Há algo de intrigante na decadência da seleção brasileira. Depois de cinco Copas do Mundo marcadas por campanhas decepcionantes, já não estamos falando de um acidente de percurso ou de uma geração menos talentosa.
Estamos diante de um fenômeno que, imagino, ainda será objeto de estudo de sociólogos, historiadores e antropólogos.
O Brasil continua sendo apresentado como a terra do futebol. A camisa amarela ainda carrega um peso simbólico enorme, e a memória da seleção de 1970 permanece viva no imaginário nacional.
Mas mito e realidade nem sempre caminham juntos. Quando a bola rola, o que vemos é uma equipe distante da grandeza que ajudou a construir sua própria lenda.
Não se trata de afirmar que o futebol brasileiro acabou. Outras potências também enfrentaram períodos difíceis. A Alemanha, por exemplo, acumulou fracassos recentes mesmo após conquistar a Copa de 2014. A diferença é que, ao observar seleções como a Argentina, percebemos algo que parece faltar ao Brasil: o desejo visível de vencer.
Os argentinos convivem com crises políticas, econômicas e escândalos de corrupção tão familiares quanto os nossos. Seus principais jogadores também atuam na Europa. Ainda assim, quando entram em campo, passam a impressão de que estão lutando por algo maior do que a própria carreira.
No caso brasileiro, a sensação recorrente é outra. Muitas vezes parece faltar a velha garra que costumava definir a seleção.
Talvez por isso a insistência em batuques, festas e referências ao passado soe cada vez mais como uma tentativa de preservar uma imagem que já não corresponde aos fatos. O prestígio histórico continua existindo, mas a realidade recente cobra sua conta.
Espero que a seleção volte a praticar um futebol digno de sua tradição. Mas, enquanto isso não acontece, a pergunta permanece aberta: como um país que transformou o futebol em parte de sua identidade chegou ao ponto de olhar para a Argentina e sentir que está perdendo de goleada justamente naquilo que um dia foi sua maior especialidade?