O avanço das apostas online no Brasil trouxe consigo um desafio de segurança pública que ultrapassa o vício em jogos: a lavagem de dinheiro.
Segundo o estudo exclusivo da TMC, feito pelo Instituto Esfera, as plataformas que operam no mercado ilegal tornaram-se ferramentas estratégicas para o crime organizado, que aproveita a porosidade entre os circuitos financeiros lícitos e ilícitos para “limpar” capitais provenientes de atividades criminosas.
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A assimetria que favorece o crime
A principal vantagem para as organizações criminosas reside na chamada assimetria regulatória. Enquanto os operadores licenciados precisam arcar com altos custos de conformidade, como sistemas rígidos de Prevenção à Lavagem de Dinheiro (AML) e verificação de identidade por reconhecimento facial, os sites irregulares operam sem qualquer monitoramento.
Essa ausência de controles permite que grandes somas entrem no sistema sem o escrutínio de órgãos como o Coaf. Além disso, a baixa “fricção” cadastral dessas plataformas — que frequentemente dispensam a identificação rigorosa do usuário — facilita o uso de “contas laranjas” para movimentar recursos de forma anônima.
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Criptoativos e “conversão via consumo”
O mercado ilegal oferece uma gama de meios de pagamento que são restritos ou vigiados no setor regulado, como o uso de criptoativos e cartões de crédito. Esses métodos dificultam o rastreio da origem do dinheiro, permitindo que recursos do tráfico de drogas ou roubo de veículos sejam inseridos no sistema como um simples “gasto de consumo”.
Uma vez apostado, o capital é posteriormente sacado como se fosse um prêmio lícito. Esse processo integra o dinheiro à economia formal com uma aparência de legalidade, dificultando a ação das autoridades.
Do jogo do bicho ao digital
O fenômeno não é novo, mas uma modernização de práticas seculares no Brasil. Historicamente, banqueiros do jogo do bicho já utilizavam a estrutura de apostas para fundar empresas legais, como hotéis e indústrias, demonstrando a permeabilidade entre o lícito e o ilícito.
O problema é agravado pelo fato de que 78% dos apostadores não conseguem distinguir se uma plataforma é legal ou não, segundo uma pesquisa do Instituto Locomotiva. As plataformas ilegais mimetizam as marcas autorizadas e operam em uma “zona cinzenta” que as mantém fora do radar da fiscalização.
O alerta dos especialistas
Especialistas sustentam que quanto maior o ônus regulatório e tributário sobre o mercado formal, maior é a margem de lucro e o incentivo para que o crime organizado utilize o circuito paralelo. Sem um enforcement eficaz que eleve o custo da transgressão, as “bets” ilegais continuarão funcionando como um subsídio involuntário do Estado à rentabilidade do crime.
