Aos 39 anos, Messi simboliza uma nova era da longevidade no esporte e disputa terceira final de Copa

Com 114 jogadores acima dos 35 anos no Mundial, especialistas explicam como ciência, recuperação física e gestão de carreira estão prolongando o auge dos atletas

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(Foto: Brett Davis/Reuters)

Aos 39 anos de idade, Lionel Messi disputará a sua terceira final de Copa do Mundo, neste domingo (19/07), contra a Espanha. Apesar de estar na fase final da carreira, o jogador continua atuando em alto nível e soma 12 participações diretas em gol só nesta edição do Mundial. Ele tem mostrado que é possível alcançar longevidade no esporte, fazer história e seguir no auge.

Nesta Copa do Mundo, Messi não é o único exemplo de que a idade não significa um problema. 114 jogadores que disputaram o Mundial têm mais de 35 anos.

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“A longevidade do Messi reflete uma nova era no esporte. Antigamente, a carreira de um jogador parecia caminhar para o fim aos 30 anos; hoje, com a evolução da ciência esportiva e da gestão de carreira, eles jogam em alto nível até os 40 ou mais. Gerenciar um atleta agora vai muito além do campo, exige planejar ações que prolonguem seu auge físico e técnico. Além da genialidade, Messi é a prova de que, com planejamento estratégico e cuidado no extracampo, o tempo vira um aliado”, afirma Claudio Fiorito, CEO da P&P Sport Management, empresa que administra a carreira de mais de 150 jogadores ao redor do mundo, entre eles o zagueiro Vitor Reis, do Manchester City, e do centroavante belga Romelu Lukaku, do Napoli.

Entre as edições de 1930 e 2022, apenas sete jogadores entraram em campo com mais de 40 anos de idade. Só no Mundial de 2026, foram oito, dentre eles o goleiro Ochoa, do México, o croata Modric, e os atacantes Cristiano Ronaldo, de Portugal, e Dzeko, da Bósnia.

“Hoje a ciência faz uma distinção importante entre idade cronológica e biológica. Atletas que mantêm hábitos consistentes de treinamento, alimentação, sono e recuperação podem apresentar marcadores fisiológicos compatíveis com pessoas mais jovens. Isso não significa interromper o envelhecimento, mas retardar o declínio funcional. Talvez a maior mudança do esporte moderno seja justamente essa: não se trata mais de treinar mais, e sim de treinar melhor, recuperar melhor e monitorar melhor”, explica Bianca Carneiro, fisioterapeuta esportiva e especialista pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva e da Atividade Física (Sonafe Brasil).

Na visão de especialistas, outro fator que precisa ser levado em consideração é a conscientização dos atletas sobre a importância do cuidado e o preparo no extracampo. Hoje, os jogadores têm entendido que esta preparação adequada também faz toda diferença para o resultado e a performance que acontece dentro de campo.

“Estamos diante de uma geração que já iniciou sua carreira consciente de que seu preparo, ainda na adolescência, seria determinante para o quanto jogariam em alto nível. São muitos os que foram bem orientados também sobre os ganhos crescentes de remuneração, e o peso de mais quatro, cinco anos, na formação do patrimônio que vai financiar outras décadas sem os salários como atleta”, afirma Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de centenas de atletas, entre eles do atacante Endrick.

Para Rodrigo Zogaib, coordenador do Núcleo de Saúde do Santos, a medicina esportiva, o estudo sobre a saúde de atletas e o acompanhamento de atletas de alta performance evoluiu muito nas últimas décadas, e ele explica o motivo: “Hoje o atleta profissional, desde a primeira idade de criança, encontra uma condição muito diferenciada no que diz respeito à prevenção. Então, por exemplo, existe acompanhamento de profissionais da saúde em grandes clubes no Brasil desde seis, sete anos de idade”.

Com a evolução da medicina esportiva, a longevidade também é uma realidade nos outros esportes, não só no futebol. Dados recentes apontam que o tênis está entre as modalidades mais associadas à longevidade. Segundo estudo realizado pela Copenhagen City Heart Study (CCHS), que acompanhou mais de 8.500 pessoas por até 25 anos, apontou o tênis como modalidade associada ao maior ganho de expectativa de vida entre os esportes analisados, com uma média de 9,7 anos a mais do que pessoas sedentárias. Os pesquisadores atribuem o resultado à combinação entre atividade física, benefícios cardiovasculares, estímulo cognitivo e interação social.

“O tênis é uma das modalidades que melhor demonstra como a prática esportiva pode acompanhar uma pessoa por toda a vida. No alto rendimento, vemos atletas competindo em nível de excelência mesmo após os 35 anos, resultado da evolução da preparação física, da ciência do esporte e do planejamento de carreira. Ao mesmo tempo, nas competições da Federação Paulista de Tênis, é comum encontrarmos atletas na terceira idade em atividade, o que mostra que o esporte também é uma ferramenta importante para qualidade de vida e envelhecimento saudável”, comenta Danilo Gaino, presidente da Federação Paulista de Tênis.

A longevidade também aparece em outras modalidades de alto rendimento. Um dos maiores nomes da maratona brasileira, Paulo de Paula, que disputou três edições dos Jogos Olímpicos, continua competindo em alto nível aos 47 anos. Neste mês, disputou a NB 42K, em Porto Alegre, e terminou a prova à frente do queniano Eliud Kipchoge, considerado um dos maiores maratonistas da história. No judô, Rafael Silva, o Baby, encerrou a carreira apenas aos 37 anos, após conquistar três medalhas olímpicas e se tornar o judoca olímpico mais longevo da história do Brasil.

“Precisamos pensar na longevidade por meio do esporte. É um hábito que pode ser adquirido na infância e mantido ao longo de toda a vida, trazendo benefícios físicos e sociais. Quanto mais pessoas praticarem esporte em boas condições, maior será esse impacto para a saúde da população. Investir em infraestrutura esportiva também faz parte desse processo“, afirma Victor Schildt, triatleta e CFO da Recoma, empresa especializada em pisos e infraestrutura esportiva que mais executa Centros e Vilas Olímpicas multi-esportivas no país.

Para Emerson Appel, Gerente de Esportes e Relações Institucionais do Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), entidade responsável por conectar clubes, confederações, federações e atletas por meio do fomento esportivo, provido majoritariamente de recursos públicos federais, como as loterias (0,46% da arrecadação bruta), a longevidade no esporte de alto rendimento deixou de ser compreendida apenas como resultado do talento individual ou da preparação física. Atualmente, ela está diretamente associada à adoção de hábitos saudáveis e à existência de um ambiente estruturado que favoreça o desenvolvimento integral do atleta ao longo de sua carreira.

“O treinamento planejado, respeitando os princípios da periodização e da recuperação, aliado a uma alimentação equilibrada, ao sono de qualidade e ao acompanhamento multiprofissional, contribui para a prevenção de lesões, para a manutenção da capacidade física e cognitiva e para o prolongamento do desempenho esportivo em níveis elevados. Esses fatores permitem que o atleta desenvolva uma carreira mais sustentável, preservando sua saúde e ampliando suas possibilidades de evolução técnica e competitiva”, conclui Appel.

O executivo também afirma que, nesse contexto, os clubes brasileiros assumem papel estratégico ao oferecerem a infraestrutura necessária para que esses cuidados sejam efetivamente incorporados à rotina esportiva. “Instalações adequadas, centros de treinamento, equipes compostas por treinadores, preparadores físicos, fisioterapeutas, médicos, nutricionistas, psicólogos e demais profissionais especializados criam condições para uma formação esportiva contínua e de excelência”, completa.

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