A Justiça negou o pedido de revogação da prisão de Raphael Sousa Oliveira, de 31 anos, criador da página Choquei. O influenciador digital foi preso na quarta-feira (15/04) em Goiânia durante operação que investiga organização criminosa suspeita de movimentar R$ 1,6 bilhão em transações ilegais. Na sexta-feira (17/04), ele foi transferido para o Complexo Prisional Policial Penal Daniella Cruvinel, em Aparecida de Goiânia.
A Operação Narco Fluxo foi deflagrada pela Polícia Federal em nove estados. A investigação apura esquema de lavagem de dinheiro por meio de apostas ilegais, rifas digitais, empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e criptoativos. Além de Raphael, foram presos o influenciador Chrys Dias, que possui quase 15 milhões de seguidores, e outros produtores de conteúdo. Entre os alvos da operação também estão os funkeiros MC Poze do Rodo e MC Ryan SP, presos respectivamente no Rio de Janeiro e em Bertioga, no litoral paulista.
O advogado Frederico Moreira confirmou ao g1 a negativa do pedido. O juiz responsável fundamentou a decisão alegando necessidade de aguardar o avanço da apuração para proferir sentença com maior segurança. A defesa havia impetrado Habeas Corpus e pedido de revogação da prisão.
“Em primeira instância isso já está decidido. Vamos avaliar a viabilidade agora“, disse Frederico.
A audiência de custódia foi realizada na quinta-feira (16/04). A decisão judicial que manteve a prisão foi proferida antes da transferência do influenciador para o complexo prisional.
Valores investigados e função atribuída
A investigação identificou que Raphael recebeu R$ 370 mil do funkeiro MC Ryan SP por serviços de publicidade. O delegado Hugo Lisita questionou os valores durante o depoimento. Do total, R$ 270 mil foram identificados em movimentações entre 2024 e 2025. Outros R$ 100 mil foram registrados como transferência de pessoa desconhecida.
O pedido de busca e apreensão da 5ª Vara Federal de Santos, obtido pelo g1, indica que a função de Raphael “consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagem relacionadas às investigações”.
A decisão da 5ª Vara Federal de Santos aponta que o influenciador atuava como “operador de mídia”. Ele utilizaria o alcance de sua plataforma digital para gerir a imagem do grupo e promover atividades ilícitas.
A investigação aponta Ryan Santana dos Santos (MC Ryan SP) como principal beneficiário econômico do esquema. A estrutura contaria com apoio de operadores financeiros, contadores, intermediários, empresas de marketing, produtoras musicais e plataformas de pagamento.
Transferência não identificada
A identidade do autor da transferência de R$ 100 mil permanece desconhecida. O influenciador não se lembra do nome do autor da transferência. O advogado Frederico Moreira explicou que essa prática acontece no meio artístico.
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“O contratante fala que tem uma pessoa que está devendo a ele ou que também está participando do projeto artístico ou musical e que essa pessoa fará um ou outro pagamento para ajudar no custeio das despesas“, disse Frederico.
Sobre a transferência de R$ 100 mil, o advogado afirmou: “O Raphael suspeita que seja um terceiro que tenha pago algo em favor do MC Ryan“.
O advogado relatou que ainda não teve contato com Raphael após a audiência de custódia. A expectativa era de soltura. Ele chegou à sede da Polícia Federal pouco antes de Raphael ser transferido para o presídio. Não são permitidas visitas na unidade prisional aos finais de semana. Apenas familiares cadastrados podem ter acesso ao detento.
A investigação é desdobramento das operações Narco Vela e Narco Bet. Surgiu após a Polícia Federal analisar dados extraídos do iCloud do contador Rodrigo de Paula Morgado. Os investigadores identificaram estrutura financeira paralela usada para captar, fragmentar, ocultar e reinserir dinheiro no mercado formal.
MC Poze é transferido para Bangu 1
O funkeiro MC Poze do Rodo foi transferido na sexta-feira (17/04) para o presídio de Bangu 1, no Complexo de Gericinó, Zona Oeste do Rio. A Justiça Federal manteve a prisão do cantor após a audiência de custódia realizada na manhã de quinta-feira (16/04). A audiência aconteceu de forma virtual em uma sala do Presídio José Frederico Marques, em Benfica, Zona Norte do Rio, onde Poze estava preso desde a tarde de quarta-feira (15/04).
O cantor permaneceu em silêncio na sede da Polícia Federal após ser preso em casa, na manhã de quarta, em um condomínio de luxo no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Sudoeste do Rio. Segundo o advogado Fernando Henrique Cardoso Neves, a defesa ainda não teve acesso ao teor das acusações que motivaram a prisão.
“Pelo que entendi, é uma investigação da Polícia Federal de São Paulo junto à Justiça Federal de São Paulo. Os agentes daqui também não sabem do que se trata, já que apenas cumpriram mandados, deram apenas cumprimento à diligência sem saber do conteúdo delas“, destacou Fernando Henrique.
Ainda segundo o advogado, o artista foi surpreendido pela prisão e nega qualquer irregularidade. A defesa informou que pretende acessar os autos do processo para compreender as circunstâncias do caso e prestar esclarecimentos à Justiça. O advogado também declarou que deve entrar com um pedido de habeas corpus para que o cantor responda à investigação em liberdade.
Esta é a terceira vez que Poze vai para a cadeia. No ano passado, ele foi preso pela Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), da Polícia Civil do RJ, por apologia ao crime e por envolvimento com o tráfico de drogas — na ocasião, o cantor também era investigado por lavar dinheiro do Comando Vermelho (CV).
Segundo a DRE, Poze realizava shows exclusivamente em áreas dominadas pelo CV, com a presença ostensiva de traficantes armados com fuzis, a fim de garantir a “segurança” do artista e do evento. Ainda de acordo com a delegacia, o repertório das músicas de Poze “faz clara apologia ao tráfico de drogas e ao uso ilegal de armas de fogo” e “incita confrontos armados entre facções rivais, o que frequentemente resulta em vítimas inocentes”.
A especializada afirma que shows de Poze são estrategicamente utilizados pela facção “para aumentar seus lucros com a venda de entorpecentes, revertendo os recursos para a aquisição de mais drogas, armas de fogo e outros equipamentos necessários à prática de crimes”. A prisão foi em 29 de maio de 2024. Em 3 de junho, ele foi solto, após a Justiça conceder um habeas corpus.
Seis anos antes, em 28 de setembro de 2019, Poze foi preso em flagrante após um show em Sorriso, a 420 km de Cuiabá. A Polícia Militar mato-grossense disse ter recebido diversas denúncias sobre a festa em uma boate no bairro Setor Industrial onde ocorria um baile funk com a presença do músico carioca. A denúncia dizia que havia diversos menores de idade que consumiam bebida alcoólica e droga na festa, além de apontar o MC como responsável por incitar crimes.
Uma força-tarefa de policiais militares, civis e Conselho Tutelar foi até o evento, que acabou fechado pelas autoridades. Pelo menos 40 menores foram flagrados consumindo bebidas alcoólicas e usando maconha e cocaína e foram encaminhados ao Conselho Tutelar. Outros 3 homens foram presos, além de Poze, apontados como organizadores do evento.
Operação em nove estados
Segundo a Polícia Federal, os envolvidos usavam um sistema para ocultar e dissimular valores, incluindo operações financeiras de alto valor, transporte de dinheiro em espécie e transações com criptoativos. Cerca de 200 policiais federais saíram para cumprir 39 mandados de prisão temporária e 45 de busca e apreensão expedidos pela 5ª Vara Federal em Santos (SP), em endereços nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná e Goiás, além do Distrito Federal. Também foi determinado o sequestro de bens.
Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos que subsidiarão o aprofundamento das investigações.
Raphael possui 1,4 milhão de seguidores em uma rede social. A página Choquei possui mais de 27 milhões de seguidores no Instagram. Já realizou quase 74 mil postagens. A página é conhecida por publicar fofocas sobre celebridades e reality shows, além de memes e acontecimentos de grande repercussão no Brasil e no mundo.




