A crise energética provocada pela guerra envolvendo o Irã pode ter criado um vencedor inesperado: a China.
Um relatório da consultoria The Asia Group afirma que Pequim saiu relativamente fortalecida do choque causado pela interrupção no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás. Pela passagem circula cerca de 20% do consumo global de petróleo líquido, segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos.
Enquanto economias asiáticas mais dependentes do petróleo do Golfo Pérsico enfrentaram pressão sobre combustíveis, transporte e custos de produção, a China conseguiu reduzir parte do impacto graças a dois fatores: grandes estoques de petróleo e anos de investimento pesado em energia renovável. Segundo o relatório citado pelo The Guardian, o país tinha, no início de 2026, reservas equivalentes a mais de 100 dias de importações de petróleo.
A Agência Internacional de Energia também registrou aumento nos estoques chineses em meio à crise, mesmo quando os estoques globais observados de petróleo caíram em março.
Na prática, isso deu à China mais margem de manobra em um momento de instabilidade. O país segue altamente dependente de petróleo importado — em 2024, as importações representaram 74% do consumo aparente chinês, segundo o Center on Global Energy Policy, da Universidade Columbia. Mas, na comparação com outros países, Pequim chegou à crise com mais proteção.
O segundo ponto é estratégico. A China domina parte importante da cadeia global de tecnologias limpas, como painéis solares, baterias e veículos elétricos. Com a alta do preço da energia e a insegurança sobre rotas de abastecimento, mais países passaram a acelerar a busca por alternativas ao petróleo e ao gás importados. Esse movimento tende a ampliar a demanda por produtos chineses.
É aí que a crise energética vira também uma disputa geopolítica.
Na avaliação do The Asia Group, a China pode usar essa vantagem para se apresentar como um parceiro econômico mais estável, especialmente em países que buscam reduzir a exposição a choques de energia. O relatório aponta que até aliados dos Estados Unidos podem ter incentivos para ampliar relações comerciais com Pequim, como forma de proteção.
A crise no Estreito de Ormuz não atingiu apenas o mercado de combustíveis. A UNCTAD, agência da ONU para comércio e desenvolvimento, alertou que a interrupção pode deixar efeitos prolongados sobre economias vulneráveis, com alta de custos de energia, fertilizantes, transporte e alimentos.
Apesar da vantagem relativa, a China não está imune. Um conflito prolongado no Oriente Médio ainda representa risco para a economia chinesa, justamente porque o país continua sendo o maior importador de petróleo do mundo e depende de rotas internacionais para manter sua indústria funcionando.
A diferença é que, nesta crise, Pequim parece ter sofrido menos — e pode sair dela com mais influência.
No tabuleiro global da energia, a guerra mostrou que não basta ter petróleo. Também conta quem tem estoque, tecnologia e capacidade de vender a solução quando o mundo entra em crise.




