A arrecadação do governo federal com casas de apostas — as chamadas bets — somou R$ 2,5 bilhões no primeiro bimestre de 2026, um crescimento de 236% em relação ao mesmo período de 2025, quando o valor foi de R$ 756 milhões.
Os dados refletem a consolidação da regulamentação do setor de apostas de quota fixa, que passou a operar plenamente no país a partir de 2025. A formalização ampliou a base tributável, permitiu maior fiscalização e trouxe para o sistema receitas que antes estavam fora do alcance do Fisco.
Segundo relatório do Ministério da Fazenda, o setor de exploração de jogos de azar e apostas arrecadou R$ 2,538 bilhões entre janeiro e fevereiro, mais que triplicando o resultado do ano anterior.
A tributação atual incide sobre a receita bruta das apostas (GGR), com alíquota de 12%, que deverá subir gradualmente: 13% em 2026, 14% em 2027 e 15% em 2028.
Apesar do avanço, especialistas alertam que o potencial arrecadatório do setor está longe de ser plenamente capturado.
Mercado ilegal limita ganhos
Estudo da TMC, elaborado pelo Instituto Esfera e coordenado pelo professor da USP Luís Fernando Massonetto, indica que o mercado ilegal já representa entre 41% e 51% das apostas no Brasil.
Segundo o levantamento, esse segmento movimenta entre R$ 26 bilhões e R$ 40 bilhões por ano, o que gera uma perda de arrecadação que pode chegar a R$ 10 bilhões anuais.
Ou seja, a arrecadação atual poderia ser significativamente maior caso essas operações estivessem dentro do sistema regulado e tributado.
O estudo aponta ainda que o próprio modelo regulatório pode estar favorecendo, de forma indireta, a clandestinidade. Isso porque os custos de conformidade impostos às empresas legalizadas acabam sendo repassados ao consumidor, tornando as plataformas ilegais mais competitivas.
Dificuldade de identificação e concorrência desleal
Outro fator crítico é a dificuldade do usuário em distinguir sites legais dos ilegais. Segundo dados do Instituto Locomotiva citados no estudo, 78% dos apostadores afirmam não saber identificar se uma plataforma é regularizada.
Além disso, operadores clandestinos costumam oferecer vantagens como:
- odds (cotações) mais altas
- menos exigências de cadastro
- ausência de mecanismos de controle, como reconhecimento facial
Essas práticas aumentam a migração para o mercado irregular, que não paga impostos e não segue regras de proteção ao consumidor.
Risco de aumento da informalidade
O estudo também faz um alerta sobre o aumento da carga tributária. Medidas como a proposta da Cide-Bets, que prevê tributação adicional sobre depósitos, podem ter efeito contrário ao desejado.
Em ambientes digitais, onde o acesso a sites estrangeiros é imediato, o aumento de impostos tende a estimular ainda mais a migração para plataformas ilegais, reduzindo a arrecadação e enfraquecendo o mercado regulado.
Experiências internacionais, como as de Colômbia e Bélgica, mostram que excesso de tributação pode impulsionar o mercado paralelo, em vez de ampliá-lo sob controle estatal.
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Desafio: equilibrar arrecadação e competitividade
Embora a arrecadação com bets já represente uma nova fonte relevante de receita para o governo, o cenário indica que o principal desafio será equilibrar tributação, fiscalização e competitividade.
Sem isso, parte significativa do setor deve continuar operando à margem da lei — limitando o potencial de arrecadação e ampliando riscos para os consumidores.




