BRASÍLIA – Nesta terça-feira (21/04), Brasília celebra mais um aniversário consolidada não apenas como o centro administrativo do país, mas como a eterna Capital do Rock. O título, herdado da efervescência cultural dos anos 80, é fruto de um movimento espontâneo de jovens que ocuparam estacionamentos e auditórios, transformando o concreto da cidade em palco para a rebeldia e a criatividade intelectual.
A concentração de grupos musicais e a repercussão nacional de bandas locais foram os pilares dessa transformação. O movimento surgiu de forma orgânica, impulsionado pela união entre filhos de professores e de militares no ambiente da Universidade de Brasília (UnB), onde as letras de protesto ganharam vida. Hoje, o legado é mantido pelo reconhecimento do rock como patrimônio cultural imaterial e por uma rota turística oficial que, desde 2016, mapeia a memória da cidade.
O som que uniu a cidade
Para o professor do Departamento de Música da UnB, Vadim Arsky, a força do rock brasiliense residiu na quebra de barreiras entre o ambiente acadêmico e a comunidade. Segundo ele, a integração foi o que permitiu à capital respirar o gênero em cada esquina:
“Não existia fronteira de dizer quem é que podia, quem é que não podia, todo mundo estava sempre participando. Então isso uniu a escola de música, universidade, pessoas que estavam envolvidas no meio acadêmico e no meio de estudo de música com as pessoas da sociedade, com membros de todo lugar, de modo que a cidade inteira respirava rock.”
Além do ensino clássico, o rock ocupou espaços icônicos como o Cine Karim, o Teatro Rolla Pedra e a Colina, na UnB. O volume de produção era tamanho que a Ordem dos Músicos do Distrito Federal (OMB-DF) chegou a registrar mais de 250 bandas cadastradas durante aquela década.
Rota Brasília Capital do Rock: preservação e inspiração
Com o objetivo de preservar essa identidade, a Rota Brasília Capital do Rock foi estabelecida em 2016, ano em que o gênero foi oficialmente declarado patrimônio cultural imaterial do DF. O projeto conta com pontos de visitação sinalizados, que hoje somam mais de 40 locais, incluindo a residência de Renato Russo e o tradicional Bar Beirute. A iniciativa utiliza sinalização e códigos digitais para contar o que aconteceu em locais que, à primeira vista, parecem comuns.
O vocalista da Plebe Rude, Philippe Seabra, participou ativamente da consolidação da rota e enfatiza que o objetivo é inspirar as novas gerações ao mostrar o que a juventude da época conquistou, mesmo sob a vigilância da censura e sem os recursos tecnológicos atuais:
“Olha só o que essa juventude conseguiu fazer sem internet, sem acesso a nada, só tentando fazer as coisas acontecerem, e tendo que mandar a música para censura, apanhar da polícia, de playboy, capitão, general. Olha a ressonância que isso teve, olha a ressonância que isso tem até hoje, é incrível. Então essa é a ideia por trás da rota Brasília Capital do Rock: inspirar as pessoas.”
Neste aniversário de Brasília, os endereços históricos servem como um lembrete da produção cultural realizada com garra durante o período da ditadura militar. Mais do que nostalgia, o resgate desses locais busca manter vivo o título da cidade através da valorização dos espaços que deram voz a uma das eras mais influentes da música brasileira.
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