Documentos da nova leva de evidências do caso Jeffrey Epstein, divulgadas na última sexta-feira (30/01), revelaram que um sócio do financista – condenado por tráfico e exploração sexual de menores, falecido em sua cela na prisão em 2019 – traçou e enviou a ele planos para acessar ativos congelados na Líbia em 2011. Na época, o país vivia uma crise política em meio a rebeliões apoiadas pela OTAN contra o então presidente Muammar Gaddafi.
O e-mail aponta, conforme apuração do Al Jazeera, que o país africano teria aproximadamente 80 bilhões de dólares paralisados internacionalmente; destes, 32,4 bilhões estariam nos Estados Unidos.
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O sócio de Epstein teria dito na correspondência que ex-membros de agências de inteligência como o MI6 (Reino Unido) e o Mossad (Israel) tinham interesse em identificar e recuperar o que chamaram de “ativos roubados”.
“A verdadeira ‘cenoura’ [incentivo] será se conseguirmos virar os contatos deles [Líbia], porque eles planejam gastar pelo menos 100 bilhões de dólares no ano que vem para reconstruir o país e ‘dar a partida’ na economia”, afirma o e-mail.
Em 2011, a Líbia foi ocupada por tropas da OTAN – liderada pelos Estados Unidos, França e Reino Unido – após autorização da ONU, e a intervenção militar da aliança deu aos rebeldes as condições para combater o presidente Gaddafi, forçando-o a deixar o país.
No dia 20 de outubro daquele ano, Gaddafi foi capturado e morto. A ação foi atribuída às forças da Líbia, mas o fato ainda não foi totalmente confirmado até hoje, e é questionado por pessoas como o presidente da Rússia, Vladimir Putin; para ele, os Estados Unidos teriam sido responsáveis pela morte de Gaddafi, visando tomar o controle do país africano.
Os e-mails do sócio de Epstein citando “oportunidades” na Líbia em meio a um momento de instabilidade no país, bem como a forte ligação do financista com políticos e empresários de alto escalão em todo o mundo, reacenderam as suspeitas de que os eventos na Líbia podem ter acontecido de forma diferente do que disseram as autoridades na época.
O que foi o “Caso Epstein”, e por que ele importa
Jeffrey Epstein foi um financista estadunidense notório por ter cultivado, com seu dinheiro e influência, um círculo social de elites em todo o mundo. O magnata viria a transformar seu enorme livro de contatos em uma rede global de tráfico e exploração sexual de menores de idade, e chegou a ser condenado por prostituição de uma menor em 2008.
Epstein era conhecido pelas festas que promovia em sua “ilha pessoal”. Participaram dessas festas celebridades, atletas, políticos, empresários, cientistas e pessoas notáveis de praticamente todas as áreas da sociedade, o que também dava a Epstein acesso e poder inimagináveis; tanto pelo contato direto entre ele e as elites, quanto pela conhecida chantagem que o financista realizava com seus clientes, que temiam que Epstein divulgasse o que fizeram na sua mansão caso não o obedecessem. A mansão do financista contava com uma enorme quantidade de câmeras e microfones, capturando tudo que ali acontecia.
Quando o financista foi preso em 2019 por tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York, a população e setores da política dos Estados Unidos pressionaram o governo Trump a extrair de Epstein toda a verdade sobre os “Arquivos Epstein” – suas correspondências, os registros de voos para sua ilha, quem esteve na casa dele ao longo dos anos, entre outros.
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A verdade, porém, ficaria obstruída; no dia 10 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein morreu na prisão, alegadamente após se suicidar em sua própria cela. Especialistas forenses desafiam a conclusão do poder público, e uma fita do FBI dizendo mostrar vídeos das câmeras de segurança do presídio possuía quase 3 minutos de imagens perdidas.
A divulgação dos “Arquivos Epstein” foi ignorada, contra a vontade e os protestos da população, pelos governos Biden e Trump até 2025. Depois de prometer, em sua campanha, que divulgaria os Arquivos Epstein caso fosse reeleito, o atual presidente Donald Trump o fez com quase um ano de atraso e resistência.
Documentos nos Arquivos Epstein “podem ser falsos”, alega governo Trump
Os novos documentos divulgados no caso Epstein podem ser livremente acessados no portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que encabeça os esforços do Ato de Transparência dos Arquivos Epstein.
Mesmo assim, o próprio Departamento comunicou uma mensagem confusa em nota oficial: no mesmo texto, o órgão afirma que realizou uma inspeção rigorosa da documentação enviada ao FBI, mas também alega que podem existir provas “falsas ou falsamente submetidas”, especialmente aquelas que incluírem “acusações contra o Presidente Trump”.
