O FBI e procuradores federais dos Estados Unidos deram início a uma série de depoimentos para investigar as operações financeiras da Associação do Futebol Argentino (AFA) durante a Copa do Mundo realizada em solo americano. A informação foi confirmada pelo jornal argentino La Nación nesta quarta-feira (08/07).
A apuração, conduzida pelo Departamento de Justiça dos EUA (DoJ), busca desvendar como a entidade máxima do futebol argentino movimentou milhões de dólares pelo sistema financeiro americano. Os investigadores tentam determinar se as transações configuram crimes graves como fraude e lavagem de dinheiro.
O esquema financeiro e a empresa de fachada
No coração da investigação está a TourProdEnter LLC, uma empresa que pertence ao produtor teatral argentino Javier Faroni e sua esposa, Erica Gillette. Documentos bancários confidenciais revelam que a companhia funcionava como uma espécie de veículo de cobrança para os contratos internacionais da AFA no exterior. O volume de dinheiro movimentado impressiona as autoridades. Ao todo, US$ 260 milhões em receitas da AFA circularam pelas contas da empresa em cinco gigantes bancários americanos, sendo eles o Citibank, Synovus, Bank of America, JP Morgan e PNC Bank.
Desvios milionários sem justificativa
Desse montante milionário, pelo menos US$ 57 milhões foram distribuídos para sociedades e beneficiários cujas justificativas econômicas simplesmente não aparecem nos registros analisados. O contrato de Javier Faroni com a AFA, que tinha validade até dezembro de 2025, garantia à empresa do produtor teatral impressionantes 30% de todas as receitas internacionais da federação de futebol.
Envolvimento de multinacionais e evasão de divisas
Os investigadores também descobriram que grandes marcas globais utilizaram a conta da TourProdEnter para repassar verbas à federação argentina. O fluxo ocorreu justamente no período em que o país sul-americano enfrentava um rígido controle cambial (conhecido popularmente como “cepo”), que limitava drasticamente a saída de dólares do país. Durante esse intervalo, a Adidas transferiu US$ 60 milhões para a empresa de Faroni, enquanto a Warner repassou US$ 40 milhões. Os registros apontam ainda uma transferência específica da Socios Technologies, empresa ligada a fan tokens de futebol, no valor de US$ 317.868, realizada em outubro de 2023.
A força-tarefa do Departamento de Justiça americano
A investigação preliminar começou a ganhar corpo em 2025, impulsionada por reportagens investigativas. Agora, três promotores federais de peso do Departamento de Justiça assumiram o caso. Patrick Gushue, membro da Unidade de Integridade Bancária e especialista em recompensas para delatores corporativos, atua ao lado de Christopher Ting, especialista em crimes financeiros de colarinho branco. O trio se completa com Michael Berger, advogado litigante sênior da Procuradoria Federal do Distrito Sul da Flórida, conhecido por ter liderado o processo que condenou o ex-controlador-geral do Equador, Carlos Ramón Pólit Faggioni.
Depoimentos ao FBI e desdobramentos políticos
Na semana passada, o empresário Guillermo Tofoni participou de uma videoconferência de três horas com agentes do FBI e procuradores baseados em Washington e Miami. Há também a forte possibilidade de que as autoridades convoquem ex-funcionários do governo de Javier Milei que tiveram acesso a dados sigilosos da federação de futebol comandada por Claudio “Chiqui” Tapia. Vale lembrar que o Ministério de Segurança da Argentina, sob a gestão de Patricia Bullrich, já havia enviado alertas de risco financeiro sobre a AFA aos Estados Unidos.
Consultado formalmente sobre o avanço das investigações, o Departamento de Justiça dos EUA manteve a cautela institucional e emitiu uma nota oficial ressaltando que as medidas de investigação, por si sós, não determinam responsabilidade nem culpabilidade dos envolvidos.




