O julgamento de três policiais militares acusados de participação no assassinato de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach terminou anulado antes de chegar ao veredicto. Na noite de segunda-feira (22/06), o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, do Fórum de Guarulhos, encerrou a sessão após a equipe de defesa deixar o plenário. O processo terá de recomeçar do início, com a formação de um novo conselho de sentença, o grupo de jurados que decide o caso. Nenhuma data foi marcada para o novo julgamento.
Os réus são os policiais militares Dênis Antônio Martins, Ruan Silva Rodrigues e Fernando Genauro da Silva. Segundo a investigação, os três atuaram como atiradores e motorista do carro de fuga no atentado de novembro de 2024 no aeroporto. O ataque matou o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais e deixou outras duas pessoas feridas. Gritzbach era o alvo.
A crise no plenário
A sessão havia começado na manhã daquela segunda. O impasse surgiu quando o promotor Rodrigo Merli Antunes passou a questionar o capitão da PM Manuel Carlos de Carvalho sobre um inquérito relacionado a atentados contra o advogado de defesa Mauro Ribas. A defesa contestou a pertinência das perguntas. Os advogados Cláudio Dalledone, Renan Canto e Mauro Ribas interromperam os questionamentos, com um dos defensores afirmando: “O senhor está querendo de novo atacar a advocacia”. A discussão escalou com gritaria simultânea entre as partes.
O magistrado suspendeu a sessão por cerca de cinco minutos. Quando os trabalhos foram retomados, a defesa optou por deixar o plenário. O juiz, então, declarou a anulação.
Dalledone atribuiu a crise ao promotor. Segundo o advogado, Merli Antunes tentava provocar um confronto físico no plenário para dissolver o conselho. Ainda durante um intervalo na sessão, por volta das 15h20, Dalledone havia declarado: “O promotor de Justiça, de forma deselegante, está tentando fazer com que haja um confronto físico no plenário para ele dissolver o conselho de sentença, formado pelos jurados”.
O promotor rebateu a versão. Em entrevista coletiva realizada também durante o intervalo, Merli Antunes afirmou: “Quem tensionou abandonar o plenário, para dissolver o julgamento, foi a defesa”.
O promotor acrescentou ainda que a provocação partiu da defesa e que ele retorquiu à altura. Durante o bate-boca, Merli Antunes havia dito: “O senhor conversa com bandido, eu converso com policial”, provocando uma gritaria dos advogados.
O que cada lado disse
Dalledone declarou que “A prova estava rumando para o caminho que deve rumar, mostrando que não existe conexão nenhuma daquilo que eles querem sustentar”. O advogado afirmou ainda: “A verdade é que eles são inocentes e nós precisamos provar a inocência”, e disse que pretende continuar no caso quando o julgamento for remarcado.
Merli Antunes, por sua vez, afirmou que “Nós apenas estávamos conseguindo demonstrar para o jurado que, mais uma vez, a defesa cria narrativas para colocar bandidos, travestidos de policiais, na rua”. O promotor disse ainda que “Tudo que for necessário para desmascarar as mentiras defensivas, obviamente, será trazido à tona de novo”, e que pretende manter a mesma linha de atuação no futuro julgamento.
Os outros envolvidos no caso
A investigação aponta Kauê do Amaral Coelho como o responsável por recrutar os três PMs. Ele também teria sido filmado no saguão do aeroporto indicando a localização de Gritzbach aos atiradores.
Os apontados como mandantes são Diego dos Santos Amaral, conhecido como Didi, e Emílio Carlos Gongorra Castilho, o Cigarreira. Segundo a investigação, ambos estão foragidos. Castilho é acusado de ter ligação com o Comando Vermelho (CV).
As sessões do júri deveriam ocorrer diariamente até o fim desta semana, plano que foi interrompido pela anulação.
Gritzbach era empresário do setor imobiliário e se tornou peça central em investigações sobre o crime organizado em São Paulo após firmar um acordo de colaboração com o Ministério Público. Em seus depoimentos, ele apontou supostos esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e denunciou a participação de policiais em práticas ilegais. O empresário foi morto a tiros em novembro de 2024, nas proximidades do Aeroporto Internacional de Guarulhos.
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