A gestora de recursos Reag sofreu liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central nesta quinta-feira (15/01). A medida ocorre na esteira da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal na quarta-feira, que investiga esquema de fraudes financeiras supostamente protagonizadas pelo Banco Master.
Fundada em 2012 pelo empresário João Carlos Mansur, a gestora teve interesse e ligações com áreas variadas, como futebol e cinema e foi acusada de ter envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
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Antes de sua liquidação, a Reag administrava R$ 341,5 bilhões em ativos até julho de 2025. Desde sua criação, se tornou uma das maiores administradoras independentes de recursos do país.
A liquidação da Reag pelo Banco Central acontece após a Polícia Federal identificar transações suspeitas entre fundos administrados pela gestora e o Banco Master. Uma das operações investigadas apresentou rentabilidade de 10.502.205,65% em 2024, levantando sérios questionamentos sobre sua legalidade.
As autoridades detectaram uma sequência de transações relâmpago realizadas por fundos da Reag DTVM a partir de um empréstimo de R$ 459 milhões concedido pelo Banco Master. Mansur, que possui formação em ciências contábeis e MBA pela FGV, foi um dos alvos da operação policial.
Em agosto de 2025, a Reag já havia sido alvo da Operação Carbono Oculto, conduzida pelo Ministério Público de São Paulo em parceria com a Polícia Federal e a Receita Federal. As investigações revelaram que 11 fundos ligados à gestora teriam sido utilizados em um esquema bilionário de lavagem de dinheiro do PCC.
De acordo com o MP-SP, empresas formuladoras de combustível vinculadas à facção criminosa importaram R$ 10 bilhões em nafta, hidrocarbonetos e diesel entre 2020 e 2024. O dinheiro movimentado nos postos totalizou R$ 52 bilhões nesse período.
A Receita Federal identificou aproximadamente 40 fundos de investimentos controlados pelo PCC, com patrimônio estimado em R$ 30 bilhões. Desse total, 11 fundos eram administrados pela Reag.
Os valores chegavam ao sistema financeiro por meio de fintechs, que recebiam tanto pagamentos por cartão quanto depósitos em dinheiro. Entre 2022 e 2023, essas operações somaram mais de R$ 61 milhões, distribuídos em cerca de 10 mil depósitos.
Os fundos investigados adquiriram um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool, 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis. Havia ainda planos para comprar mais duas usinas.
A Reag cresceu rapidamente no mercado financeiro brasileiro, principalmente pela aquisição de mandatos de fundos exclusivos utilizados por famílias de alta renda e pela compra de gestoras menores. A empresa operava em São Paulo e administrava mais de 500 fundos de investimento.
Antes das investigações, a gestora mantinha parcerias com entidades culturais e esportivas paulistas. A empresa havia dado nome ao cinema Belas Artes, na região da Avenida Paulista, contrato encerrado antecipadamente em dezembro após o início das investigações.
No futebol, a Reag e Mansur tinham forte atuação. Por meio da Reeve, empresa que tem Mansur como sócio, a gestora administrava a SAF da Portuguesa, com promessa de R$ 1 bilhão em investimentos ao longo de 20 anos para reforma do Estádio do Canindé e reestruturação do clube.
A Reag também liderou negociações para a SAF do Juventus da Mooca, com planos de aportes de R$ 480 milhões e modernização do Estádio Conde Rodolfo Crespi. Mansur participou ainda do conselho do Palmeiras e atuou como gestor financeiro do estádio do Corinthians.
Leia mais: Quem é João Carlos Mansur, fundador de fundo ligado ao Banco Master e alvo da PF
Em setembro de 2025, após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Reag anunciou a venda de seu controle acionário. Na ocasião, Mansur deixou a presidência do conselho da empresa.
Além de suas atividades na Reag, o empresário ocupou posições em conselhos de administração de diversas empresas, incluindo o Grupo Azevedo & Travassos, SteelCorp, Lux Oil & Gas International e GetNinjas.
