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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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A Euro 2028 aponta o caminho da próxima negociação da Copa?

O acordo com CazéTV surge em meio à transição do futebol para uma economia sem fronteiras, que reposiciona plataformas globais na negociação dos direitos esportivos

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(CazéTV Divulgação)

Com a CazéTV, o Brasil tornou-se o sexto país a assegurar um acordo de mídia para a Euro 2028. Entre os contratos anunciados até agora pela UEFA, é o único baseado em transmissão digital gratuita via YouTube.

Reino Unido, Alemanha, Espanha e o bloco formado por Irlanda do Norte, Escócia e Gales optaram pela TV aberta. A Áustria seguiu caminho semelhante, combinando televisão e streaming por assinatura.

Antes do anúncio oficial, acompanhado de um vídeo original e de execução refinada que costura os territórios e os escudos das federações finalistas e campeãs da competição, o jornalista Marcel Rizzo, do Estadão, informou que o contrato prevê as 51 partidas no YouTube, além do uso das imagens oficiais nas redes sociais.

Na prática, a operação repete a estratégia adotada pelo canal durante esta Copa do Mundo.

Até o momento, o único valor tornado público entre os acordos da Euro é o da RTVE, que desembolsou € 50 milhões pelos direitos na Espanha.

As negociações são conduzidas pela CAA Eleven, empresa afiliada à Creative Artists Agency (CAA), responsável desde 2012 pela comercialização global dos direitos de transmissão, patrocínio e licenciamento das competições de seleções da UEFA.

No processo disputado na década passada, a empresa venceu a concorrência com uma projeção de € 1,16 bilhão por uma parcela não revelada dos direitos. As 53 federações nacionais aprovaram a adoção do modelo centralizado de comercialização, cuja expectativa era gerar € 930 milhões apenas em receitas de mídia naquele ciclo.

Quatorze anos depois, a dimensão desse mercado mudou. A UEFA registrou um crescimento de 40% nas vendas globais de direitos para o ciclo que se estende até 2028 e projeta uma arrecadação combinada de € 5,1 bilhões no atual exercício fiscal. Como mostrei em maio, ao analisar a venda dos direitos dos torneios de clubes, eles continuam sendo o principal ativo da entidade, respondendo por 81% da receita prevista.

Carlo De Marchis observa que o futebol atravessa o colapso dos modelos nacionais de distribuição. Plataformas globais remodelaram os hábitos de consumo e empurraram ligas e competições para uma economia sem fronteiras.

O Mundial deste ano oferece uma amostra desse processo. Em diferentes mercados, televisão e plataformas digitais coexistem enquanto acumulam recordes históricos de consumo.

E o anúncio do torneio europeu de seleções pela CazéTV em meio ao desenrolar da Copa sinaliza  como o mercado pode se desenhar para a disputa dos direitos da edição que será sediada por Espanha, Portugal e Marrocos daqui a quatro anos.

A economia das plataformas entrou na negociação

O acordo da CazéTV aparece no momento em que a FIFA também experimenta novas formas de distribuição.

Para 2026, a entidade fechou 175 contratos individuais de transmissão. A pulverização continua sendo um dos pilares do modelo econômico do torneio e ajuda a explicar por que as receitas de mídia praticamente dobraram desde 2010, passando de US$ 2,4 bilhões para uma projeção superior a US$ 4 bilhões no próximo ciclo.

Leia mais: A dieta seletiva do YouTube e a Copa brasileira como caso-limite

Ao mesmo tempo, a FIFA escolheu YouTube e TikTok como plataformas preferenciais para distribuir conteúdo oficial durante esta Copa.

Nick Meacham considera esse um dos testes mais relevantes hoje para a indústria esportiva. Segundo o analista, o desafio é compreender o papel que as plataformas ocupam dentro da cadeia de valor dos direitos esportivos. Funcionam como concorrentes que disputam audiência com os detentores dos direitos ou como canais capazes de ampliar o alcance e fortalecer o próprio produto?

Leia mais: Copa de 2026 transformará propriedade intelectual no esporte e redefinirá jogo das plataformas

A estratégia da FIFA indica que essas funções podem coexistir.

Ao preservar sua estrutura tradicional de venda dos direitos enquanto amplia a distribuição nas plataformas, a entidade procura desenvolver novas camadas de audiência sem desmontar o modelo que financia a competição.

A decisão da UEFA de colocar a Euro gratuitamente no YouTube, por meio da CazéTV no Brasil, se encaixa na mesma transformação.

A questão é saber até onde ele pode chegar até 2030.

A UEFA mudou a forma de vender seus torneios

A discussão sobre plataformas não começou com a Euro de seleções. Ela já aparecia na reformulação comercial dos torneios de clubes promovida pela UEFA.

No início deste ano, ao analisar a venda do novo ciclo de direitos da Liga dos Campeões, Carlo De Marchis chamou atenção para a substituição da TEAM Marketing pela Relevent Sports na condução comercial dos torneios.

A troca de agentes representa uma inflexão na forma como a UEFA passou a apresentar seus ativos ao mercado.

Conforme explicou o The Athletic, os direitos comerciais da Liga dos Campeões, Liga Europa e Liga Conferência passaram a ser administrados pela UC3, joint venture criada entre a UEFA e a European Club Football (ECF), tendo a Relevent Football Partners como agente exclusivo de vendas.

A UC3 já assegurou mais de US$ 3,8 bilhões anuais em receitas de mídia a partir de 2027. Os números, porém, contam apenas parte da história.

Analistas enxergaram a chegada da Relevent como uma aproximação deliberada do modelo americano.

Na repercussão do novo edital, SportBusiness e Bloomberg destacaram justamente esse movimento. Contratos mais longos, maior estabilidade comercial, construção internacional das marcas e pacotes capazes de despertar interesse simultâneo em diferentes mercados.

Os clubes tendem a enxergar ganhos evidentes nesse desenho, sobretudo aqueles que dependem de uma distribuição centralizada das receitas.

As emissoras tradicionais observam a mesma mudança por outro ângulo.

Durante décadas, a negociação territorial lhes garantiu previsibilidade e vantagem competitiva. Quanto maior a capacidade de um comprador disputar direitos em vários países ao mesmo tempo, menor tende a ser esse diferencial.

A participação da Relevent também ajuda a explicar outra mudança importante.

Conforme destacou De Marchis, os streamings deixaram de ocupar uma posição periférica nas disputas pelos direitos. Plataformas passaram a reunir condições para apresentar ofertas consistentes em diferentes mercados ao mesmo tempo, enquanto os pacotes comerciais se tornaram mais modulares e flexíveis.

Essa arquitetura chamou atenção de Yannick Ramcke em uma participação no início deste ano no podcast Unofficial Partner.

Para ele, a estratégia da Relevent funciona como um “cavalo de Troia”. A expressão não se refere ao destino final dos direitos. Ela descreve o método.

Ao estruturar pacotes globais, a empresa amplia o universo de compradores capazes de disputar um mesmo ativo. Em vez de restringir a concorrência às emissoras tradicionais de cada país, cria um ambiente em que plataformas globais passam a competir pelo mesmo produto.

Essa, talvez, seja a mudança mais relevante. E nesse cenário, o acordo da CazéTV para a Euro se encaixa em uma transformação que começou antes da competição de seleções e que alcança diferentes frentes do mercado de direitos.

O equilíbrio de poder começa a mudar

Existe, porém, um aspecto comum entre os movimentos da FIFA e da UEFA que só aparece com mais nitidez quando observado a partir da NFL.

No início do ano, mostrei aqui como a liga utilizou a cláusula de mudança de controle decorrente da venda da Paramount Global para a Skydance Media para antecipar as negociações com a CBS, mesmo com um contrato ainda em vigor até 2033.

O objetivo era renegociar um acordo avaliado em US$ 2,1 bilhões anuais, buscando um reajuste de pelo menos 50%.

O episódio expõe um mercado no qual as negociações deixaram de acontecer apenas nos ciclos previamente estabelecido, passando a acompanhar a própria reorganização da indústria da mídia.

E essa dependência cria uma assimetria diferente daquela que sustentou a inflação dos direitos nas últimas décadas.

Durante anos, emissoras competiam entre si por ativos considerados escassos. Agora, ligas, broadcasters e plataformas negociam em um ambiente muito mais dinâmico, influenciado por fusões, consolidações, novos modelos de distribuição via criadores e plataformas e pela entrada de compradores com atuação global.

O centro da negociação começa a migrar da disputa territorial para a capacidade de cada plataforma ampliar audiência, distribuição e monetização em escala internacional.

Seria prematuro cravar que o acordo da CazéTV para a Euro seja o espelho de como a FIFA comercializará a Copa de 2030, mas sugere de que maneira a negociação pode se delinear.

Não porque o YouTube tenha se tornado o destino inevitável dos grandes eventos esportivos, mas também pelo fato de as plataformas passarem a integrar a disputa pelos direitos desde a origem da negociação.

A próxima batalha nesse campo não se limitará a uma mera disputa entre televisão e streaming. Ela será definida pela forma como cada competição transformará distribuição global, escala de audiência e monetização em um mesmo ativo.

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