Daniel Ortega, o homem que anunciou o fim das eleições na Nicarágua, é exemplo vivo de que o presente muitas vezes não se esquece do passado, mas, em vez de aprender com os erros, segue os repetindo ao longo do tempo.
Presidente desde 2007, Ortega fez a ameaça na cerimônia de aniversário da Revolução Sandinista, justificando a decisão pelo risco de a oposição tomar o poder “apoiada por interesses estrangeiros”.
E o que seria essa tal Revolução?]
Voltemos a 1979, época em que a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética era uma realidade.
Na Nicarágua, uma insurreição liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) derrubou a ditadura da família Somoza, que dominava o país desde os anos 1930.
O nome do movimento era inspirado em Augusto Sandino, líder guerrilheiro conhecido em sua época como general dos homens livres, um trabalhador rural que no início do século XX combateu a ocupação norte-americana no país.
Daniel Ortega era um dos nomes fortes de 1979 e passou a conduzir o país depois do sucesso do movimento.
Foram anos difíceis. Durante a década de 1980, enfrentou sanções econômicas dos Estados Unidos e uma guerra civil diante dos Contras, paramilitares financiados pelo governo norte-americano.
A Revolução Sandinista teve uma pausa na década seguinte quando Ortega concedeu eleições diretas e perdeu o poder para Violeta Chamorro. Mas ele voltaria. E voltou, quando venceu o pleito de 2006.
A partir daí, foi reeleito em 2011, 2016 e 2021. Sua postura mudou: firmou pactos com antigos adversários políticos, setores empresariais e lideranças religiosas.
Gradualmente, mudou a Constituição para permitir reeleições indefinidas, aparelhou o Poder Judiciário e alterou o sistema eleitoral.
Em 2018, manifestações populares contra reformas na previdência foram reprimidas com violência, deixando mais de 300 mortos.
Desde então, Ortega intensificou o fechamento político: perseguiu a Igreja Católica, cassou licenças de ONGs e veículos de imprensa, retirou a cidadania de opositores e transformou a vice-presidente (e sua esposa) Rosario Murillo em “copresidente” oficial da nação.
A hoje empoeirada Revolução Sandinista não foi apenas um evento político; se tornou um ícone da cultura pop e da esquerda internacional na década de 1980.
A banda britânica de punk rock The Clash, influenciada pela causa, chegou a lançar um álbum chamado Sandinista!, que se tornou um dos seus discos mais cultuados.
De volta a 2026, aqui para nós, brasileiros, não será surpresa se a oposição a Lula usar o nome de Daniel Ortega na campanha eleitoral deste ano, buscando o passado em comum de amizade entre os dois, embora os caminhos tenham se separado em tempos recentes.
Historicamente, Lula e Ortega mantinham um vínculo de camaradagem desde a criação do Fórum de São Paulo, nos anos 1990.
Para lideranças históricas brasileiras de esquerda, a Nicarágua sandinista representava a memória viva de uma insurreição romântica e popular contra a ditadura Somoza e o imperialismo dos Estados Unidos.
Porém, nos últimos anos, com as crescentes denúncias de violações de direitos humanos, a cassação de opositores e a perseguição à Igreja, o governo brasileiro passou a adotar uma postura de distanciamento diplomático e críticas cautelosas.
O ápice do afastamento ocorreu quando o governo de Ortega expulsou o embaixador do Brasil em Manágua, em resposta à ausência do diplomata nas comemorações da revolução.
Em retaliação, o Brasil também determinou a saída do embaixador nicaraguense de Brasília. No século XXI, uma parte da esquerda da América Latina tornou-se mais pragmática. Não toda.