Pelo segundo verão seguido, Paris abriu trechos do rio Sena para banho público. A cena chama atenção porque, durante mais de um século, nadar no Sena foi proibido. A restrição começou em 1923, por causa da poluição e dos riscos à saúde. Agora, moradores e turistas podem entrar na água em três pontos supervisionados, com salva-vidas, controle de acesso e testes diários de qualidade da água.
A virada não aconteceu por acaso.
A recuperação do Sena ganhou força com a Olimpíada de 2024. Para permitir provas como triatlo e maratona aquática, Paris acelerou um plano bilionário de despoluição. Foram cerca de 1,4 bilhão de euros em obras para reduzir o lançamento de esgoto no rio, melhorar o tratamento da água e conter a contaminação provocada por chuvas fortes.
Entre as principais obras, está um grande reservatório subterrâneo para armazenar água da chuva e impedir que o sistema de esgoto transborde diretamente no Sena. Também houve novas ligações de imóveis e barcos à rede de esgoto e modernização da infraestrutura sanitária.
Mesmo assim, o Sena não virou um rio perfeito.
A qualidade da água ainda pode piorar depois de temporais, e áreas de banho podem ser fechadas temporariamente se os testes apontarem risco. Ou seja: Paris não eliminou todos os problemas. Mas conseguiu transformar um rio antes interditado em espaço público de lazer.
É aí que surge a comparação inevitável com São Paulo.
O Rio Tietê também já foi usado para lazer, remo e competições. Hoje, no trecho que corta a capital paulista, é lembrado principalmente pelo mau cheiro, pela espuma e pela poluição.
A recuperação do Tietê começou oficialmente em 1992, com o Projeto Tietê, da Sabesp. Desde então, o programa se tornou uma das maiores iniciativas de saneamento do país, com bilhões de dólares investidos em coleta e tratamento de esgoto na Região Metropolitana de São Paulo. A própria Sabesp informa que o projeto levou coleta e tratamento de esgoto a milhões de pessoas desde o início dos anos 1990.
Houve avanços.
Mas eles ainda não bastam para devolver o rio à população.
Segundo o relatório Observando o Tietê 2025, da Fundação SOS Mata Atlântica, a mancha de poluição caiu de 207 km em 2024 para 174 km em 2025. Foi uma redução de 15,9%. Ainda assim, nenhum ponto monitorado foi classificado como ótimo, e apenas um ponto teve qualidade considerada boa. A maior parte ficou entre regular, ruim ou péssima.
A diferença entre Paris e São Paulo passa por escala, gestão e continuidade.
O Sena corta uma capital com grande pressão urbana, mas Paris conseguiu concentrar investimentos, obras e governança em torno de uma meta clara: tornar o rio apto para os Jogos e, depois, para o uso público.
O Tietê enfrenta um desafio maior e mais espalhado. A bacia envolve dezenas de municípios, córregos contaminados, ocupações irregulares, ligações clandestinas de esgoto, lixo, resíduos industriais e décadas de crescimento urbano desordenado.
Também não basta tratar o rio principal. É preciso limpar os afluentes que chegam até ele.
O governo de São Paulo criou o programa IntegraTietê, com previsão de ampliar investimentos em saneamento e recuperação ambiental. Em 2024, o Estado informou que os aportes poderiam chegar a R$ 23,5 bilhões até 2029, incluindo ações ligadas à desestatização da Sabesp.
A pergunta, portanto, não é se o Tietê pode ser recuperado.
Pode.
A pergunta é quanto tempo São Paulo está disposta a sustentar esse compromisso.
Paris mostra que recuperar um rio urbano exige dinheiro, obra, fiscalização e uma meta que sobreviva a governos diferentes. O Sena virou exemplo não porque ficou limpo da noite para o dia, mas porque a cidade decidiu tratar o rio como parte da vida urbana.
O Tietê ainda espera essa virada.
E, para São Paulo, talvez a grande pergunta não seja quando alguém poderá nadar no rio.
É quando a cidade vai parar de aceitar que o seu principal rio seja tratado como esgoto a céu aberto.




