A pesquisa “O Teto e a Tela”, realizada pelo Observatório das Mulheres Periféricas (OMPerifa), em parceria com o Instituto Salve Quebrada e o Nós, Mulheres da Periferia, revela que o uso intensivo de celulares por crianças nas periferias da zona sul de São Paulo não é apenas uma questão de escolha de lazer.
Segundo o relatório, os aparelhos assumiram a função de “babá digital” para mães e cuidadoras, especialmente aquelas que chefiam os lares sozinhas. Porém, isso não é algo que deixa as mães confortáveis, gerando um profundo conflito emocional entre o alívio imediato e o sentimento de culpa.
A sobrecarga de trabalho é um fator determinante para esse cenário. No Brasil, as mulheres dedicam, em média, o dobro do tempo gasto pelos homens com cuidados domésticos, segundo o IBGE.
“Quando a pesquisa fala da tela como uma ‘babá digital’, não está tratando isso como uma escolha simples ou individual. Os relatos mostram mulheres extremamente cansadas, tentando sobreviver a jornadas exaustivas de trabalho, deslocamento, cuidado e gestão da casa”, explica a diretora-executiva do OMPerifa, Amanda Stabile.
Uma das entrevistadas sintetizou a situação: “Às vezes [deixar a criança interagindo com a tela] é o tempo de você lavar uma louça. O motivo principal é ser a babá que a gente não tem”.
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O impacto do “brainrot” na periferia
Os dados apontam que 100% dos filhos das participantes utilizam celular e internet. Em 67% dos casos, o uso é diário, enquanto 27% dizem que a utilização ocorre “às vezes”.
Embora todas as casas pesquisadas tenham acesso à rede, o uso frequente pelas crianças traz novos desafios. O principal deles é o contato com o fenômeno conhecido como “brainrot” (na tradução livre, “podridão cerebral”), que consiste em conteúdos que nada acrescentam ao aprendizado e estimulam o vício.
O “brainrot” tem mudado o comportamento dentro de casa. Segundo as famílias, é possível observar que o consumo desses vídeos está associado à perda de paciência e a uma necessidade de recompensa imediata: a criança passa a ter dificuldade em esperar e quer tudo “na hora”.
O estudo aponta, ainda, que a ausência de praças seguras, centros culturais, quadras e cinemas gratuitos nesses bairros limita severamente as opções das mães. Sem uma infraestrutura urbana de lazer por perto, a tela se transforma na única janela possível para o descanso ou a realização dos afazes domésticos.
“Nos distritos analisados pela pesquisa, por exemplo, o número de cinemas é praticamente inexistente: a Pedreira não possui nenhum, e Jardim Ângela e Jabaquara têm índices próximos de zero. O mesmo acontece com os centros e equipamentos públicos de cultura, que aparecem em proporções extremamente baixas quando comparados às regiões centrais da cidade”, destaca Stabile.
Famílias como geradoras de dados
De caráter qualitativo — método que permite aprofundar as respostas ouvindo um grupo mais focado —, o levantamento entrevistou 15 mães e cuidadoras da periferia de São Paulo e de Diadema. O grupo de filhos foi variado, contemplando desde a primeira infância até jovens adultos de 22 anos.
As próprias famílias geraram os dados da pesquisa. O OMPerifa, em parceria com o Instituto Salve Quebrada e o Nós, Mulheres da Periferia, utilizou uma metodologia conhecida como “Geração Cidadã de Dados”. Nela, em vez de as comunidades serem apenas objetos de estudo, elas participam ativamente da produção de informações sobre as próprias realidades.




