Representantes da indústria brasileira estão em Washington nesta segunda-feira (06/07) para apresentar argumentos contra a sobretaxa de 25% que o presidente dos EUA, Donald Trump, pretende impor. O processo se enquadra na Seção 301 da lei comercial americana, que prevê uma fase de audiências antes que qualquer decisão seja tomada.
Entre as entidades presentes nas audiências estão a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Segmentos como café, açúcar, etanol, calçados, papel e mel também se fazem representar.
O que está em jogo para o exportador brasileiro
De acordo com projeções da CNI, caso a proposta seja aprovada, 31,6% das exportações brasileiras destinadas aos EUA passarão a enfrentar uma alíquota total de 37,5%. Além disso, a sobretaxa de 25% incidiria sobre 35,2% de toda a pauta exportadora brasileira voltada ao mercado americano.
O quadro se agrava quando se consideram as tarifas já vigentes com base na Seção 232, mecanismo que autoriza os EUA a aplicar sobretaxas por motivos de segurança nacional. Incluídas essas cobranças preexistentes, as estimativas da CNI indicam que 54,1% das exportações brasileiras para os EUA estarão expostas a alguma modalidade de tarifa adicional.
Na prática, isso significa que mais da metade do que o Brasil vende aos americanos ficará mais caro. Produtos como aço, alumínio e máquinas já enfrentam barreiras. A nova sobretaxa ampliaria esse peso.
Máquinas e equipamentos já sentem o impacto
O setor de máquinas e equipamentos é um dos mais expostos. Segundo a Abimaq, os EUA concentram um quarto das vendas externas brasileiras desse segmento. Em 2025, as exportações do setor já caíram mais de 9%, segundo a entidade.
Um número se destaca no setor de máquinas: segundo a Abimaq, 82% das exportações brasileiras desse segmento com destino aos EUA são realizadas entre empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico. Isso significa que, na maior parte dos casos, a tarifa recairia sobre operações internas a uma mesma corporação, o que fragiliza a tese de concorrência desleal.
Desde fevereiro de 2026, já está em vigor uma tarifa global de 10% sobre produtos brasileiros nos EUA. A proposta de Trump adicionaria mais 25 pontos percentuais a esse patamar.
Os argumentos do Brasil
Roberto Azevêdo, que preside o Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp e exerceu o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), disse ao g1 que a medida carece de lógica econômica e não endereçará as questões levantadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Na avaliação dele, a tarifa elevará os custos das cadeias produtivas no Brasil e nos EUA, encarecerá produtos para os consumidores e causará prejuízos a empresas dos dois países.
Constanza Negri, gerente de Comércio e Integração Internacional da CNI, diz que não há evidências de discriminação contra empresas americanas. Segundo ela, as medidas não têm justificativa nos planos jurídico, econômico ou estratégico.
O Brasil também contesta as críticas americanas ao Pix e a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), argumentando que essas questões não têm relação com o comércio bilateral. O chanceler Mauro Vieira assinou documento do governo brasileiro com essa posição.
A indústria brasileira defende ainda que a tarifa prejudicaria não só os exportadores nacionais, mas também empresas, consumidores e cadeias produtivas dos EUA, posição expressa pelas entidades participantes das audiências.




