O banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, afirmou ter recebido orientação do Banco Central para procurar André Esteves, sócio-sênior e chairman do BTG Pactual. A informação consta em mensagens trocadas entre Vorcaro e sua namorada, a influenciadora Martha Graeff, obtidas pela Polícia Federal. Vorcaro está preso desde quarta-feira (04/03).
Os diálogos revelam tensão entre os dois banqueiros ao longo de vários meses, entre novembro de 2024 e abril de 2025. O proprietário do Banco Master via Esteves como um adversário empresarial durante a crise de liquidez enfrentada pela instituição.
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Encontros e pressões de mercado
Em 4 de novembro de 2024, Vorcaro relatou ter participado de um evento ao lado de Esteves. “Amor, me colocaram do lado do André Esteves no evento. Aí vem um […] e fica pedindo pra tirar foto. Eu e André esquivando”, escreveu o banqueiro à namorada.
Três dias depois, em 7 de novembro, ele mencionou um suposto ataque de mídia. “Tô resolvendo um ataque de mídia que o André Esteves fez agora aqui, amor, desculpe”, afirmou Vorcaro.
Em 19 de novembro, o proprietário do Master voltou a relatar pressões. “Nossa, tô tomando um aperto gigante aqui de mercado”, disse. Ele acrescentou: “Esteves me deu uma espremida pra ele ficar com o banco”. O banqueiro concluiu: “Virei alvo”.
Proposta e orientação do BC
Em abril de 2025, Vorcaro descreveu à namorada um novo encontro com Esteves. O chairman do BTG teria apresentado uma proposta pela compra do Master e tentado dissuadi-lo de negociar com o Banco de Brasília (BRB). “André disse que era o maior banqueiro do mundo. E ele era Deus que apareceu na nossa vida”, relatou Vorcaro. O banqueiro prosseguiu: “Que tínhamos que agradecer a Deus a proposta dele e esquecer o BRB”.
Na mesma conversa, Vorcaro afirmou ter procurado Esteves seguindo orientação do Banco Central. “Fui la porque [o] Banco Central pediu, porque ele é ardiloso”, disse. Ele completou: “Entra na mente dos caras do Bacen [Banco Central]. Mas turma nossa tá pegando pesado demais. Essa semana fui massacrado”.
O encontro contou também com a presença de Augusto Lima, antigo sócio de Vorcaro e proprietário do Banco Pleno. As mensagens não especificam os locais exatos dos encontros entre os banqueiros.
Não fica claro pelo conjunto das mensagens quem, dentro do Banco Central, teria orientado Vorcaro a procurar o BTG Pactual.
Crise de liquidez do Master
O contexto das mensagens envolve a crise de liquidez enfrentada pelo Banco Master desde novembro de 2024. A instituição oferecia Certificados de Depósitos Bancários com taxas de retorno acima do mercado. Essa estratégia gerava desconfiança no setor financeiro.
Para cumprir esses compromissos, o banco ampliou sua carteira de ativos de risco. A medida aumentou a preocupação de investidores e outros bancos sobre uma possível quebra. O BTG Pactual era considerado um dos potenciais interessados em operações do Master.
Em 2025, Vorcaro deu início a conversas com o BRB para que o banco público comprasse parte dos ativos do Master. Foi anunciada uma transação envolvendo a venda de ativos do Master para o BTG no valor de R$ 1,5 bilhão.
O acordo de maior valor fechado por Vorcaro foi com o BRB. A negociação envolveu a venda de R$ 12,2 bilhões em ativos da carteira do Master. A transação é alvo das investigações da Polícia Federal que apuram supostos crimes contra o sistema financeiro praticados por Vorcaro.
Liquidação do Master e outros bancos
Em novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Master. Desde então, a autoridade monetária liquidou outros três bancos ligados direta ou indiretamente ao Master. O Banco Pleno, de Augusto Lima, foi liquidado pelo BC no mês passado.
Após a liquidação do Master, foram levantados questionamentos sobre a atuação do Banco Central ao longo do processo de crise de liquidez do banco. As questões envolvem se o BC agiu corretamente ou se teria demorado a atuar.
Investigações apontam orientações irregulares
As investigações conduzidas pela Polícia Federal indicam que dois servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, teriam dado orientações a Vorcaro de forma supostamente irregular. Os diálogos surgem enquanto a PF investiga indícios de que os dois servidores teriam atuado como “consultores” para Vorcaro. Essa atuação seria ilegal, pois os funcionários deveriam fiscalizar o Banco Master.
Em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal, a PF apontou suspeitas de que a dupla receberia pagamentos ou vantagens indevidas, como viagens à Disney, em troca das orientações. O ministro André Mendonça determinou o uso de tornozeleira eletrônica e o afastamento de ambos de suas funções.
Perfis distintos no mercado financeiro
No mercado, os dois banqueiros eram vistos como personagens de estilos distintos. Esteves ficou conhecido pelo perfil negocial ousado, mas discreto e reservado no plano pessoal. Vorcaro era visto como um novato no mercado financeiro com grande exposição na mídia e em redes sociais, além de um estilo de vida extravagante.
Os dois banqueiros têm em comum o fato de já terem sido presos por investigações conduzidas pela Polícia Federal. Em 2015, Esteves foi preso pela Operação Lava Jato, suspeito de tentar obstruir o trabalho dos investigadores que apuravam uma promessa de pagar R$ 50 mil para a família do ex-diretor da Petrobras e delator Nestor Cerveró. Esteves negou ter cometido qualquer crime, foi liberado posteriormente e não foi condenado pelo episódio.
Operação Compliance Zero
O banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela segunda vez na quarta-feira (04/03) durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. A prisão ocorreu em meio a investigações da Polícia Federal que apuram supostos crimes contra o sistema financeiro.
A terceira fase da operação apura também a formação de um grupo para monitorar e ameaçar adversários de Vorcaro. Segundo as investigações, participariam deste grupo Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro; Luiz Phillipi Mourão, chamado de “Sicário”, que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro; e o policial federal Marilson Roseno da Silva.
Os quatro envolvidos no suposto grupo de monitoramento foram presos. Mourão, no entanto, foi transferido para um hospital em Belo Horizonte, em Minas Gerais, após, segundo a Polícia Federal, ter tentado se matar enquanto estava sob custódia. Segundo sua defesa, Mourão encontra-se em estado grave.
O que dizem os envolvidos
O BTG Pactual enviou nota à BBC News Brasil negando interesse em comprar o BRB. “Nunca houve interesse na aquisição do Banco Master. Nossa atuação limitou-se à aquisição estratégica de ativos não problemáticos, visando prover liquidez à instituição em janelas pontuais de mercado”, disse a nota.
A defesa de Vorcaro informou que não iria se manifestar sobre o episódio. A defesa do banqueiro afirma que ele não cometeu irregularidades e que está cooperando com as investigações.




