA, disputada no ano passado.
O árbitro somaliano Omar Artan também foi afetado: ele foi impedido de entrar nos EUA para apitar partidas da Copa do Mundo, conforme o relatório da ONG.
Futebol como alvo
A Human Rights Soccer Alliance aponta que o futebol se tornou alvo frequente do ICE por concentrar comunidades latino-americanas. O relatório afirma que as operações alcançaram escolas, parques, centros comunitários e instalações esportivas.
Em declaração incluída no documento, a ONG afirmou: “O futebol nos Estados Unidos está profundamente enraizado nas comunidades imigrantes. Por gerações, serviu como um espaço de pertencimento e expressão cultural. No entanto, (…) as ações de fiscalização se estenderam a espaços centrais do futebol, incluindo escolas, parques, centros comunitários e instalações esportivas”.
Com base em dados do próprio governo norte-americano, a ONG contabilizou 92.392 detenções realizadas pelo ICE nas cidades-sede da Copa entre 20 de janeiro e 15 de outubro de 2025, período que começa com a posse do presidente Donald Trump. O número, segundo a entidade, está acima da média histórica.
Fifa sem posição oficial
Apesar dos casos registrados, a Fifa não emitiu nenhuma orientação oficial para reduzir o risco de detenções nos estádios ou arredores. O ICE também não recebeu qualquer restrição formal para atuar durante os jogos, conforme o relatório.
A Human Rights Soccer Alliance pede que a entidade máxima do futebol mundial garanta a proibição de operações anti-imigração “em todos os locais da Copa do Mundo e em seus arredores”.
Na quarta-feira (10/06), grupos de defesa de imigrantes se reuniram diante da sede da Fifa em Miami para reforçar o pedido. A ativista Yarelíz Méndez Zamora, do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, afirmou: “Avisamos que haveria detenções arbitrárias, a possibilidade de pessoas terem a entrada negada nos EUA, discriminação racial e muito mais. Tudo isso está acontecendo, já aconteceu e continuará acontecendo”.
O cineasta e ativista Billy Corben foi além e fez um apelo direto a quem ainda não havia embarcado para o torneio: “As últimas 72 horas comprovaram nossos piores temores, e eu gostaria de enviar uma mensagem a todos ao redor do mundo. Torcedores, jogadores, técnicos, árbitros, se vocês ainda não embarcaram, mesmo com visto válido, não façam isso. Não venham”.
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