Enquanto procurava qual das ESPN’s exibiria a loteria do draft da NBA, Endrick aparecia como o destaque da chamada para Toulouse x Lyon no carrossel da ESPN dentro do Disney+ no domingo à tarde. O brasileiro ajudou a impulsionar os jogos do Campeonato Francês, transmitidos via CazéTV, dona dos direitos desde 2024.
O penúltimo jogo do Lyon no torneio acumulava mais de dois milhões de views até o início desta semana.
No próximo dia 4, completará um ano desde que a Disney anunciou o acordo para ter o canal de Casimiro dentro de seu ecossistema. O contrato foi fechado cinco semanas antes de a CazéTV divulgar em julho do ano passado a transmissão dos 104 jogos da Copa do Mundo.
A sequência das datas não é uma mera coincidência.
Hoje, as partes avaliam uma prorrogação da parceria. E o timing do Mundial é estratégico para uma renegociação de contrato, colocando a CazéTV “com muito leverage”, conforme me disse uma pessoa do mercado.
A Premier League foi a barganha posta sobre a mesa pela LiveMode/CazéTV para considerar uma extensão dos laços com a Disney, que não hesitou em conversar sobre sua cobiçada propriedade de futebol. Há apenas três meses, a companhia desembolsou 450 milhões de libras (R$ 2,7 bilhões) para garantir a liga mais rica do planeta até 2030/31.
Faltando menos de um mês para a Copa, a Disney sabe que ter o único canal com todas as partidas da competição dentro de seu streaming é uma vantagem para prender o assinante lá, enquanto acompanha a cobertura via ESPN.
E do ponto de vista financeiro, o que está em jogo?
Na primeira parte do artigo publicado esta semana, trouxe a tese de Josh Stein para contextualizar os resultados financeiros da ESPN e seus gastos com direitos que chegam a US$ 11 bilhões/ano. O analista diz que esses direitos deveriam ser tratados como crédito, não como despesa de mídia.
Aplicado, agora, ao desdobramento das conversas entre Disney e CazéTV, o raciocínio de Stein sinaliza uma assimetria da negociação.
O analista defende: “O produto é o relatório de resultados da Disney, onde os gastos com esportes da ESPN são apenas um dos 50 itens listados. O ativo é um contrato de 11 anos com uma contraparte com classificação de grau de investimento.”
Aqui, o ativo citado remonta ao contrato de US$ 76 bilhões fechado pela ESPN com a NBA há dois anos.
Comparando os dois casos, a diferença é que os direitos da Disney estão incorporados a um balanço corporativo gigantesco, o “produto” que Stein descreve, enquanto os direitos da CazéTV são isoláveis, financeiramente legíveis e facilmente precificáveis.
Quando a LiveMode/CazéTV pleiteia a Premier League para negociar com a Disney, ela pede um ativo cuja precificação, na estrutura de crédito de Stein, é mais limpa do que a dos ativos que a ESPN já possui. Aqui, temos a legibilidade financeira de um player enxuto contra o balanço inchado de um conglomerado.
Para dimensionar esse desequilíbrio, considere um número: a ESPN ainda recebe cerca de US$ 15 mensais de cada um dos 61 milhões de lares com cabo ou serviços como YouTube TV ( aproximadamente US$ 1 bilhão por mês) antes mesmo de vender anúncios, segundo dados do The Athletic. Em 2011, pouco mais de três décadas após sua estreia, o canal já havia atingido 100 milhões de assinantes.
Esse é o fluxo de caixa recorrente, indexado ao modelo de distribuição tradicional, que a Disney protege ao manter a ESPN no portfólio. É uma estrutura que a CazéTV não tem, e talvez nem almeje.
Os números do negócio da LiveMode/CazéTV são mantidos sob sigilo, porém a arrecadação mais recente indica cerca de R$ 2 bilhões em cotas de patrocínio apenas para a Copa. Trata-se de um modelo diferente: eventos de pico e alcance gratuito, em contraponto com receita recorrente e balanços inchados.
É nesse contraste de formatos, assinatura recorrente X eventos de pico, balanço corporativo X operação enxuta, IP enterrado X IP legível, que a chamada “corrida armamentista” descrita por Evan Shapiro ganha implicações financeiras no atual cenário de mídia esportiva.
Conforme escreveu Shapiro esta semana, os direitos esportivos se tornaram o “imposto de sobrevivência” da TV, uma espécie de custo mínimo para estar na “primeira divisão do mercado.”
As big techs estão injetando US$ 30 bilhões em novos recursos nos próximos cinco anos, com Netflix, Google, Amazon e Apple respondendo por 88% desse montante.
No caso específico do futebol americano, o YouTube está próximo de adquirir o pacote de cinco jogos que a NFL oferece, enquanto a Netflix anunciou quinta, a adição de mais três partidas, além dos dois já garantidos no Natal, incluindo a abertura da temporada na Austrália, um confronto na véspera do Dia de Ação de Graças e um duelo da Semana 18.
Sem titubear, o analista crava que as grandes empresas de tecnologia podem e irão inflacionar os preços dos direitos sem se preocupar com lucros imediatos.
“A mídia tradicional sente que não tem escolha a não ser gastar ao máximo em esportes ao vivo, o único grande trunfo que gera audiência e receita. O problema é que seus orçamentos dificilmente sustentarão guerras de lances contra as big techs, pois a receita da mídia tradicional, mesmo via streaming, não supera os custos operacionais dessa corrida.”
Nesse contexto, a pergunta que fiz na primeira parte do artigo (valor do IP versus o valor tangível do alcance via plataformas) ganha uma nova reflexão.
As big techs inflacionam direitos a níveis que a mídia tradicional não consegue acompanhar, enquanto um player enxuto, operando sob a lógica de plataforma e não de grade, descobriu que pode sentar à mesa dos grandes mundiais com (muito) poder de barganha.
Um lugar que, a partir de agora, tem uma cadeira cedida pela LiveMode a Cristiano Ronaldo.