Eduardo Mendes
Eduardo Mendes Mais sobre o autor

Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

Últimas colunas Últimas colunas de Eduardo Mendes

A ruptura LiveMode + YouTube em Portugal e a pressão sobre a mídia legada

Fiz uma recapitulação dos cinco meses antes de Cristiano Ronaldo se tornar sócio: resistência da mídia tradicional, avanço do streaming, ataque ao Google, ruptura do funil TV → digital e criadores quebrando o estigma de “gamers” para replicar o fenômeno Casimiro na Europa

Por | Atualizado em:
(Divulgação LiveMode PT)

“The New Football Era” é o slogan da campanha para celebrar a parceria YouTube e LiveMode TV Portugal que mostrará 34 jogos da Copa do Mundo gratuitamente na plataforma. O torneio é o marco que reforça o outro lema: The Revolution Starts Now.

O português e vice-presidente do YouTube na Europa, Pedro Pina, divulgou oficialmente a parceria na última semana, quatro dias antes de a LiveMode anunciar Cristiano Ronaldo como sócio.

A cronologia proposital preparava terreno para reforçar a narrativa de que “a empolgação pelos esportes ao vivo no YouTube continua crescendo”. E, agora, passa a ter o jogador de futebol com maior alcance nas redes sociais também como embaixador do projeto.

Números compartilhados por Pina, medidos pelo próprio YouTube em setembro de 2025, mostram 7 milhões de usuários diários acima de 18 anos consumindo em média 45 minutos por dia, e 3 milhões assistindo via TV conectada.

O discurso do “futebol acessível, interativo e movido pela comunidade” busca contornar uma resistência que a LiveMode começou a gerar desde o anúncio de sua operação em Portugal, em dezembro passado.

No fim de março, Pedro Morais Leitão, presidente executivo da Media Capital (TVI), revelou ao jornal Expresso que a FIFA pediu 430 mil euros por cada jogo do Mundial 2026, o dobro do valor pago pela Copa do Catar quatro anos antes. A TVI recusou.

Segundo Leitão, a FIFA “viu no projeto LiveMode um instrumento para forçar as televisões abertas a aceitar preços irreais”. E endereçou críticas diretas ao Google por “apoiar o arranque da LiveMode no nosso país”.

Neste ano, o consumo de streaming atingiu um novo patamar em Portugal: 4,6 milhões de residentes acima de 15 anos (53,3%) utilizam estas plataformas. Segundo estudo da BStream, divulgado em fevereiro, 41,7% dos utilizadores acessam conteúdos diariamente ou quase todos os dias.

Entre janeiro e abril de 2025, 42,2% dos portugueses subscreviam pelo menos uma plataforma: Netflix, Disney+, HBO Max, Prime Video e Apple TV. O YouTube não foi citado.

Apesar dos ataques da Media Capital, a LiveMode PT e sua narrativa digital-first com transmissões lideradas por criadores despertaram a curiosidade da mídia local nos últimos meses.

Os argumentos recorrentes para mostrar como o YouTube passa a desafiar a TV tradicional no país apoiaram-se nas retóricas seguintes: “estratégia mais ampla do YouTube para se afirmar como player relevante em grandes eventos ao vivo”; “streaming, interação em tempo real e criadores de conteúdos”; “uma nova forma de viver o Mundial, gratuita, interativa e desenhada para momentos de partilha”.

No início deste mês, o podcast de negócios do Record recebeu Fábio Medeiros e João Mesquita, diretor de conteúdos e diretor-geral da LiveMode, para comentar a operação da empresa no país. O programa lembrava a abordagem de sucesso da CazéTV no Brasil: “Palavrões, jovens e negócio com futebol no YouTube: como a LiveMode quer revolucionar as transmissões em Portugal”.

Ao analisar o negócio em dezembro, Carlo De Marchis observava que a LiveMode romperia com padrões europeus: enquanto muitos experimentos esportivos gratuitos no continente funcionam como funil para apps de assinatura ou complementos de contratos de TV, a promessa da LiveMode é “radical” ao propor construir um evento principal sustentável, financiado por publicidade e liderado por creators, e não apenas “servir como trailer.”

Um desses criadores é Diogo da Silva, conhecido como Move Mind. Nascido na Twitch, foi premiado em 2022 em Milão, na categoria Live do About You Award, a maior honraria de criadores digitais da Europa.

No mesmo ano, estreou na SPORT TV como comentarista e narrador. Seu primeiro jogo foi Salernitana x Roma, à época treinada pelo português José Mourinho.

Embora influenciadores digitais tenham aparecido antes em transmissões esportivas em Portugal, a abordagem local não reconhecia nomes como Move Mind como criadores capazes de moldar a própria mídia, diferentemente do que ocorreu com Casimiro no Brasil.

A análise corrente lembrava que a SPORT TV já havia cruzado “o seu mundo com o Gaming” em 2020, com o programa SPORT TV Gaming News (17 episódios entre maio e agosto). Ou seja, o entendimento era de que influenciadores de games ganhavam espaço na mídia legada.

O novo choque de realidade que chega a Portugal via LiveMode PT, como observa De Marchis, é bem realista: pacotes da Copa do Mundo com jogos diários gratuitos no YouTube, impulsionados por creators e integrados a marcas, inseridos em uma Europa movida por uma cultura futebolística apaixonada.

A questão que De Marchis nos deixa é: isso se tornará o padrão em alguns anos, ou outros copiarão a abordagem da LiveMode?

Ao vivo
São Paulo
Ouça a TMC pelo Brasil
  • 100,1FM São Paulo
  • 101,3FM Rio de Janeiro
  • 100,3FM Curitiba
  • 88,7FM Belo Horizonte
  • 92,7FM Recife
  • 100,1FM Brasília
Notícias que importam para você
Copyright © 2026 CNPJ: 44.060.192/0001-05