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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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A nova arte dos highlights na economia do esporte

A Corzek, um ateliê inglês de conteúdo que trata momentos do futebol como obras de arte, mostra por que os clipes, antes vistos como extensão das transmissões, começam a disputar espaço como conteúdo, memória e ativo comercial

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Foto: Corzek

O registro de Messi ajeitando a bola antes de decretar o empate da Argentina na sequência da virada épica sobre o Egito no ritmo do artilheiro da Copa do Mundo ganhou um “athletes are artists” no detalhe da imagem postada pela Corzek após a classificação.

Foi a primeira vez que o lema apareceu em meio a uma centenas de lances em câmera lenta embalados por uma trilha sonora imperdível que transforma o highlight esportivo em um clipe premium vertical.

Entre os exemplos mais recentes, estava o compilado de lances da Seleção Brasileira protagonizados por Vini Jr., Endrick, Bruno Guimarães, Matheus Cunha e Paquetá, acompanhado da mensagem “Prontos” e embalado pelo sonzaço de “Feet Don’t Fail Me Now”, de Joy Crookes.

O vídeo convocava para o jogo contra a Noruega sem fazer qualquer menção direta ao torneio, justamente pelas restrições envolvendo direitos. As imagens foram feitas pela Corzek para a CBF, com quem a a marca mantém uma parceria.

No fim, os pés brasileiros decepcionaram dentro de campo, mas o vídeo com cortes de partidas recentes da Seleção antes do Mundial segue recebendo interações de brasileiros frustrados com a eliminação.

Edward Medcalf explicou que encontrar a música certa em meio a uma grande biblioteca pode levar “cinco horas ou cinco minutos, desde que seja intencionalmente selecionada para o artista”.

Ele é um dos fundadores da Corzek, empresa que se apresenta como um ateliê de conteúdo e trata momentos do futebol como obras de arte.

O processo meticuloso da trilha sonora também se estende às demais etapas da cadeia de edição dos vídeos. Afinal, estamos falando de quem trata momentos do jogo como verdadeiras expressões artísticas.

“Não publicamos um vídeo até acreditarmos que fizemos absolutamente tudo para registrar aquele momento da maneira mais bela possível. Nenhum detalhe é pequeno demais para merecer nossa obsessão”, contou Medcalf.

A fixação pelo momento perfeito combina duas experiências aparentemente distintas: a influência cultural da Nike que moldou sua visão sobre esporte e a carreira profissional dentro da área de inovação da cadeia de suprimentos da empresa.

Foi também do Swoosh que veio Matt Webster, segundo sócio da Corzek, que ainda acumula uma passagem pelo Comitê Olímpico Internacional.

A formação do trio se completa com Taylor Munroe, que tentou a carreira de jogador profissional nas categorias de base do Chelsea ao lado de nomes que hoje fazem parte da seleção inglesa, como Reece James e Marc Guéhi.

Desde o ano passado, a Corzek ganhou uma extensão das operações no Brasil por meio de Felipe Campos Mello, filmmaker e produtor responsável por colaborar na construção da parceria com a CBF.

Como argumento para convencer a entidade, a Corzek apresentou números expressivos da parceria com a Premier League na última temporada.

Dados de conteúdos produzidos a partir de 13 jogos disputados entre setembro e janeiro deste ano mostraram mais de 300 milhões de visualizações, com média de 23 milhões de views por partida.

O dado sinaliza como os highlights tornaram-se uma extensão da transmissão para disputar atenção própria. E o tamanho dessa oportunidade aparece nos próprios números da Copa do Mundo.

Na semana passada, a Tubular Labs divulgou que a FIFA acumulava 146,8 bilhões de visualizações em vídeos nas redes sociais desde o início do evento até antes das quartas de final.

Em um ecossistema tradicionalmente dominado pelas imagens da transmissão e pelos highlights convencionais, a Corzek tem uma outra visão para alimentar a cauda cultural que se desdobra dos jogos ao vivo.

“Não se trata de produzir vídeos o mais rápido possível. Nosso objetivo é sermos os melhores do mundo em documentar a arte produzida no gramado. É pensar em alguém daqui a cem anos que queira vivenciar as histórias desta época. Queremos que essa pessoa procure justamente a nossa documentação dos maiores momentos”, explicou Medcalf.

São histórias como a conquista do Bayern de Munique na Bundesliga, os lances geniais de Messi na MLS e os destaques do Brasileirão no primeiro semestre.

Em 2024, a parceria firmada com o Arsenal foi responsável por ampliar as fronteiras da Corzek, ajudando a marca a se estabelecer como a única empresa de futebol inglesa autorizada pela Premier League a filmar a partir das arquibancadas.

A produção dessas peças depende de colaborações oficiais com detentores de direitos. A lista da Corzek já reúne nomes como Bayer Leverkusen, PSG, Ajax, EFL, UEFA, NBA e Adidas.

A trajetória da empresa toca em uma discussão que tenho acompanhado nos últimos anos: como os donos da propriedade intelectual nos esportes ainda subestimam o crescimento acelerado do valor do conteúdo social.

Durante a Euro de 2024, trouxe as provocações do analista Zach Yoshor para mostrar por que as ligas não conseguem se separar das plataformas sociais e, portanto, permanecem presas a um modelo em que direcionam bilhões de visualizações e dólares para grandes empresas de tecnologia enquanto pouco capturam desse valor em suas próprias receitas.

Neste ano, a FIFA deu um passo nessa direção ao estabelecer YouTube e TikTok como plataformas oficiais para tentar corrigir uma distorção histórica na cadeia de valor da mídia esportiva.

Quando a Corzek começou a ganhar escala, Medcalf lembra que um dos grandes desafios era justamente lidar com “a complexidade do ambiente de direitos, tanto de transmissão quanto de música”.

Ao mesmo tempo, a empresa enxergava uma oportunidade em um cenário no qual o modelo tradicional de comercialização por territórios entra em choque com a natureza global das plataformas sociais.

“À medida que os ciclos de direitos continuarem evoluindo, como já estão evoluindo hoje, acreditamos que o valor e a atenção orgânica gerados pelas redes sociais para os detentores de direitos passarão a desempenhar um papel muito mais importante, tornando-se uma parte essencial dos modelos de comercialização de direitos”, acredita Medcalf.

Não por acaso, Medcalf acredita que os highlights deixarão de ser apenas um subproduto das transmissões para se transformarem em ativos criativos e comerciais independentes dentro da economia do esporte.

A Corzek talvez ainda esteja no início dessa construção. Mas sua tese é uma provocação relevante para uma indústria que historicamente controlou a distribuição do esporte, mas demorou a perceber que também precisava disputar a criação da memória.

A visão dos fundadores: por que a Corzek acredita que atletas são artistas

Edward Medcalf (ex-Nike)

Eu não trabalhei diretamente em uma função de marca ou marketing na Nike. No entanto, a empresa moldou profundamente a forma como passei a enxergar o esporte durante a infância.

A campanha Joga Bonito, em meados dos anos 2000, provavelmente foi a mais impactante para mim. Meu irmão havia salvo todos os vídeos da campanha no PSP e eu assistia repetidamente.

Eu era muito novo para entender por que aqueles vídeos despertavam uma sensação tão especial, mas eles tinham todos os elementos: personagens interessantes, a expressão criativa dos maiores artistas do futebol, uma trilha sonora marcante, narrativa e uma forma completamente diferente de mostrar o jogo.

Até então, eu só conhecia os jogadores dentro de campo. Por isso, achava fascinante ver Wayne Rooney treinando como goleiro ou um jovem Ronaldinho jogando futsal.

Essa fase da Nike também estava muito conectada ao FIFA Street. O DJ Marky produziu algumas das minhas músicas favoritas daquele jogo e, quando a Corzek usou uma delas em um vídeo recente sobre o Brasil, ele entrou em contato dizendo que havia gostado muito.

Foi uma sensação surreal. Parecia que eu voltava a ser aquela criança de cinco anos jogando FIFA Street contra meu irmão e descobrindo aquela música pela primeira vez.

A experiência no esporte profissional fortaleceu nossa convicção de que os atletas são artistas e de que o esporte, no fim das contas, é uma forma de expressão criativa.

Matt Webster (ex-Nike e Comitê Olímpico Internacional)

As experiências na Nike e no Comitê Olímpico Internacional foram muito diferentes entre si.

Os aprendizados que adquiri em posições de liderança na maior marca esportiva do mundo e no maior evento esportivo do planeta influenciaram diretamente o posicionamento da Corzek e a forma como produzimos conteúdo.

Nossa crença de que os atletas são artistas coloca esses indivíduos no centro de tudo o que fazemos.

Passamos horas produzindo um vídeo para celebrar apenas alguns segundos de genialidade que, obviamente, são resultado de anos de treinamento.

Capturar esse atletismo, essa visão de jogo e essa habilidade está totalmente alinhado com a filosofia de marcas como Nike e os Jogos Olímpicos.

Também tivemos o benefício de trabalhar em equipes globais e construir uma rede de colegas que hoje estão espalhados por diferentes organizações esportivas e marcas ao redor do mundo.

Ainda não trabalhamos diretamente com algumas dessas organizações, mas estamos muito animados com os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028 e com as possibilidades que podem surgir.

As experiências na Nike e no Comitê Olímpico Internacional foram muito diferentes entre si.

Os aprendizados que adquiri em posições de liderança na maior marca esportiva do mundo e no maior evento esportivo do planeta influenciaram diretamente o posicionamento da Corzek e a forma como produzimos conteúdo.

Nossa crença de que os atletas são artistas coloca esses indivíduos no centro de tudo o que fazemos.

Passamos horas produzindo um vídeo para celebrar apenas alguns segundos de genialidade — que, obviamente, são resultado de anos de treinamento.

Capturar esse atletismo, essa visão de jogo e essa habilidade está totalmente alinhado com a filosofia de marcas como Nike e os Jogos Olímpicos.

Também tivemos o benefício de trabalhar em equipes globais e construir uma rede de colegas que hoje estão espalhados por diferentes organizações esportivas e marcas ao redor do mundo.

Taylor Munroe (ex-jogador das categorias de base do Chelsea)

Ter passado pelas categorias de base me fez perceber e valorizar a dedicação necessária para se tornar um atleta de elite.

Existe um nível enorme de sacrifício envolvido: mudar de cidade sozinho aos 14 anos, o esforço da família para levá-lo aos treinamentos três ou quatro vezes por semana, abrir mão dos próprios fins de semana para acompanhar jogos e treinos.

Para chegar ao mais alto nível, o esporte ocupa praticamente toda a sua vida.

Os segundos de genialidade que vemos dentro de campo são resultado de anos de trabalho invisível.

Uma pesquisa mostrou que um jogador de futebol passa apenas cerca de três ou quatro minutos com a bola durante uma partida de 90 minutos. Ou seja, ele precisa deixar sua marca nesse curto espaço de tempo se quiser se destacar.

No fim, são segundos de genialidade construídos sobre anos de dedicação.

O futebol também pode ser um ambiente bastante solitário. Muitos atletas passam a vida focados exclusivamente no esporte, aprendendo a ignorar distrações e influências externas.

Quando vemos alguém levantar um troféu, é fácil enxergar apenas a celebração. Mas, por trás daquele momento, existe uma trajetória inteira de escolhas, renúncias e trabalho.

Quando registro esses momentos, quero garantir que toda essa dedicação seja reconhecida da melhor forma possível.

Nossos vídeos são a representação mais clara da arte que existe no trabalho desses atletas.

Felipe Campos Mello (filmmaker e produtor; coordena a operação no Brasil)

Vivemos uma nova ordem de produção e consumo de conteúdos digitais que prioriza a publicação imediata em detrimento da qualidade. De certa forma, o projeto e a filosofia da Corzek se contrapõem a essa lógica.

No meio do scroll desenfreado das redes, deparar-se com algo mais lento e bem cuidado é uma forma de romper com esse padrão de consumo.

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